Estudo aponta desafios estruturais e propõe agenda para fortalecer a indústria química brasileira
Lançado pelo IDQ, estudo “Panorama do Complexo Químico Brasileiro e Agenda Estratégica” mostra os gargalos e oportunidades da indústria química, que representa o 3º maior setor do PIB industrial e gera 2 milhões de empregos diretos, indiretos e efeito renda. A indústria química é responsável pelo pagamento de salários muito superiores à média da indústria e do restante da economia, e pelos maiores investimentos em P&D, ocupando a 6ª posição no ranking mundial. Ainda assim, o estudo realizado aponta perda de participação da produção nacional, déficit comercial superior a US$ 40 bilhões, mas indica potencial de geração de
R$ 161 bilhões ao PIB até 2036, se uma agenda estratégica for adotada.

Marcelo Pimentel, Diretor-Presidente do IdQ, na abertura do evento de lançamento do estudo.
O Instituto Nacional do Desenvolvimento da Química – IDQ lançou, nesta segunda-feira (31), em São Paulo, o estudo “Panorama do Complexo Químico Brasileiro e Agenda Estratégica”, elaborado pelas consultorias LCA Consultoria Econômica, com apoio da Macrotempo. O levantamento apresentou um diagnóstico do complexo químico brasileiro e propôs uma agenda de medidas para ampliar a sustentabilidade do setor, a capacidade produtiva, os investimentos, a inovação e a competitividade.
O estudo mostra que a participação da produção nacional no consumo aparente doméstico caiu de 80%, em 2005, para 63%, em 2023, em um movimento acompanhado pelo avanço das importações e pela geração de um déficit comercial setorial superior a US$ 40 bilhões anuais.
Durante o lançamento, o diretor-presidente do IDQ, Marcelo Pimentel, destacou que o estudo representa uma nova etapa na atuação da entidade, ao ampliar o debate sobre o papel da indústria química no desenvolvimento do País. “Nós estamos falando aqui de prosperidade, de desenvolvimento do País, de qualidade de vida para a população e do futuro da economia brasileira. A química é a base para o desenvolvimento de todo o restante da economia, é a base da indústria nacional, representando o 3º maior setor do PIB industrial e geradora de 2 milhões de empregos diretos, indiretos e efeito renda. Além disso, é responsável pelo pagamento de salários muito superiores à média da indústria e do restante da economia, pelos maiores investimentos em P&D e ocupa a 6ª posição no ranking mundial”, afirmou.
Para ele, entre os principais fatores que afetam o desenvolvimento da indústria química estão a desvantagem estrutural em matéria-prima, o elevado custo da energia elétrica, entraves regulatórios, a concorrência desleal, o mercado ilegal e a falta de escala produtiva em segmentos estratégicos. O estudo também aponta a necessidade de melhorar a coordenação entre os diferentes órgãos públicos envolvidos em temas como matéria-prima, energia, crédito e regulação.
Um dos principais pontos apresentados pelo estudo é o papel da indústria química como cadeia habilitadora de diferentes setores da economia brasileira. O segmento atua, diretamente, em quatro das seis missões estruturantes da Nova Indústria Brasil (NIB): cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais; complexo econômico-industrial da saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; e bioeconomia, descarbonização e transição energética.
“A indústria química fornece insumos essenciais para áreas como agricultura, saúde, infraestrutura e energia. Entre eles estão fertilizantes, defensivos agrícolas e bioinsumos; Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) e reagentes; resinas, polímeros, cloro e coagulantes utilizados em infraestrutura e saneamento; além de materiais e soluções voltados à transição energética, à bioeconomia e à reciclagem avançada”, esclarece o cientista política Leonardo Barreto, diretor da Think Policy BR, que moderou o painel das associadas ao IdQ no evento e foi responsável pelo estudo de análise de abordagem do Instituto.

