O retorno do Wilton

Batista de Lima

Wilton Bezerra está de volta. Desta feita divorciou-se das crônicas e amasiou-se com os causos. São 213 páginas de causos sequestradores de leitores. A gente começa a ler e de repente se encontra em Juazeiro, depois de passagem por Várzea Alegre em que até São Raimundo é provocador de histórias. Não há no Ceará uma cidade mais Alegre que aquela Várzea produtora de arroz e alegria. Dá até a impressão de que Wilton tenha nascido e se criado ali no meio daquele povo feliz.

Logo no início do livro, Juarez Leitão abre o verbo e discorre sobre os clássicos da antiguidade, deambulando literariamente dos persas a Leota e Ariano. É então que Wilton abre as cortinas e põe nas páginas um elenco de personagens reais e outros que de tão bem inventados passam a existir e nos
fazer rir. Esse é o milagre do bom narrador, para o qual não há mentira, o que há é a arte de saber contar. Wilton tem essa virtude. Seu aspecto físico, grandão e malamainhado com a cara de riso gozador, já impressiona sem dizer palavra.

Entre os personagens que mais pontificam nos seus causos estão Sapenha, zagueiro do Fortaleza nas décadas de 1950 e 1960; Praxedes, técnico dos times de Juazeiro por muito tempo e o povo de Várzea Alegre. Além desses personagens, há os nomes característicos de alguns que já nos põem a rir antes de ler a narrativa. Por exemplo: Surubita Massagista, Chicletes, Darim, Cicinha, Didu, João Furiba, Antõe de Ozim, Piaba, Sebastião Lagartixa, Pé Véi, Zé Gambá, Caju, João Tramela, Geraldo Bagulho, Soizão,
Pirocha, João Sabugo, Cangulo Canada e Carôi. São tipos populares que só em escrever os nomes, o leitor já fica curioso para ler o causo.

Além disso tudo vem o aspecto linguístico do texto. Cada narrativa vem escrita sem os salamaleques metafóricos da linguagem literária. O que vinga e perdura no nosso paladar lectual é a fala do povo desprovida dos arremedos clássicos que verberam nos recintos acadêmicos. Isso ocorre
porque Wilton sabiamente transpõe para o texto aquela fala do boteco, das bodegas, das bagaceiras dos engenhos, das lupanares, dos bancos de praças e dos campos de futebol. Aquelas falas têm o privilégio de encontrar nesse

“causer”, modelo de persistência. A parte final do livro traz atrativo ainda mais de valorização do sertão, quando Wilton sabiamente parte para transpor poemas jocosos de poetas sertanejos que engrandecem o livro. Zito Siqueira, Lourival Batista, Zé Bernardino, Odilon Nunes, Cego Sinfrônio, Onéssimo
Gomes, Cego Aderaldo, José Gaspar, Pedro Bandeira, Oliveira de Panelas, Pinto do Monteiro, Otacílio Batista, Patativa do Assaré; esse time de poetas populares pode retirar do livro e botar em campo que ganha qualquer parada. É uma verdadeira antologia que sugere a Wilton organizar uma coletânea desse
tipo de versificação.

Ao final da leitura, o leitor sente fome de querer mais histórias e versos engraçados. Afinal existe toda uma oralidade espalhada por esses confins, pedindo para ter vez e voz em folhas de livros. E aí entra Wilton com sua linguagem cheia de requebros, com a verve de boêmia de beira de bodega e andarilho pelas bribrocas sertanejas. Por isso que, como leitor assíduo de sua prosa, sugiro que nosso novel escriba prepare uma antologia com essa poética popular espalhada por nossos confins. Leitores não faltarão.

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