“Onde você mora?”: A ilusão da meritocracia brasileira
*Gilberto Kieling
Em março deste ano, soubemos do depoimento da Juíza Vanessa Cavalieri, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, à comissão do Senado Federal que analisa questões de violência e crime organizado. Lá, a juíza narrou a iniciativa tomada por uma desembargadora no caso de uma menina acolhida em abrigo social, que buscava uma vaga de emprego.
Diante do desespero da menina, que não recebia respostas ao currículo que enviava insistentemente, a desembargadora alterou o registro no sistema de emprego, colocando como endereço residencial o dela própria, num bairro nobre da cidade. Nos dias que se seguiram, a menina recebeu 32 propostas de emprego.
O caso é bem ilustrativo. A oportunidade de trabalho tem tudo a ver com o CEP. Assim como o desempenho escolar, o reconhecimento social e a possibilidade de uma vida digna.
Na superfície, naquilo que deixamos visível, todos têm as mesmas condições de obter êxito, “vencer na vida”. Basta estudar e trabalhar com afinco. Ao final, se algo der errado, a culpa é tua. Ponto final.
Combinamos que todos podem chegar ao pódio, mas estabelecemos, perversamente, que o ponto de partida não é o mesmo para todos. Pele, gênero, classe de origem, escola, redes de contato e também o endereço são decisivos.
A disputa desigual produz um resultado que bem conhecemos. Quem se deu bem arvora-se um vencedor cheio de méritos. Quem ficou para trás há de suportar a inadequação e a culpa.
A ideia básica da meritocracia é de que desempenho e aptidão são decisivos para a obtenção de vantagens. Em tese, repudia-se o paternalismo, o fisiologismo, os privilégios hereditários e os políticos. Mas estamos fartos de saber que essa repulsa é apenas aparente, uma máscara que não consegue ocultar a realidade.
Os pontos de partida não são iguais, e os obstáculos à mobilidade social são inúmeros para a maioria. Diga-o quem nasceu em famílias desestruturadas, vive em áreas de risco, não têm rede escolar adequada e, não raro, cresce com carências físicas, intelectuais e afetivas.
O abismo entre os seres humanos é grande desde o nascimento, e se perpetua, especialmente em países de grande desigualdade. A mobilidade está bloqueada para milhões.
E o caso da menina que recebeu ajuda da desembargadora? Não sabemos dela. Esperamos que esteja bem, trabalhando e estudando, e que assim permaneça por longos anos. A experiência, porém, nos autoriza suspeitar que, ao descobrirem seu verdadeiro CEP, tenha recebido apenas um “desculpe, não vai dar, houve um erro de cadastro”.
Gilberto Kieling é advogado civilista, professor de literatura brasileira e latino-americana e autor de “O Labirinto da Classe Média”
