FLÓRIDA BAR – Uma casa de pasto que marcou época no centro de Fortaleza

Seu proprietário o desportista carioca Sá Filho.
Uma casa que revolucionou a nossa sociedade.
O quartel general do Rei Javeh.
O recanto de profissionais na Era do Rádio.
Reduto da boemia.

Magalhães/Fotos de Ermínio Sá

A bordo de um hidroavião que aterrissou na Barra do Ceará, no ano de 1939, aportava em Fortaleza o profissional contratado pelo presidente do Ceará Sporting Club, coronel Oliveira de Paiva, pai do humorista Chico Anysio. Chamava-se José Joaquim Sá Filho. Carioca de nascimento, contava 31 anos. Já trazia uma larga folha de serviços prestados ao América do Recife (1936), Botafogo da Bahia (1937-38), Náutico do Recife (três meses). Chegou ao Ceará Sporting Club (1939-43). Depois de ser emprestado ao Ferroviário por algum tempo, foi convocado para a Seleção Cearense. Tendo uma carreira brilhante no Ceará, comemorou o 26º aniversário do clube que sagrou-se campeão. Em 1940 teve que deixar Fortaleza por motivo de uma contusão, indo buscar tratamento em sua terra, onde permaneceu por vários meses. Terminada a Segunda Guerra Mundial, o Ceará passou por uma reestruturação e Sá filho, fora dos gramados, foi convidado para dirigir o novo time. Foram dez anos de revezamento entre os bastidores do campo e as reuniões da diretoria. Até que encerrou definitivamente a carreira. Este era o Sá Filho, numerado às costas com as camisetas 2 ou 5,  “back” ou “half”, 1,80 de altura, chuteiras 44, atleta exemplar que nunca foi expulso de campo e torcedor do Flamengo (RJ), São Paulo (SP), América (PE), Botafogo (BA) e Ceará (CE). Glória que pode ser conferida nas imensas e várias fotografias colhidas pela panorâmica de Leocácio Ferreira que ainda hoje decoram o Flórida Bar.

Sá Neto. ainda jovem, já assumindo as finanças do Flórida Bar

Abraça outra carreira  Ao abandonar o futebol, Sá Filho tomou interesse pelo comércio, quando estabeleceu-se com uma agência de automóveis. Tinha alguns carros lotados no Posto Mazine (Praça do Ferreira) investimento que fez com os ganhos no futebol. Porém, resolveu vende-los em 1946 e passou a dirigir o maior ônibus da praça, “Trevo da Felicidade”, que tinha poltronas aveludadas, rádio a bordo, detalhes cromados nas cadeiras e nos balaústres de apoio”, no dizer de Blanchard Girão no seu O Procurador de Deus. O suntuoso coletivo fazia ponto na Barão do Rio Branco com Liberato Barroso e percorria os bairros de Benfica, Barreiros (Damas) e Parangaba. E ali ficou pilotando até capitanear o bar onde conviveria mais amiúde com craques do seu tempo, pessoas ligadas ao futebol, no mínimo torcedores fãs.

Jangadeiro ou Flórida

Quando Sá Filho resolveu estabelecer-se com uma casa de pasto, tinha dois nomes a escolher: Jangadeiro e Flórida.O primeiro para homenagear quatro heróis cearenses, Mestre Jerônimo, Jacaré, Tatá e Mané Preto, heróis que navegaram até o Rio de Janeiro para conversar  com o presidente Getúlio Vargas sobre assunto em defesa da classe. O segundo por ser o estado americano que ele tanto admirava. Prevalecendo o nome Flórida Bar, suas portas foram abertas ao público no dia 7 de novembro de 1962, instalado à Rua do Rosário nº 38, local aprazível no centro de Fortaleza. Concentrava-se na Praça do Ferreira do Ferreira, dali rumando em direção da rua Senador Pompeu para realizar-se o chamado Corso. Eram os desfiles dos Maracatus com suas caras pintadas em negrume metidos em suas tradicionais roupas à baiana, com o puxador entoando uma loa ritmo cadente que lembrava as tradições africanas.(O primeiro Maracatu a se apresentar em Fortaleza foi o Az de Ouro, criado por Raimundo Alves Feitosa, o “Boca mole” (Cadê meu lenço/que o boi babou?/tá no sereno/ou no coarador) Haviam as  Escolas de Samba, como a de Luiz Assunção que interpretava durante os desfiles suas próprias músicas, como: “A última granada”,  em homenagem ao final da II Grande Guerra, etc. O Bloco das Coca-Cola, “Cangaceiros da Fola” que era paramentado à moda de Virgulino, o Lampião. Ao cair da tarde, na Adega do Rei Javeh I e Único,  Momo envergando a sua rica indumentária, era reverenciado por foliões no salão do Flórida Bar.

