Redução de juros é tímida e não alivia a situação financeira das empresas e das famílias, avalia CNI
Foto: Gabriel Pinheiro/CNI
Copom acerta ao cortar a Selic, mas crédito permanece caro no mercado interno
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera correta, embora extremamente cautelosa, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual para 13,75% ao ano. A entidade defende que se mantenha o ciclo de flexibilização monetária.
O excesso de prudência fica evidente diante do comportamento da inflação corrente. Há trajetória consistente de desaceleração, alcançando 4,22% no acumulado em 12 meses até agosto, e melhora das expectativas de mercado, indicando convergência gradual em direção à meta de 3% ao ano no horizonte relevante para a política monetária.
“É essencial que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de redução da Selic. Manter a taxa básica em patamar tão restritivo por período prolongado significa impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade de preços. Há espaço para avançar no ciclo de cortes sem comprometer a convergência da inflação para a meta”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI.
Política monetária segue fortemente contracionista
Mesmo após o corte, a política monetária segue austera. Com a Selic em 13,75% ao ano, o juro real está em torno de 9%, cerca de quatro pontos percentuais acima da taxa real neutra estimada pelo Banco Central, de 5% ao ano, nível esse considerado compatível com uma política que não estimula nem freia a atividade econômica. A Regra de Taylor calculada pela CNI reforça essa leitura: o modelo aponta para uma taxa nominal de 10,3% ao ano no segundo trimestre de 2026. A distância entre esses referenciais e a Selic atual indica que há espaço para cortes adicionais sem comprometer a convergência da inflação para a meta.
Selic elevada encarece crédito e piora capacidade de pagamento
O patamar elevado da Selic continua se transmitindo para o custo do crédito. Em julho de 2026, a taxa média das operações com recursos livres chegou a 47,7% ao ano, alta de 1,8 ponto percentual em 12 meses. O avanço foi mais intenso entre pessoas físicas, cujas taxas alcançaram 60% ao ano, mas também afetou empresas, com juros médios de 25,4% ao ano.
O encarecimento do crédito tem pressionado a capacidade de pagamento dos tomadores. Ainda no crédito com recursos livres, a inadimplência atingiu 7,8% entre pessoas físicas, o maior nível da série histórica, e 4,2% entre pessoas jurídicas. Entre as famílias, o endividamento chegou a 49,8% da renda em junho, próximo do recorde da série histórica, de 49,9%, enquanto o comprometimento da renda com o serviço da dívida alcançou 28,9%, também o maior da série. Para a CNI, esses indicadores evidenciam que o aperto monetário continua impondo custos elevados à economia real.
Indústria prevê maior necessidade de financiamento e queda das margens
A nova edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros, realizada pela CNI com 179 empresas de 28 setores, mostra que os juros elevados seguem impondo restrições significativas à atividade industrial. Para os próximos três meses, as empresas projetam aumento da necessidade de capital de giro e crédito mais caro. A pressão é mais intensa sobre obrigações correntes: 56% das empresas esperam maior necessidade de financiamento para contas a pagar, 50% para manutenção de estoques e 49% para contas a receber. Entre aquelas que esperam demandar mais crédito, cerca de 60% também preveem aumento das taxas cobradas.
Esse ambiente tende a comprimir margens: 57% das empresas antecipam redução da margem líquida, enquanto cerca de um terço projeta aumento do endividamento bancário. A reação via preços, porém, é limitada: 53% pretendem mantê-los inalterados para preservar competitividade, e apenas 35% planejam reajustá-los para cima. O resultado indica que parte relevante da indústria deverá absorver o aumento dos custos financeiros, com impacto direto sobre rentabilidade e capacidade de investimento.
Desaceleração da atividade reforça necessidade de mais cortes
Os dados mais recentes de atividade econômica também apontam perda de ritmo de crescimento. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, abaixo da expansão de 1,1% registrada no trimestre anterior. A demanda interna perdeu força: o consumo das famílias recuou 0,4%, e a indústria de transformação permaneceu estagnada. O crescimento industrial concentrou-se na indústria extrativa, que avançou 3,4%.
O enfraquecimento da demanda doméstica, especialmente dos segmentos mais sensíveis ao custo do crédito, reforça a necessidade de continuidade da flexibilização monetária. O PMI Industrial do Brasil, elaborado pela S&P Global, caiu de 47,5 pontos em julho para 46,3 em agosto, menor nível em 40 meses, indicando deterioração das condições da indústria de transformação.
Mercado de trabalho aquecido não compensa restrições financeiras
Apesar da resiliência do mercado de trabalho, com ocupação e renda em níveis elevados, esse dinamismo não tem se traduzido em maior demanda doméstica. O consumo das famílias recuou 0,4% no segundo trimestre, indicando que a transmissão dos ganhos de renda para o consumo tem sido limitada, entre outros fatores, pelo elevado custo do crédito. Para a CNI, a resiliência do mercado de trabalho, isoladamente, não caracteriza excesso de demanda que justificaria interromper o ciclo de cortes da Selic.
