Baterias ganham espaço na nova fase do setor elétrico brasileiro
Energy Storage Brasil chega a Natal para discutir como armazenar a produção renovável, estabilizar a rede e transformar a tecnologia em novos negócios
Produzir energia limpa já não é o único desafio do setor elétrico brasileiro. Com o avanço das fontes solar e eólica, cresce também a necessidade de armazenar a eletricidade gerada para utilizá-la nos momentos de maior consumo. Essa nova etapa da transição energética estará no centro da sétima edição do Energy Storage Brasil, marcada para os dias 21 e 22 de outubro, na Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), em Natal. As inscrições devem ser feitas: natal.energystoragebrasil.com/
O encontro, promovido pelo Grupo FRG Mídias & Eventos, reunirá empresas, especialistas, investidores, fabricantes, desenvolvedores de projetos e representantes do poder público para discutir tecnologias, modelos de negócios, regulação e as perspectivas para o armazenamento de energia no país.
A discussão ganha relevância especialmente no Nordeste, região que concentra parte expressiva da produção brasileira de energia solar e eólica. Como essas fontes dependem das condições do sol e dos ventos, os sistemas de armazenamento permitem guardar a energia e disponibilizá-la em outros períodos, aumentando a flexibilidade e a segurança do sistema elétrico.
Diretor do Grupo FRG, Tiago Fraga avalia que o país precisa transformar o potencial renovável já instalado em uma matriz mais flexível, capaz de responder às variações da produção e do consumo.
“O Brasil avançou na geração solar e eólica, e o próximo passo é evitar que essa energia seja desperdiçada ou fique indisponível justamente quando o sistema mais precisa. O armazenamento cria essa ponte entre o momento da geração e o momento do consumo. Natal foi escolhida para receber o debate porque o Nordeste está no centro dessa transformação e pode se tornar também uma referência nacional em projetos com baterias”, afirma.
Durante os dois dias, o Energy Storage Brasil apresentará as diferentes aplicações dos sistemas BESS, tecnologia que utiliza baterias para armazenar e gerenciar energia elétrica. As soluções podem ser instaladas em estabelecimentos comerciais, indústrias, usinas renováveis, subestações e infraestruturas essenciais, com aplicações que vão da redução de custos à continuidade do fornecimento em situações de interrupção da rede.
Pioneiro na implantação de sistemas de energia solar no Rio Grande do Norte, o administrador Paulo Morais, sócio-proprietário da New Energy e fundador da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), destaca que o armazenamento abre uma nova frente de atuação tanto para integradores quanto para empresas consumidoras de energia.
Segundo ele, uma das possibilidades é armazenar eletricidade em períodos de menor tarifa para utilizá-la nos horários em que o custo é mais elevado. Os sistemas também podem ser associados à geração solar e contribuir para reduzir a utilização de geradores a diesel, além de aumentar a segurança energética de atividades que não podem sofrer interrupções.
“Para os integradores, é a oportunidade de oferecer um novo produto. Para os empresários, há possibilidades de reduzir custos, aumentar a eficiência energética e mitigar riscos de paradas inesperadas por falta de eletricidade. O evento permitirá conhecer as tecnologias, fornecedores e as oportunidades que esse novo mercado está criando”, afirma Morais.
A programação percorrerá desde tecnologias atualmente disponíveis, como baterias de íon-lítio, até alternativas em desenvolvimento, como baterias de sódio, fluxo, estado sólido e ferro-ar. Hidrogênio, armazenamento térmico, sistemas gravitacionais, ar comprimido e usinas hidrelétricas reversíveis completam o panorama técnico.
Cases implantados na China, nos Estados Unidos, na Austrália e na Alemanha servirão como referência para analisar modelos de receita, resultados e aprendizados que podem ser adaptados ao mercado brasileiro. O encerramento será dedicado às perspectivas do setor até 2040 e ao papel que as baterias poderão assumir na expansão das fontes renováveis.
Data Center Conference 2026
A agenda em Natal terá continuidade no dia 23 de outubro, quando a FIERN recebe o Data Center Conference 2026, fórum e feira de negócios voltados a data centers, conectividade e inteligência artificial. A programação reunirá operadores, provedores de tecnologia, grandes usuários corporativos e especialistas para discutir a infraestrutura necessária à expansão da economia digital.
O Rio Grande do Norte chega a essa discussão com uma característica estratégica: a disponibilidade de energia renovável. Data centers demandam fornecimento contínuo e confiável de eletricidade, o que aproxima o desenvolvimento da infraestrutura digital dos debates sobre geração, armazenamento e segurança energética.
Advogado e conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (CONEMA/RN), representando a OAB/RN, Kepler Santos Lima de Brito ressalta que a atração desses investimentos precisa estar acompanhada de planejamento, regulação e critérios ambientais.
Para ele, regras claras são fundamentais para conciliar segurança jurídica aos investidores, estabilidade do sistema elétrico, proteção ambiental e uso responsável dos recursos naturais. A implantação desses empreendimentos também pode estimular a qualificação profissional e a aproximação entre empresas, universidades e instituições de pesquisa.
“Regular não significa impedir o desenvolvimento, mas estabelecer regras claras para garantir segurança jurídica, proteção ambiental, uso responsável da água, estabilidade do sistema elétrico e benefícios para a sociedade. Com regulação adequada e compromisso ambiental, o Estado estará preparado para transformar energia limpa em tecnologia, empregos e desenvolvimento sustentável”, afirma Kepler.
A expectativa do Data Center Conference é reunir entre 650 e 1.000 participantes qualificados. Com os dois eventos realizados na mesma semana, Natal será palco de discussões que conectam duas etapas de uma mesma transformação: de um lado, como armazenar e utilizar melhor a energia renovável; de outro, como essa disponibilidade energética pode sustentar novas infraestruturas, investimentos e negócios ligados à economia digital.