Professor Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES, apresenta o estudo “Panorama do complexo químico brasileiro e agenda estratégica”, em São Paulo.
Ao apresentar o estudo, o ex-presidente do BNDES e responsável pelo estudo, professor Luciano Coutinho, destacou que o Brasil reúne ativos capazes de favorecer a expansão da indústria química, como reservas de gás natural, matriz elétrica de baixa emissão, abundância de biomassa, biodiversidade e um amplo mercado consumidor. “O desafio está em transformar essas vantagens em competitividade, por meio de maior coordenação das políticas industrial, energética, de crédito e regulatória”, explicou Coutinho, que complementou:
“Não se pode pensar em uma economia moderna sem indústria, nem em uma indústria moderna sem a indústria química. O Brasil precisa encontrar uma solução própria, considerando suas características e vantagens, inclusive a possibilidade de desenvolver uma petroquímica de baixo carbono. Mas é preciso enfrentar, sobretudo, a questão estrutural da oferta de matérias-primas e construir políticas sistêmicas que permitam tornar o setor mais competitivo”, afirmou.
Indústria Química pode ser passaporte para o futuro do Brasil
As simulações econométricas apresentadas no estudo apontam um potencial significativo associado à recuperação da participação da indústria nacional no atendimento à demanda doméstica. De acordo com as estimativas fundamentadas na Matriz Insumo-Produto, a reconquista do mercado interno pela produção brasileira poderia adicionar R$ 161 bilhões ao PIB até 2036, gerar R$ 55 bilhões em massa salarial, criar 1,5 milhão de empregos e incrementar R$ 38 bilhões em arrecadação tributária.
O estudo indica que o Brasil possui condições para transformar a necessidade de substituição de importações em uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico e industrial, especialmente a partir de seus recursos naturais e de sua capacidade instalada. Entre as oportunidades identificadas estão o avanço da bioeconomia e o desenvolvimento de uma petroquímica de baixo carbono.
Para o professor Luciano Coutinho, a recuperação da competitividade não deve se limitar a medidas de proteção comercial. “O objetivo precisa ser tornar o complexo químico brasileiro mais competitivo, com matéria-prima barata, crédito, energia e condições sistêmicas que permitam o desenvolvimento da indústria”, ressaltou.
A partir do diagnóstico, o estudo apresenta uma Agenda Estratégica para o fortalecimento do complexo químico brasileiro, estruturada em diferentes frentes de atuação. As propostas, que serão compartilhadas com parlamentares e com os candidatos às eleições de outubro, são embasadas por um Manifesto e pela íntegra do estudo contratado pelo IdQ.
Entre as principais propostas estão:
· Aumento da oferta e da destinação do gás natural para uso petroquímico;
· Fortalecimento do suprimento doméstico de nafta;
· Expansão da produção de fertilizantes e Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs);
· Melhoria e harmonização do ambiente regulatório;
· Combate à ilegalidade;
· Redução dos custos de energia e logística;
· Isonomia tributária;
· Fortalecimento da governança institucional.
Os resultados do estudo, que também considerou as melhores práticas adotadas por vários países para o desenvolvimento da indústria química local, como China, Japão, Estados Unidos, entre outros, foram discutidos durante o evento por representantes das entidades que integram o IDQ: Abiclor, Abifina, Abiquim, Abiquifi, Abrafati, CropLife Brasil e Conselho Federal de Química. O painel, moderado pelo professor Leonardo Barreto, abordou os diagnósticos apresentados a partir da perspectiva de diferentes segmentos da indústria química e discutiu os desafios e oportunidades considerados prioritários para a construção da Agenda Estratégica.

Com a moderação do cientista político Leornardo Barreto (púlpito), representantes das entidades associadas ao IdQ debatem o estudo em painel.
“O caminho que temos de percorrer passa pela aliança do setor e de toda a cadeia. Essa união é uma condição para que haja força política e para que a gente consiga superar a visão de que a indústria é um custo”, afirmou Marcelo Pimentel, diretor-presidente do IDQ.
A agenda estratégica, proposta pelo estudo capitaneado pelo IdQ, propõe a criação do Grupo Executivo para o Desenvolvimento do Complexo Químico (GECQ), vinculado à Casa Civil da Presidência da República e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a ser integrado ao próximo mandato, além da estruturação de comissões temáticas permanentes com participação do Congresso Nacional, governo, setor produtivo e das entidades representativas do setor, além da sociedade, para transformar o diagnóstico do IdQ em propostas voltadas ao fortalecimento da indústria química e ao desenvolvimento econômico, tecnológico e social do País.
Acesse: Fotos, Manifesto e íntegra do Estudo “Panorama do Complexo Químico Brasileiro e Agenda Estratégica” no link:
https://drive.google.com/