Freguesia eclética Relacionavam-se, entre outros, os fregueses assíduos que iam de autoridades dos mais elevados escalões, como o General Euclydes Wycar de Paula Pessoa, Coronel Antônio Alves de Oliveira, Delegado Vanderley Girão Maia; a políticos, como: Lúcio Alcântara, Ossian Araripe, José Firmo de Aguiar, Gonzaga Mota, Iranildo Pereira, Oriel Mota, Antônio Câmara, Barros Pinho, Cláudio Filomeno e Dorian Sampaio. A imprensa destacava-se com os profissionais: Edmundo Maia, Stênio Azevedo, Cirênio Cordeiro, Paulo Verlaine, Guajará Cialdini, Nelson Faheina, Newton Sales, Edmundo de Castro (Dedé) Valse Barbosa, Gervásio de Paula. O pessoal ligado ao esporte também se fazia presente. Eram atletas, dirigentes de clubes, além de cronistas como Aldenor Maia, Alfredo Sampaio, Francisco Rolim, Pacoti, Bira, Airton Fontenele, Peter Soares. Wilson Machado, no encerramento da sua crônica diária que ia ao ar através da PRE-9, mandava um recado para o Sá Filho, quando dizia que logo mais estaria no estabelecimento para pegar uma feijoada com aquela caninha. As especialidades da casa começavam cedo. Às sextas-feiras, os contumazes fregueses deleitavam-se com o famoso feijão verde regado a cerveja ou aos tragos de uma Dandis, Sapupara ou Bagageira. Os sábados eram reservados aos pratos não menos preferidos, que eram a buchada de carneiro, sarrabulho e o risoto de galinha à moda da casa. Era extensa  a lista de outro grupo de fregueses, começando pelo alfaiate Francisco Girão Rabelo (o “geômetra do corpo e poeta do pano”, no dizer de Rogaciano Leite (pai) considerado o mais antigo.

Cláudia Barroso autografando seu novo CD, ao lado da empresária Dirce e sua filha. Cláudia Barroso fez brilhante apresentação no Flórida Bar.

Reduto de artistas 

O Flórida também tinha uma clientela formada por aristas: músicos, pintores do porte de Aluísio Cordeiro e de Audifax Rios, autor da artística arte  que representa o Clube do Bode. O brega-star Falcão foi padrinho De Um Tudo, editado por Audix, ficando o lançamento no mercado por conta do livreiro Sérgio Braga. A página seis é quase toda dedicada ao cinquentenário do Flórida e tem como título: “Sem perder o brilho dos anos dourados”. O texto fala do roteiro do restaurante/bar durante sua longa vida, seus fundadores, garçons, clientes, destacando políticos, desportistas e foliões, sem esquecer os eventos recentes e ilustrando com uma foto antiga, em preto e branco, onde se vê animada mesa em cuja cabeceira está o fundador da casa, Sá Filho.

Intelectuais de peso compareceram ao evento, notadamente membros da Academia Cearense de Letras: Pedro Henrique Saraiva Leão, Juarez Leitão, Dimas Macedo e Ubiratan Aguiar. Outras figuras de destaque nos meios culturais: Sílvio Barreira, Karla Karenina, Alano Freitas, Valber Benevides, Kazane, Anastácio Souza, Raimundo Netto, Eulálio Costa, Pedro Salgueiro, entre outros. A Confraria Chapéu de Couro se fez presente por intermédio por intermédio dos sócios que mais prestigiam o Flórida: Léllis Luna, Paulo Maurício, Stella Cavalcante e Rosinan Gonçalves.

O casamento  

José Joaquim Sá Filho casou com Maria Perpétua Cavalcante Sá, de cujo consórcio nasceram os seguintes filhos: Elvira Sílvia Sá Machado, Maria Cristina Cavalcante Sá, José de Sá Neto e Francisco Ermínio Cavalcante Sá. Faleceu em Fortaleza aos 87 anos, em 26 de março de 1995. Ermínio é o atual proprietário do Flórida Bar.

O já famoso locutor esportivo Galvão Bueno ao lado de Francisco Alves e Dr. Aldeir Nogueira Barbosa.

Merecidas homenagens   Sempre citado pela imprensa, mercê do atendimento impecável, boa cozinha e frequência selecionada, o Flórida Bar já foi matéria da revista Veja (junho/1991); mereceu registro da TV Ceará (Tupi) que reproduziu cliques em posters que estão espalhados até hoje pelas paredes do novo bar. Momentos de grande importância para a vida da cidade foi a transmissão do Programa Flávio Cavalcante diretamente do Ginásio Paulo Sarasate; a Medalha de Honra ao Mérito entregue ao proprietário pelo coronel Breno Vitoriano; a jangadinha do “Sete Dias em Destaque, da televisão cearense, entregue por João Ramos; o haid  de jangadas até Buenos Aires e a visita do marechal Lott, candidato à presidência da República.

Jabão, José Henrique Cavaignac(Pateta), Ivan Lima Verde e Ermínio Cavalcante Sá, assumiu o comando do Flórida após a morte do seu irmão Sá Neto.

A mudança do Flórida 

Quando o Flórida Bar mudou-se para a Rua Dom Joaquim nº 68, em 1996, Ermínio Cavalcante Sá muito confiou na tradicional clientela. Acreditou piamente que esta jamais esqueceria o salutar convívio que ofereceu inesquecíveis momentos de prazer. Lembrou-se das sábias palavras de Juarez Leitão: ”Daqui destas mesas, brotam ideias singelas ou exóticas, mas todas proclamadas com ênfase e em tom peremptório. Vozes e sussurros de antigos frequentadores, aparentemente mortos, continuam a ser ouvidas, principalmente pelos que já tomaram quase todas. Foram proferidas por figuras como Wilson Machado, Paulino Rocha, Irapuan Pinheiro e Castelo de Castro, de uma mesa do velho MODEBRA, o histórico MDB dos anos 1970.Ou de Augusto Pontes, Barros Pinho, Lustosa da Costa, Airton Monte, Chico Passeata e Cláudio Pereira, mais recentemente”. De fato, um bar, um verdadeiro bar, não precisa ser esplendoroso nem situado em nobre endereço Mas é preciso, extremamente indispensável, que tenha aconchego, beleza espiritual e que os puros de coração formem a hoste majoritária de seus frequentadores. O bar deve estar abaixo da razão e um pouco acima dos instintos. Quero dizer: no coração, endereço frenético das paixões. Um bar precisa ter alma. Como o FLÓRIDA.

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