A FEB, as Forças Armadas e as classes dominantes no Brasil no ano de 1945
Mas também é legítimo perguntar se havia, naquele momento, uma preocupação adicional: evitar que a FEB se transformasse em uma força política autônoma ou em um símbolo capaz de alimentar pressões por mudanças internas?
Em 1945, o Brasil recebeu de volta seus soldados da Segunda Guerra Mundial. Não eram apenas homens que retornavam de um conflito distante. Eram brasileiros que haviam atravessado o Atlântico, enfrentado um dos mais violentos conflitos da história e participado, ao lado das forças aliadas, da luta contra o nazifascismo.
Voltamos vitoriosos. Os chamados pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) haviam escrito uma das páginas mais expressivas da história militar brasileira. Cerca de 25 mil homens participaram da campanha da Itália, enfrentando um inimigo experiente, em condições adversas de terreno e clima, e integrando uma guerra que decidiria o futuro político do mundo.
Monte Castello, Castelnuovo, Montese e Fornovo não seriam apenas nomes registrados nos mapas militares. Tornaram-se símbolos do sacrifício de brasileiros que deixaram suas casas, famílias, profissões e cidades – grande número do Nordeste- para lutar em território estrangeiro, em pleno inverno europeu.
As Batalhas e Conquistas
Monte Castello: Conquistado em 21 de fevereiro de 1945, após meses de duros combates e tentativas anteriores frustradas no rigoroso inverno dos Apeninos. A vitória abriu caminho para o avanço aliado no norte da Itália.
Castelnuovo: Operação bem-sucedida realizada em fevereiro de 1945 como desdobramento do Plano Encore, contando com a participação de batalhões de infantaria brasileiros.
Montese: Tomada em abril de 1945 em uma das batalhas mais sangrentas e intensas travadas pela infantaria da FEB, exigindo extremo heroísmo dos pracinhas.
Fornovo (Fornovo di Taro): Local da célebre perseguição e rendição em massa da 148ª Divisão de Infantaria alemã e de unidades fascistas em abril de 1945, coroando a reta final da campanha brasileira.
O Brasil pagou um preço por aquela participação. Houve mortos, feridos, prisioneiros e homens que retornaram carregando marcas físicas e psicológicas de uma experiência extrema. Por isso, o retorno da FEB não poderia ser tratado como o simples desembarque de uma tropa.

Era o retorno de uma geração de brasileiros que havia adquirido, no campo de batalha, uma experiência que poucos outros brasileiros possuíam: haviam combatido diretamente uma das maiores máquinas militares da história e voltavam como integrantes de um exército vencedor. Mas havia uma circunstância particularmente delicada: Esses homens haviam lutado na Europa contra regimes totalitários, em nome da causa dos Aliados. Ao mesmo tempo, retornavam a um Brasil que ainda vivia sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, regime autoritário que havia restringido liberdades políticas, controlado a imprensa, perseguido opositores e concentrado poderes no Executivo. São esses aspectos que eu quero, nesse novo artigo no Jornal do Comércio do Ceará, levantar, como ideias novas em uma época de enorme questões de segurança e autonomia nacional.
A contradição vivenciada no retorno à Pátria Amada era evidente. De um lado, brasileiros haviam atravessado o oceano para lutar contra o fascismo e contribuir para a derrota das forças totalitárias que ameaçavam a democracia no mundo. De outro, ao regressarem vitoriosos, encontravam um país que ainda não havia concluído sua própria transição para a democracia e permanecia submetido a um regime ditatorial.
É justamente nesse ponto que este ensaio pretende suscitar uma questão que merece maior atenção da pesquisa histórica e acadêmica: qual era o significado político do retorno de uma força militar vitoriosa, prestigiada pela população e marcada por uma experiência internacional de combate ao totalitarismo, a um país que ainda vivia sob uma ditadura? Que implicações poderia ter, para a ordem política vigente, o regresso de homens que haviam combatido em defesa da democracia e da liberdade e que, ao retornar ao Brasil, traziam consigo não apenas a experiência da guerra, mas também a percepção de que a luta contra o autoritarismo não se encerrava necessariamente além-mar?
É a partir dessa perspectiva que procuraremos tecer algumas considerações sobre um episódio que, para muitos, permanece relegado ao campo do folclore ou das narrativas populares, mas que encontra respaldo na realidade histórica: o tratamento político dispensado pelo Governo aos nossos heróis de guerra e o consequente desprezo a que muitos deles foram submetidos após o retorno ao país. Mais do que uma simples questão de reconhecimento ou gratidão, trata-se de um episódio que revela as tensões existentes entre a experiência democrática vivida pelos combatentes no exterior e a realidade política brasileira daquele período.

É justamente nesse paradoxo — entre o heroísmo celebrado e o protagonismo político negado — que se encontra uma das perguntas mais incômodas do pós-guerra brasileiro: por que uma geração que havia conquistado prestígio internacional nos campos de batalha não ocupou, em maior número, os espaços de decisão da República?
A resposta não está em um único fator. A desmobilização da FEB, a fragilidade das organizações civis de veteranos, a permanência das elites tradicionais nos centros de poder e a dificuldade de transformar prestígio militar em representação política limitaram a presença dos pracinhas na vida pública. Muitos deles, por sua vez, escolheram simplesmente voltar para casa, reconstruir suas vidas, retomar suas profissões e manter distância de uma política ainda marcada pelo personalismo, pelas disputas partidárias e pelas heranças do Estado Novo.
Mas essa ausência teve um preço histórico.
Ao não incorporar de maneira mais efetiva à vida pública os homens que haviam experimentado, no campo de batalha, a luta contra o totalitarismo, o Brasil pode ter desperdiçado uma oportunidade singular: a de fazer da experiência da FEB não apenas uma página gloriosa de sua história militar, mas também uma força de renovação da própria democracia brasileira.
A comparação com os Estados Unidos ajuda a dimensionar esse contraste. Enquanto os norte-americanos souberam transformar a experiência de guerra de seus veteranos em prestígio social, capital cívico e participação política, o Brasil celebrou seus pracinhas como heróis — mas, em grande medida, devolveu-os ao anonimato da vida civil. Foram reconhecidos pela vitória que ajudaram a conquistar no exterior, mas não foram igualmente chamados a participar da construção do país que encontraram ao retornar.
Eis, talvez, a maior ironia dessa história: o Estado Novo terminou em 1945, mas a renovação do poder não acompanhou, na mesma medida, a renovação dos ideais que a guerra havia colocado em disputa. Enquanto homens e estruturas vinculados ao antigo regime permaneceram próximos aos centros decisórios, aqueles que haviam combatido o totalitarismo longe de casa encontraram as portas da política brasileira muito menos abertas.
Os pracinhas voltaram da Itália trazendo a experiência de uma guerra travada em nome da liberdade. O Brasil, porém, parece não ter sabido transformar essa experiência em patrimônio político.
A FEB venceu a guerra. Mas o país não soube, plenamente, transformar a vitória de seus soldados em uma vitória da própria democracia.

Walter de Borba e Veloso
Militar da reserva, engenheiro civil e membro da Academia de Ciências, Letras e Artes de Columinjuba (ACLA) – Capistrano de Abreu.
