Personalize as preferências de consentimento

Utilizamos cookies para ajudá-lo a navegar com eficiência e executar determinadas funções. Você encontrará informações detalhadas sobre todos os cookies em cada categoria de consentimento abaixo.

Os cookies categorizados como “Necessários” são armazenados no seu navegador, pois são essenciais para ativar as funcionalidades básicas do site.... 

Sempre ativo

Necessary cookies are required to enable the basic features of this site, such as providing secure log-in or adjusting your consent preferences. These cookies do not store any personally identifiable data.

Não há cookies para exibir.

Functional cookies help perform certain functionalities like sharing the content of the website on social media platforms, collecting feedback, and other third-party features.

Não há cookies para exibir.

Analytical cookies are used to understand how visitors interact with the website. These cookies help provide information on metrics such as the number of visitors, bounce rate, traffic source, etc.

Não há cookies para exibir.

Performance cookies are used to understand and analyze the key performance indexes of the website which helps in delivering a better user experience for the visitors.

Não há cookies para exibir.

Advertisement cookies are used to provide visitors with customized advertisements based on the pages you visited previously and to analyze the effectiveness of the ad campaigns.

Não há cookies para exibir.

Jesus a(r)mado

*Daniel Medeiros

É sabido por todos os que estudam História que os evangelhos foram escritos muitos anos após a morte de Jesus e que seus autores não foram os apóstolos (no caso, Mateus e João), mas compiladores das narrativas que se espalharam pela região sobre aquela pessoa extraordinária.

Jesus era um homem que desafiava os valores da época, principalmente a tradição conservadora. Seus supostos milagres eram recados em favor da festa, da alegria e da compaixão. Sua defesa da mulher adúltera (em João, 8, 1-11) era um grito claro em favor do perdão e contra fazer justiça com as próprias mãos. Seus amigos eram pessoas simples e trabalhadoras. Seu apreço pelos comerciantes sem escrúpulos era conhecido: nunca se viu Jesus brabo como naquele dia diante do Templo (Marcos 11: 15 e 16).

Imaginar que Jesus compraria uma pistola se existissem pistolas em seu tempo é tão insidioso que precisamos aguardar um pouco para absorver o impacto dessa declaração. Não importa que, em Lucas, ele supostamente alerte seus discípulos a se cuidarem com roupas, mantimentos e com sua defesa. Isso porque eles partiriam para terras estranhas e haveria perigos, pois Ele, Jesus, não estaria mais presente. E quem está com Jesus não precisa de armas. Só em um mundo sem religião (aquilo que nos liga e que nos une) que armas podem se tornar necessárias. Ou seja: o recado de Jesus aos seus amigos para que se protegessem é muito diferente da ideia de que “bandido bom é bandido morto” ou que “todos têm direito de defender suas propriedades a qualquer custo”. A comparação é acintosa de tal forma – logo Ele, Jesus, que foi crucificado entre dois ladrões e disse a um deles: hoje mesmo estará comigo junto ao meu Pai – que penso que ninguém deveria dar qualquer valor a ela, se não fosse dita pelo presidente da República.

Ora, o Estado é laico e a opinião do presidente sobre um assunto desses não deveria ser relevante. De fato, mas o incômodo é insistente. Jesus demonstra, desde o início de sua trajetória, atenção e cuidado, cura e promessa de salvação. Não teme as autoridades, não hesita diante dos que querem iludir o povo, não titubeia ao afirmar que os pobres, os simples, os que sofrem, são os seus preferidos. Em uma passagem do livro O nome da Rosa, do pensador e romancista italiano Umberto Eco, padres discutiam uma passagem bíblica que fazia referência a Jesus portar ou não uma bolsa. Seria Dele a bolsa? Se sim, teria Jesus bens? E se tivesse, consideraria usar da violência para protegê-los? É possível Jesus gritando “pega o ladrão!” e catando uma pedra e jogando para ver se o acertava pelas costas? Ou exigindo uma punição exemplar contra o malfeitor? Ele? Logo Ele? O presidente da República defende as armas. Associa armas com liberdade. E usa o nome de Jesus para enfatizar suas ideias. Como se a sociedade de fato ficasse mais segura com todo mundo com armas nas cartucheiras ou espingardas no vestíbulo das casas. Esquecem o que diz o ditado: em uma sociedade cheia de vigias, quem vigiará os vigias?

Jesus pode não ter sido filho de D’us. Pode não ter origem divina. Mas isso não diminui em nada a força de suas palavras e exemplos. A sua grande mensagem não era de proteção, muito pelo contrário. Na versão religiosa, Jesus ofereceu-se em nosso nome, como um cordeiro é oferecido em sacrifício para acalmar a ira de um D’us decepcionado com Sua criação. Jesus ofereceu-se para expiar os pecados e dar uma nova chance para a humanidade evitar que esse D’us irritado e vingativo usasse seu poder sobre nós. Essa é a mensagem. Como isso pode se coadunar com a ideia de um Jesus armado, como o presidente disse, citando os evangelhos como quem lê a propaganda de uma fábrica de revólveres?

Há versões para tudo. Tudo pode ser defendido no campo das opiniões. Não se pode punir alguém por fazer referência a um personagem que, de resto, pode ser apenas uma ficção histórica. Lógico que quando é uma professora usando uma charge na qual a figura de Jesus aparece para denunciar a violência atual, um deputado diz em alto e bom som que ela “merecia ser fuzilada”. Mas no caso do presidente, acalmemo-nos todos. É apenas uma interpretação livre dos versículos bíblicos. Uma versão particular na qual podemos imaginar um Jesus irado dizendo: “D’us acima de todos, mas, por via das dúvidas, nem vem que eu estou armado!”

 

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo.
daniemedeiros.articulista@gmail.com
@profdanielmedeiros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.