Mercado brasileiro deve continuar convivendo com volatilidade cambial até o fim do ano
Brasil entra no segundo semestre sob impacto de juros americanos, tensões geopolíticas e dólar instável
As oscilações recentes do dólar e do Ibovespa voltaram a evidenciar como fatores internacionais continuam influenciando os investimentos dos brasileiros. Em apenas dois pregões, o mercado financeiro nacional alternou movimentos relevantes diante de mudanças no cenário externo. Na segunda-feira (13), o dólar avançou 0,46% e encerrou cotado a R$ 5,1314, enquanto o Ibovespa recuou 1,20%, aos 175.739 pontos, pressionado pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã. O agravamento do conflito elevou a aversão ao risco, fortaleceu a procura por ativos defensivos e pressionou o petróleo, combinação que tende a favorecer a moeda americana e reduzir o apetite por mercados emergentes.
No dia seguinte, a divulgação de uma inflação americana abaixo das expectativas inverteu parte desse movimento. O dólar caiu 1,12%, para R$ 5,073 — menor fechamento em um mês e baixa acumulada de 7,56% no ano —, enquanto o Ibovespa avançou 0,51%, aos 176.641 pontos, após atingir 177.179 pontos na máxima do pregão. A mudança de direção mostrou como o mercado vem oscilando entre dois vetores: de um lado, os riscos geopolíticos e a pressão do petróleo; de outro, as expectativas sobre inflação e juros nos Estados Unidos.
Na avaliação de André Peniche, advogado tributarista e especialista em investimentos internacionais, a volatilidade recente reforça que o câmbio deve ser tratado como parte de uma estratégia patrimonial mais ampla, e não como um gatilho para decisões impulsivas. “O dólar vai continuar reagindo às expectativas sobre juros, inflação, geopolítica e fluxo global de capitais. Quem investe olhando apenas para a cotação do dia acaba tomando decisões de curto prazo para objetivos que são, na essência, de longo prazo.” Para o especialista, a diversificação internacional ajuda justamente a reduzir a dependência de um único cenário econômico.
O momento também chama atenção para a necessidade de analisar conjuntamente ativos brasileiros e internacionais. Mesmo quando o Ibovespa apresenta bom desempenho ou o dólar recua, isso não significa que uma classe de ativos deva substituir a outra. “O investidor não precisa escolher entre Brasil ou exterior. O patrimônio mais resiliente costuma ser aquele distribuído entre diferentes mercados, moedas e classes de ativos. Essa combinação reduz riscos e aumenta a capacidade de enfrentar momentos de maior instabilidade”, afirma o especialista.
Com o início do segundo semestre, o cenário deve continuar influenciado pelas decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos, pela evolução das tensões no Oriente Médio, pelos impactos do petróleo sobre a inflação global e pelo aumento das disputas comerciais. O tarifaço anunciado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros adiciona uma nova camada de incerteza, diante dos possíveis efeitos sobre as exportações, a confiança dos investidores, o fluxo de capitais e o comportamento do câmbio. Nesse ambiente, Peniche reforça que a internacionalização patrimonial exige planejamento jurídico, tributário e financeiro, considerando os objetivos do investidor, o horizonte de aplicação e a forma como os ativos serão estruturados e declarados no Brasil.
“Quem constrói patrimônio pensando apenas na oscilação do dólar acaba reagindo ao mercado. Por outro lado, quem estrutura seus investimentos com planejamento consegue usar essas oscilações a seu favor. Internacionalizar patrimônio não significa apostar contra o Brasil, mas construir uma carteira mais equilibrada, preparada para diferentes cenários econômicos e capaz de preservar valor no longo prazo”, conclui Peniche.
