Médicos Sem Fronteiras: a principal questão de saúde na Palestina é a ocupação israelense
Após mais de 1 mil dias de guerra, o presidente internacional da organização analisa os impactos da violência, da destruição do sistema de saúde e das restrições humanitárias
Dr. Javid Abdelmoneim é Presidente Internacional de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e trabalhou como médico de emergência em Gaza em 2024, principalmente no Hospital Nasser. À medida que o genocídio em Gaza ultrapassa 1.000 dias e o cessar-fogo continua sendo violado por Israel, Dr. Javid reflete sobre a cumplicidade dos líderes mundiais, que permitem que Israel continue sua campanha genocida, e pede uma mudança drástica nessa política.
Em toda a Palestina, o efeito cumulativo das ações de Israel contra os palestinos desde 7 de outubro de 2023 é evidente: elas corroeram a capacidade dos palestinos de viver uma vida digna e saudável. Isso precisa ser dito claramente. As políticas aplicadas em Gaza e a evolução da situação observada na Cisjordânia apontam para um projeto israelense mais amplo de colonização da Palestina através da ocupação.
Já se passaram mais de 1.000 dias desde o início do genocídio promovido por Israel em Gaza, e a punição coletiva dos palestinos continua até hoje. Em meio a um suposto cessar-fogo, o mundo normalizou ver palestinos sendo mutilados e mortos diariamente em suas tendas, em hospitais e nas ruas.
O termo “cessar-fogo” perdeu todo o significado. Enquanto escrevo estas palavras, o número de vítimas continua crescendo, assim como o desinteresse pela situação catastrófica em Gaza, o fracasso político mais marcante do mundo nas últimas décadas.
Junho foi o mês mais mortal desde outubro de 2025. Em 14 de julho deste ano, Israel havia matado um total de 1.110 palestinos e ferido 3.599 desde o início do cessar-fogo, de acordo com o Ministério da Saúde local, ao mesmo tempo em que expandia seu controle militar sobre a Faixa de Gaza. A chamada “linha amarela” de Israel é uma fronteira móvel que divide o território entre áreas controladas por palestinos e áreas controladas por Israel. Ela continua se expandindo e coloca em risco qualquer pessoa que, inadvertidamente, se aproxime dela. Palestinos podem ser baleados, muitas vezes apenas tentando chegar aos seus abrigos, recolher lenha ou buscar comida.
Mas não se trata apenas da violência. À medida que a linha avança para oeste, ela comprime mais de dois milhões de pessoas em apenas um terço da Faixa. Isso não é acidental. Essa dinâmica produz condições de superlotação extrema, nas quais as doenças se espalham facilmente e as necessidades básicas deixam de ser atendidas. Vemos as consequências em nossas clínicas: infecções respiratórias, doenças de pele e enfermidades diarreicas, impulsionadas pela falta de água limpa e saneamento e pelas condições desumanas de vida.
A Cisjordânia também tem passado por uma transformação violenta e profunda desde 7 de outubro de 2023. O governo israelense, as forças armadas e os colonos patrocinados pelo Estado têm acelerado a limpeza étnica, a expropriação de terras, a fragmentação territorial e a asfixia econômica, erodindo ainda mais a presença e a continuidade palestinas.
Os palestinos estão sendo perseguidos em suas próprias casas, escolas e terras, enquanto os agressores desfrutam de total impunidade. Em Nablus e Hebron, recebemos pacientes que sofrem de trauma e depressão relacionados ao aumento da violência e das restrições de circulação, que afetam todos os aspectos de suas vidas, incluindo o acesso aos hospitais.
Israel continuou a obstruir sistematicamente o acesso a cuidados de saúde na Cisjordânia e desmontou deliberadamente o sistema de saúde em Gaza.
Profissionais da saúde, pacientes, ambulâncias e hospitais foram todos alvos de ataques.
Em 26 de outubro de 2024, durante uma incursão ao Hospital Kamal Adwan, em Gaza, o cirurgião de MSF Mohammed Obeid foi preso juntamente com outras 57 pessoas. Ele é um dos mais de 95 profissionais da saúde palestinos que continuam detidos pelas forças israelenses. Até hoje, o Dr. Obeid permanece em uma prisão israelense sem acusação formal. Continuamos exigindo sua libertação imediata e incondicional.
O genocídio dizimou a força de trabalho do sistema de saúde em Gaza, e serão necessários anos para reconstruí-la. Pelo menos 1.700 profissionais da saúde foram mortos desde outubro de 2023, assim como 15 membros da nossa própria equipe de MSF, muitos dos quais haviam trabalhado incansavelmente durante décadas. Ninguém está seguro em Gaza.
O acesso da população a cuidados de saúde tem sido ainda mais restringido desde janeiro, quando as autoridades israelenses retiraram o registro de 37 organizações humanitárias. Israel está impedindo que levemos profissionais internacionais e suprimentos essenciais a Gaza e à Cisjordânia. Embora alguma ajuda humanitária tenha entrado em Gaza, ela está longe de ser suficiente. Essas restrições arbitrárias fazem parte de uma política punitiva de longa data aplicada por Israel.
Seja por meio da violência direta, da destruição do sistema de saúde, da obstrução da assistência humanitária, da indução à fome, da utilização do acesso à água como arma de guerra, do aumento intencional dos índices de prematuridade, mortalidade infantil e aborto espontâneo, ou da negação de cuidados médicos, do ponto de vista de quem está observando tudo isso, a conclusão é clara: a principal questão de saúde na Palestina é a ocupação israelense.
Os métodos de Israel passaram a ser aceitos. Os líderes mundiais normalizaram a conduta israelense. Por meio de apoio político, ajuda militar ou silêncio, eles permitiram a continuidade dessas políticas.
A situação não é apenas intolerável; ela se tornou estrutural. Em Gaza, o genocídio continua e, na Cisjordânia, a limpeza étnica se acelera.
É urgentemente necessária uma mudança política drástica, uma mudança que priorize a dignidade dos palestinos e a proteção dos civis, que garanta o acesso humanitário sem impedimentos e responsabilize todos os governos. Sem essa mudança, os próximos 1.000 dias não marcarão um ponto de virada, mas a continuação da mesma realidade devastadora.
