Eleições 2026 no Ceará
A eleição ao governo do Estado do Ceará, neste ano de 2026, vêm tendo um impacto que nos leva a pensar em quebra de paradigmas dos últimos pleitos aqui.
O Ceará viveu, desde meados da década de 1980, um processo de relativa continuidade de projeto político. Mesmo quando houve alternância de governadores, as mudanças ocorreram mais na forma de gestão do que na estrutura central das políticas públicas. Os governos de Tasso Jereissati, Ciro Gomes, Lúcio Alcântara, Cid Gomes, Camilo Santana e Elmano de Freitas, apesar de diferenças partidárias e de estilo, mantiveram diversos pilares comuns: valorização do planejamento estatal, investimentos em educação, atração de indústrias, fortalecimento da máquina pública e continuidade de programas estratégicos.
O que torna a eleição de 2026 diferente é justamente a possibilidade de uma alternância mais profunda entre dois campos políticos que hoje se apresentam como adversários diretos. O debate deixou de ser apenas sobre quem administra melhor e passou a envolver visões distintas sobre segurança pública, gestão fiscal, papel do Estado, relação com o governo federal e prioridades de investimento.
Caso a oposição vença, pode ocorrer revisão de programas e projetos herdados dos governos anteriores.
Por outro lado, é importante lembrar que governos não começam do zero. Há limitações institucionais, legais e financeiras. Grandes estruturas como saúde, educação, segurança e infraestrutura possuem carreiras permanentes, contratos, financiamentos e planejamentos plurianuais que dificultam mudanças abruptas.
Historicamente, quando há uma mudança de paradigma político após longos períodos de continuidade, o resultado pode gerar descontinuidade excessiva, quando projetos bem-sucedidos são abandonados apenas por razões políticas, gerando perdas institucionais.
Para um jornalista observador da política cearense, a grande questão a acompanhar não é apenas a eleição em si, mas quais políticas públicas serão preservadas independentemente do vencedor. Observe então a questão da segurança pública: é patente que os últimos governos investiram e muito nas polícias em geral, em equipamentos, armas, viaturas, inteligência etc. E o que estamos assistindo é uma polêmica acirradíssima em torno desse tema, como se fosse possível uma estrondosa nova era.
De fato, ao longo dos últimos governos houve investimentos expressivos em segurança pública: ampliação de efetivos em diferentes períodos, aquisição de viaturas, armamentos, sistemas de videomonitoramento, centros de inteligência, novas unidades policiais e modernização tecnológica. Portanto, a discussão atual não ocorre em um cenário de ausência de investimentos estatais.
A controvérsia surge porque a população tende a avaliar a segurança não pelos recursos aplicados, mas pelos resultados percebidos no cotidiano. Se a sensação de insegurança permanece elevada, parte do eleitorado conclui que os investimentos realizados não foram suficientes ou não produziram os efeitos esperados.
Nesse contexto, a oposição costuma argumentar que o problema não é a quantidade de recursos investidos, mas a estratégia adotada. Já o governo argumenta que enfrenta um fenômeno complexo, ligado à expansão das facções criminosas em todo o Brasil, e que os resultados dependem de políticas de longo prazo.
O ponto que merece reflexão é que muitas vezes as campanhas eleitorais criam a expectativa de uma solução rápida para um problema estrutural. A experiência brasileira mostra que não existe uma medida única capaz de transformar radicalmente a segurança pública em curto prazo. Mesmo governos que promovem mudanças importantes encontram limitações decorrentes de fatores como: Crescimento das organizações criminosas nacionais; Tráfico de drogas e armas interestadual; Sistema prisional; Questões sociais e urbanas; Integração entre União, estados e municípios.
Por isso, quando se fala em uma “nova era” da segurança pública, é importante distinguir entre discurso político e capacidade real de implementação. Um novo governo pode alterar prioridades, métodos de gestão e estratégias operacionais. Entretanto, dificilmente haverá uma transformação instantânea apenas pela troca de governante.
A grande questão para 2027 talvez não seja se haverá mais investimentos — porque isso já vem ocorrendo há anos —, mas se haverá uma mudança de modelo de gestão da segurança capaz de produzir indicadores significativamente melhores do que os atuais. Esse é o teste que qualquer grupo político que assumir o governo terá de enfrentar, seja situação ou oposição.
