Essa dimensão intransmissível é o que torna o Miserere um caso único na história da música: uma obra cujo poder dependia não apenas das notas escritas, mas de uma tradição de interpretação viva, preservada dentro do coro. Em 1770, o jovem Wolfgang Amadeus Mozart, então com 14 anos, assistiu a uma execução na Semana Santa e realizou uma transcrição da obra — episódio registrado em carta por seu pai Leopold e que, menos de três meses depois, levou o Papa Clemente XIV a receber Mozart e lhe conceder a Ordem da Espora de Ouro, uma das mais altas distinções pontifícias. A transcrição foi publicada no ano seguinte em Londres pelo historiador Dr. Charles Burney, encerrando definitivamente o monopólio da obra.
O Miserere é hoje uma das peças corais mais gravadas e executadas do mundo. Mas a versão que chegou até nós — incluindo o célebre Dó agudo, uma das notas mais reconhecíveis do repertório coral — é ela mesma produto de camadas de transcrição, reinterpretação e até de um erro tipográfico incorporado ao cânone no século XIX. O que a Cappella Sistina preserva e executa é a versão do Códice Sistino de 1661, o registro mais próximo da obra original — anterior a todas essas transformações.
Da Renascença aos streamings: gravações pela Deutsche Grammophon – No século XX a tradição do coro da Sistina encontrou o registro sonoro. O conjunto realizou gravações para o selo Deutsche Grammophon — a mais antiga e tradicional gravadora de música em atividade no mundo, responsável pelo catálogo de nomes como Herbert von Karajan, Leonard Bernstein e Maria. Esses registros documentam um repertório de profundidade e extensão únicos, e levaram ao público global o som de um conjunto que acompanhou, e em grande medida protagonizou, mais de quinze séculos de história musical.
O grupo já se apresentou em países como Japão, Coreia do Sul, Hungria, Alemanha, Estados Unidos e Canadá. A turnê brasileira inaugura um capítulo inédito: é a primeira vez que o coro se apresenta na América Latina e ao sul do Equador.
O programa no Brasil – Canto gregoriano e clássicos do Renascimento e outros – O coro que vem ao Brasil é composto por 24 cantores adultos e cerca de 30 Pueri Cantores — os meninos cantores que constituem a seção das chamadas vozes brancas do conjunto – caracterizadas pela sonoridade pura, precedente à puberdade. “O programa preparado para as apresentações brasileiras abrange quinze séculos de repertório coral, do canto gregoriano à música do século XX, incluindo uma obra de um compositor brasileiro”, afirma Monsenhor Marcos Pavan, maestro e diretor musical atual do grupo.
Os concertos incluirão, entre outras obras, peças como o antífona gregoriana Factus est repente; obras de Palestrina (incluindo o Credo da célebre Missa Papae Marcelli) e Tomás Luis de Victoria — dois dos maiores polifonistas do Renascimento e ex-membros do próprio coro; peças de Lorenzo Perosi e Domenico Bartolucci — ambos ex-maestros diretores da Cappella Sistina e o Choral varié sur le thème du ‘Veni Creator’ de Maurice Duruflé para órgão solo.
Brasileiro, o primeiro maestro não-italiano no cargo em 600 anos — Nascido em São Paulo, Monsenhor Marcos Pavan realizou estudos musicais na capital paulista, especializando-se em técnica vocal e canto gregoriano, e obteve o Fellowship Diploma em Regência Coral pelo National College of Music and Arts de Londres. Após carreira no Brasil como cantor lírico e regente, transferiu-se para a Itália em 1991. Em 1998, foi nomeado Maestro dos Pueri Cantores da Cappella Sistina, participando das gravações do coro para a Deutsche Grammophon e a Paulus. Em 2020, o Papa Francisco o nomeou Maestro Diretor — tornando-o o primeiro não-italiano a ocupar o posto desde que o cargo foi criado, no século XIX.
Uma turnê histórica pelo Brasil — entradas 100% gratuitas – A vinda da CAPPELLA MUSICALE PONTIFICIA “SISTINA” ao Brasil é realizada com patrocínio via Lei Rouanet do Grupo Mix, Itaú, Mobifácil , Iguatemi S.A. e Empório do Bem. Conta com apoio da Catedra da Sé de São Paulo, Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, UBRAJUC e UJUCASP. Realização. Estúdio Centro, São Paulo Schola Cantorum, Museu de Arte Sacra de São Paulo, Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura do Governo Federal.
A classificação etária geral é Livre (AL).