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O General do Silêncio e da Lealdade

Sabino Henrique
Há homens que fazem barulho para existir. Outros, raros, constroem sua história no silêncio, no rigor do trabalho e na fidelidade aos princípios. Associação Cearense de Imprensa soube reconhecer um desses homens neste sábado, 18 de abril, ao homenagear, com justiça e emoção, os 90 anos de vida de Willame Moura.

Falar de Willame é revisitar uma época em que o jornalismo era feito com linotipo, suor e respeito quase militar à notícia. Conheci-o ainda na década passada do século passado, quando iniciei minha trajetória como revisor e, depois, repórter e redator nos jornais Unitário e Correio do Ceará, dos Diários Associados, instalados na tradicional Rua Senador Pompeu, no coração de Fortaleza.

Quando ali cheguei, Willame já era uma figura consolidada. Respeitado por nomes como Dr. Manuelito e Antonio Carlos de Oliveira, transitava com natural autoridade entre gráficos, fotógrafos, jornalistas e o pessoal do administrativo. Sua liderança não era imposta, era conquistada. Vinha da competência, da seriedade e, sobretudo, da lealdade aos colegas.

Na redação e nas oficinas, era conhecido como “sargento”. Nunca soube exatamente a origem do apelido. Talvez sua postura firme, sua disciplina e o compromisso inegociável com o dever expliquem. Havia nele algo de quartel, no melhor sentido: ordem, precisão e honra.

O tempo passou, como passa para todos, mas com Willame ele parece apenas ter acrescentado densidade. Anos depois, nos reencontramos sob a direção do amigo comum Maurício Xerez, no Diário do Nordeste. Era o tempo da ousadia de Edson Queiroz, que reunia talentos para dar forma a um jornal que nascia grande. E lá estava Willame, mais uma vez, ajudando a construir algo que permaneceria.

Quando o reencontrei, não resisti à provocação afetuosa: “Você já não é mais sargento, é general.” E completei, em tom de brincadeira sincera: “De tão bom, já alcançou as mais altas patentes.” Ele respondeu com um riso leve, quase tímido, aquele riso dos homens verdadeiramente grandes, que não se deixam contaminar pela vaidade.

Chegar aos 90 anos, para alguns, é um marco biológico. Para Willame Moura, é um testemunho moral. É a prova de que é possível atravessar décadas mantendo intactos valores que hoje parecem escassos: ética, compromisso e respeito pelo ofício.

O presidente da ACI, Eliezer Rodrigues, acertou em cheio ao promover essa homenagem. Não se trata apenas de celebrar um aniversário, mas de reconhecer uma vida que ajudou a moldar o jornalismo cearense.

E, confesso, ao observar o passo firme desse velho companheiro de jornalismo, começo a me preparar para algo maior: o abraço do centenário. Porque há homens que o tempo não desgasta. Apenas consagra.

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