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Democracia sob pressão digital

Por Antonio Matos
A poucos meses do início mais intenso do calendário eleitoral brasileiro, cresce uma preocupação que vai além das disputas partidárias tradicionais. O desafio agora não está apenas nos palanques, nas ruas ou nos programas eleitorais. Ele está, sobretudo, nas telas dos celulares, nos algoritmos invisíveis e na velocidade com que mentiras, manipulações e radicalismos se espalham pelas redes sociais.

Ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral – TSE, o ministro Nunes Marques chamou atenção, em seu discurso, para os riscos que a desinformação e o uso irresponsável da inteligência artificial representam para a democracia brasileira. O alerta é oportuno, necessário e urgente.

A inteligência artificial trouxe avanços extraordinários para a humanidade. Na saúde, na educação, na comunicação e na economia, ela já transforma positivamente o cotidiano. Mas, nas mãos erradas, tornou-se também uma poderosa ferramenta de manipulação política. Vídeos falsos, áudios fabricados, imagens adulteradas e campanhas automatizadas conseguem hoje confundir eleitores, destruir reputações e semear desconfiança contra instituições democráticas.

O perigo aumenta quando grupos organizados passam a utilizar essas tecnologias para contaminar o debate público. Não se trata apenas de divergência política — algo legítimo e saudável em qualquer democracia. O problema surge quando a mentira é transformada em método, quando a radicalização substitui o diálogo e quando setores extremistas tentam desacreditar antecipadamente o processo eleitoral e suas instituições.

O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará — TRE/CE terá papel fundamental nesse cenário. Mais do que organizar eleições seguras do ponto de vista técnico, a Justiça Eleitoral precisará intensificar campanhas educativas, monitoramento digital e ações de conscientização da sociedade sobre os riscos da desinformação.

Também preocupa o avanço do negacionismo político alimentado por grupos radicais que misturam religião com disputa eleitoral. A fé é um direito sagrado e constitucional. Igrejas exercem papel social importante e histórico no Brasil. Mas, transformar púlpitos em trincheiras ideológicas e utilizar crenças religiosas para disseminar intolerância, teorias conspiratórias ou hostilidade contra adversários políticos representa grave ameaça ao ambiente democrático.

Religião não pode servir de instrumento para estimular ódio, perseguições ou ataques às instituições republicanas. Quando líderes religiosos ultrapassam a fronteira da orientação espiritual para atuar como agentes permanentes de radicalização política, o resultado costuma ser o enfraquecimento do debate racional e o aumento das divisões sociais.

A democracia exige convivência entre os diferentes. Exige respeito ao voto, às regras do jogo e à verdade factual. Nenhuma eleição pode ser sequestrada por fábricas digitais de mentiras ou por discursos messiânicos que tentam transformar adversários em inimigos absolutos.

O eleitor cearense — historicamente reconhecido por sua consciência crítica e participação cidadã — terá papel decisivo na defesa do processo democrático.
Será preciso desconfiar de conteúdos sensacionalistas, verificar informações antes de compartilhá-las e rejeitar discursos extremistas travestidos de patriotismo ou moralidade religiosa.

As eleições de 2026 não serão apenas uma disputa entre candidatos. Serão também um teste de maturidade institucional e de resistência da sociedade brasileira diante da manipulação digital e do radicalismo político.

Defender eleições limpas, transparentes e respeitadas é defender a própria democracia. E democracia, como a história ensina, não se destrói apenas com tanques nas ruas. Muitas vezes ela é corroída lentamente pela mentira sistemática, pela intolerância e pela manipulação das consciências.

Antonio José Matos de Oliveira é jornalista, escritor, poeta e Administrador de empresas.

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