Dia Nacional da Poesia: 5 livros de poetas brasileiras contemporâneas para ler e presentear
De luto e memória familiar a corpo, sonho e exaustão cotidiana, livros recentes da editora orlando mostram a poesia que está sendo escrita agora no Brasil
Em 31 de outubro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Poesia, data instituída em 2015 em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, nascido nesse mesmo dia, em 1902. Mais de um século depois, a poesia brasileira segue reinventando seus temas e suas formas, muitas vezes longe dos holofotes e a partir de vozes independentes.
Para a data, reunimos cinco livros de poesia publicados pela editora orlando, escritos por poetas que transformam corpo, casa, luto, trabalho, memória familiar e sonho em linguagem. São obras que vão do bestiário doméstico à colagem de histórias incompletas, do sarcasmo contra a positividade tóxica à travessia onírica de uma plaquete. Conheça as autoras e seus livros:
enxame: poesia que transforma a casa e o corpo em ecossistemas vivos
Em enxame, a poeta mineira Thaís Campolina reúne poemas que transitam entre o doméstico e o mitológico, tendo o corpo, a vida cotidiana e o reino animal como fios condutores. O livro se divide em cinco seções que evocam agrupamentos e comportamentos animais, como “A Colmeia”, “A Onça”, “O Bando”, “Rotas Migratórias” e “O Zumbido”, para mapear sobrevivência, estranheza e não pertencimento em um bestiário de experiências femininas. “Um fóssil”, escreve a poeta, é “uma cicatriz preservada do movimento de um corpo caindo”. A obra tem blurb de Dia Bárbara Nobre, orelha de Bárbara Mançanares e posfácio de Maria Emanuelle Osório Prates. Nascida em Divinópolis (MG), em 1989, Thaís estreou na poesia como uma das vencedoras do Prêmio Poesia InCrível de 2021, com eu investigo qualquer coisa sem registro, e publicou também estado febril (Macabéa, 2024). É especialista em Escrita e Criação pela Unifor, mediadora de leitura e curadora da página Bafo de Poesia.
Furacão Tornado: poesia e imagem para desenrolar as lacunas das histórias de família
Em Furacão Tornado, a poeta e artista visual Letícia Miranda constrói, a partir de palavras, imagens e montagens, um livro dedicado às suas duas avós já falecidas e marcado pela escassez. É uma tentativa de olhar pela fresta das histórias incompletas e de desenrolar, lentamente, as linhas de acesso ao passado. Nascida no Distrito Federal em 1996, Letícia estreou na poesia com A suspensão de Tomie Ohtake (Litteralux, 2022), fruto de investigações sobre a artista nipo-brasileira iniciadas em oficina com Carlito Azevedo. No campo visual, participou de exposições no Centro Cultural São Paulo, no Museu Nacional da República e na Casa Niemeyer, e tem obras no acervo do Palácio do Planalto. É doutoranda em Artes Visuais pela Universidade de Brasília e integra o Clube de Colagem de Brasília, o Grupo Antiquário e o Coletivo Zarafas.
Coleciono lutos como quem guarda selos: poemas sobre perdas cotidianas e a tentativa de sobreviver ao vazio
Em Coleciono lutos como quem guarda selos, Letícia Zampiêr escreve sobre uma separação, uma morte e um corpo: perdas cotidianas e compartilhadas que se materializam nos cantos vazios da casa, nas caixas de livros cama desarrumada, em uma cidade que se torna hostil e em um corpo que se torna inimigo. O livro foi um dos títulos selecionados na primeira chamada de originais da orlando e teve como gatilho de escrita a sobrevivência do vazio por meio da poesia. Nascida e criada em Juiz de Fora (MG), Letícia é psicanalista, pesquisadora e escritora, graduada em Psicologia pela UFJF, com especialização em Teoria Psicanalítica (UniAcademia) e mestrado em Comunicação (UFJF). Escreve e pesquisa sobre experiências dissidentes de gênero e sexualidade e é autora de Para provar que (não) te inventei (Patuá, 2024).
Amarga: poesia ácida contra a positividade tóxica das redes
Em Amarga, a jornalista e escritora brasiliense Maíra Valério constrói uma poesia ácida, sarcástica e profundamente humana sobre solidão, trabalho, amor, trauma e a pressão pela felicidade em tempos de redes sociais. Nas palavras da autora, é “um soco nas facetas dentárias de resina” que sorriem à força. Vencedor da segunda edição do Prêmio Tato Literário na categoria poesia, o livro se divide em cinco seções (“remela”, “vazio em full HD”, “mordendo a cutícula”, “indigestão” e “trabalhar pra morrer”) e abre com uma epígrafe de Hilda Hilst. A orelha é assinada por Thaís Campolina. Maíra tem especialização e mestrado na área de gênero, comunicação e saúde, já colaborou com veículos como Vice Brasil, Correio Braziliense e Tab UOL, e é autora de Homens que nunca conheci (Patuá, 2020) e Vulva revolução (negalilu, 2024).
Um sonho lúcido: plaquete que atravessa o sonho, o delírio e o retorno ao corpo
Em Um sonho lúcido, Laura Redfern Navarro conduz o leitor por uma travessia sensorial que entrelaça paisagens oníricas (campos labirínticos, salas desconhecidas, um cubículo no meio do oceano) a fragmentos de memória, amor e dissociação. Dividida em três blocos, a plaquete acompanha uma consciência que gradualmente se reconecta ao corpo, em um texto-caleidoscópio no qual o inconsciente pulsa em imagens vívidas. A obra dialoga com Alejandra Pizarnik, Orides Fontela, David Lynch e a estética dos liminal spaces. Poeta, jornalista, pesquisadora e fotógrafa experimental nascida em São Paulo em 2000, Laura é mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde investiga as intersecções entre a poesia de Pizarnik e os espaços liminares. Venceu o ProAC/2022 na categoria poesia com O Corpo de Laura (Mocho Edições), tem seis livros publicados e divulga poesia contemporânea de autoria feminina na página @matryoshkabooks.
No Dia Nacional da Poesia, vale escolher uma dessas poetas e se deixar levar por seus enxames, furacões, lutos, amarguras ou sonhos. Todos os livros estão disponíveis no site da editora orlando: www.editoraorlando.com.br.
