Opinião

O profissional de TI será o arquiteto da nova força de trabalho digital

*Mauricio Frizzarin
Durante décadas, o profissional de Tecnologia da Informação foi responsável por construir a infraestrutura digital das empresas. Criava sistemas, administrava redes, protegia dados, corrigia falhas e mantinha a operação funcionando.
Atualmente, com o uso crescente da Inteligência Artificial, esse profissional se vê, cada vez mais, diante de uma função diferente, na qual ele não apenas constrói a tecnologia, mas organiza como pessoas e máquinas trabalharão juntas.
A mudança já aparece, inclusive, nas projeções de mercado. Uma pesquisa da Gartner, realizada com mais de 700 CIOs, aponta que, até 2030, 75% do trabalho de TI deverá ser realizado por humanos aumentados por IA e 25% diretamente por IA. Na prática, isso significa que não haverá mais uma fronteira clara entre o trabalho de TI e a Inteligência Artificial. Com esse novo cenário, a rotina do profissional de tecnologia passará por mudanças. Afinal, não será suficiente saber programar, implementar sistemas ou solucionar problemas. Será preciso entender o que deve ser feito por uma pessoa, o que pode ser delegado a um Agente de IA e como garantir que os dois trabalhem de maneira coordenada. Ou seja, estamos diante de uma mudança de arquitetura.
Um Agente de IA pode, por exemplo, receber um objetivo, consultar informações, interagir com sistemas, executar tarefas e monitorar resultados. Alguém precisará, no entanto, definir suas permissões, estabelecer regras, determinar quando uma decisão pode ser automatizada e quando deve voltar para um ser humano. Esse alguém, a meu ver, tende a estar cada vez mais próximo da área de TI.
Por sua vez, o mercado de trabalho já sinaliza essa transformação. Segundo o Barômetro de Empregos de IA 2026, feito pela PwC, as vagas que exigem competências em IA, no Brasil, quase triplicaram entre 2024 e 2025, chegando a aproximadamente 119 mil posições. O estudo também mostra que as competências exigidas nas funções mais expostas à IA estão mudando duas vezes mais rápido do que nas demais.
Há, entretanto, uma mudança ainda mais interessante acontecendo. Quanto mais a IA assume tarefas, maior tende a ser o valor de competências que não podem ser reduzidas à execução. O Fórum Econômico Mundial coloca pensamento analítico, liderança, criatividade, adaptabilidade e aprendizagem contínua entre as competências essenciais para os próximos anos. Isso significa que o profissional de TI do futuro precisará compreender tanto de tecnologia quanto de comportamento organizacional.
Isso significa que entre as habilidades desejadas serão adicionadas a capacidade de construir uma solução, mas também perguntar se aquela solução deveria existir. Ele terá de configurar um Agente de IA e, ao mesmo tempo, avaliar o risco de delegar determinada decisão a ele. Precisará entender dados, processos e sistemas, mas igualmente conhecer o negócio que esses elementos sustentam.
É por isso que vejo o profissional de TI como um possível arquiteto da nova força de trabalho digital. Ele não será, necessariamente, quem fará todo o trabalho, mas aquele que ajudará a desenhar a divisão do trabalho.
Imagine uma empresa em que agentes acompanham contas a pagar, monitoram indicadores, atualizam sistemas, qualificam oportunidades comerciais e identificam anomalias. Os profissionais deixam de executar parte dessas tarefas e passam a supervisionar, analisar exceções, tomar decisões e atuar em atividades de maior valor. O desafio de TI será fazer essa estrutura funcionar com segurança, integração e propósito.
A questão, portanto, não é se a IA vai substituir o profissional de tecnologia. É mais interessante perguntar qual será o papel de quem sabe organizar uma empresa em que humanos e Agentes de IA trabalham juntos. Eu acredito que esse profissional terá uma responsabilidade inédita: transformar inteligência artificial em capacidade organizacional. Afinal, a próxima revolução da tecnologia não será apenas sobre máquinas mais inteligentes, mas a respeito de empresas capazes de distribuir melhor o trabalho entre pessoas e máquinas. Quem desenhar essa arquitetura estará muito mais perto da estratégia do que da antiga ideia de suporte técnico.
*Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON, empresa norte-americana especializada em Inteligência Artificial e Agentes de IA. Frizzarin cursou Tecnologia de Software e Marketing, OPM (Owner/President Management) na Harvard Business School, Executive Education em Inteligência Artificial na University of California, Berkeley e em Fintech em Harvard – www.qyon.com

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