Brasil não deve se curvar ao protecionismo americano
O Brasil precisa aproveitar essa situação para fortalecer sua indústria, investir em inovação e ampliar sua presença nos mercados globais. Não podemos aceitar passivamente medidas protecionistas que apenas distorcem a concorrência e prejudicam países emergentes.
Por Antonio Matos
A decisão do governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre o aço brasileiro não pode ser vista apenas como um revés comercial. Pelo contrário, é uma oportunidade para o Brasil reforçar sua soberania econômica, diversificar seus mercados e se posicionar como um protagonista global. O Brasil não deve se curvar nem se rebaixar a essa política populista do governo Donald Trump, que prioriza interesses internos imediatistas em detrimento das relações comerciais justas e equilibradas.
O Governo dos EUA justificou as tarifas como uma resposta a práticas comerciais que estariam prejudicando a indústria siderúrgica americana, visando proteger a segurança nacional e promover a reindustrialização do país. O Brasil é um dos principais fornecedores de aço para os EUA, com aproximadamente 48% das exportações brasileiras de ferro e aço destinadas ao mercado americano. Em 2024, o Brasil exportou cerca de 4,3 milhões de toneladas de aço para os EUA, representando 1,58% do total exportado pelo país.
O Instituto Aço Brasil expressou surpresa e preocupação com a decisão, afirmando que a medida não beneficiaria nenhum dos países envolvidos. A entidade destacou que um acordo anterior entre Brasil e EUA era favorável e anunciou a intenção de iniciar negociações para restabelecer os termos comerciais anteriores.
A União Europeia classificou as tarifas como injustificadas e prejudiciais, anunciando contramedidas rápidas e proporcionais em resposta às tarifas americanas sobre aço e alumínio europeus. A imposição dessas tarifas pelos EUA gerou preocupações sobre possíveis impactos negativos nas relações comerciais internacionais e nas cadeias de suprimento globais, afetando empresas e consumidores em diversos países.
Nosso país tem força própria, uma economia dinâmica e produtos de interesse global. O aço brasileiro, reconhecido internacionalmente por sua qualidade, é apenas um exemplo do potencial nacional. O Brasil exporta para diversas partes do mundo e tem a logística necessária para atender mercados exigentes como
Europa, Oriente Médio e, principalmente, a China, que já é um dos nossos principais parceiros comerciais.
O exemplo da ArcelorMittal, que se implantou no Ceará há cerca de quinze anos, demonstra a capacidade brasileira de competir no cenário global. A unidade brasileira da empresa, localizada no Nordeste, tem se destacado no mercado internacional, inclusive nos Estados Unidos, produzindo mais de quinhentos tipos de aço para as mais diversas finalidades. Esse investimento foi uma alavanca positiva para garantir competitividade frente à indústria chinesa, que domina o mercado com preços mais baixos. Porém, o diferencial do aço produzido no Brasil, especialmente no Ceará, está na qualidade. A siderurgia brasileira desenvolve produtos refinados e altamente resistentes, que atendem desde as indústrias mais exigentes até projetos de grande escala.
Diante da postura agressiva dos EUA, a resposta brasileira deve ser igualmente estratégica. Em vez de buscar concessões unilaterais ou se submeter a medidas arbitrárias, o Brasil precisa adotar uma diplomacia assertiva, que defenda seus interesses e busque novos mercados. A China, por exemplo, continua sendo uma potência industrial em expansão e pode se tornar um destino ainda mais vantajoso para nossas exportações de aço e outros produtos.
O mundo é grande e o Brasil tem capacidade para negociar em condições mais favoráveis. Em vez de ver essa sanção americana como uma perda, devemos enxergá-la como um incentivo à ampliação de nossas parcerias comerciais e ao fortalecimento da economia nacional. A diversificação de mercados reduz a dependência de qualquer país específico e nos torna mais resilientes a oscilações políticas externas.
O Brasil precisa aproveitar essa situação para fortalecer sua indústria, investir em inovação e ampliar sua presença nos mercados globais. Não podemos aceitar passivamente medidas protecionistas que apenas distorcem a concorrência e prejudicam países emergentes. O caminho é a diplomacia de alto nível, combinada com ações concretas para expandir nossas relações comerciais com potências que valorizam o livre comércio.
Se os EUA optam por barreiras, o Brasil deve optar por pontes. Esse é o momento de agir com inteligência, assertividade e visão de longo prazo. O Brasil não pode perder sua competitividade global e, mais do que nunca, deve mostrar ao mundo que tem força, estratégia e capacidade para crescer sem depender de favores.
Antonio José Matos de Oliveira é jornalista, Administrador de empresas e membro da Academia de Ciências, Letras e Artes/ACLA de Columinjuba/Capistrano de Abreu.
