Agronegócio

Zarc do milho e do consórcio milho-braquiária são atualizados

Zoneamentos tiveram revisão da classificação dos solos por capacidade de água disponível e readequação das séries históricas do clima. Foto: Sandra Brito

  • Em relação aos solos, anteriormente, os zoneamentos trabalhavam com apenas três classes ou grupos de solos (arenoso, médio e argiloso)
  • Agora, os estudos passam a utilizar seis classes baseadas na água disponível no solo, que variam de AD1 (baixa retenção) a AD6 (alta retenção de água)
  • No componente climático, foram incorporados dados adicionais de nove anos de coleta

 

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) do milho grão foi atualizado e passa a contar com alterações nos componentes de solo e nas bases climáticas. A nova versão traz duas mudanças centrais: a revisão da classificação dos solos por capacidade de água disponível e a readequação das séries históricas do clima. As alterações refletem, sobretudo, a crescente variabilidade climática e o aumento da frequência de ocorrência de eventos extremos nos últimos anos, como secas, excessos de chuvas e geadas.

Séries de dados meteorológicos com 30 anos de duração, referentes a temperaturas máxima, mínima e média, evapotranspiração de referência e chuva são utilizadas para o cálculo de risco do cultivo do milho. Além do clima, informações referentes à cultura e ao solo também são consideradas.

As portarias com os zoneamentos para o milho foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU) no dia 10 de julho, abrangendo todos os estados do Brasil. Na terça-feira (14) também foram publicadas no DOU portarias com a revisão do zoneamento do consórcio de milho com braquiária.

Classes de águas disponíveis

Em relação aos solos, os especialistas destacam um avanço significativo. Anteriormente, o zoneamento trabalhava com apenas três classes ou grupos de solos (arenoso, médio e argiloso). Agora, o estudo passa a utilizar seis classes, baseadas na água disponível no solo, que variam de AD1 (baixa retenção) a AD6 (alta retenção de água). “Em geral, não encontramos extremos de água disponível em áreas agrícolas no Brasil”, explica Maurilio Fernandes de Oliveira, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, líder da cultura do milho no Zarc. “Normalmente, a faixa fica entre AD3 e AD5, suficientes para a cultura do milho”. O pesquisador ainda alerta que nem sempre um solo argiloso é garantia de alto valor de água disponível. “As análises têm sugerido que taxas equilibradas de silte, areia e argila são melhores”, informa.

Para Balbino Evangelista, analista em Geoprocessamento da Embrapa Cerrados e membro do Grupo Gestor da Embrapa responsável pela operacionalização dos estudos do Zarc, “essa mudança de classificação dos solos torna o zoneamento mais preciso e mais representativo dos diferentes ambientes de produção”.

Ampliação e integração da base de dados

No componente climático, foram incorporados dados adicionais de nove anos de coleta, ampliado o número de estações meteorológicas utilizadas e aperfeiçoadas as informações de chuva e temperatura. “Essas melhorias permitem que as estatísticas de risco representem melhor a realidade atual do cultivo no país”, explica Balbino.

Segundo ele, o principal ganho da atualização está na integração mais refinada entre informações de solo e clima, o que torna o Zarc mais detalhado e alinhado às condições atuais. Balbino lembra ainda que a ferramenta é dinâmica e, continuamente, incorpora avanços da pesquisa, como novas cultivares, modelos aprimorados e bases de dados mais robustas.

 

Exemplo de mapa do Brasil com dados do Zarc sobre os riscos climáticos para o algodão, conforme ciclo da cultivar, textura do solo e decêndio: os riscos são tabulados em até 20 (azul), 30 (verde), 40 (laranja) e acima de 40% (cinza). As aberturas e fechamentos de janela para o plantio acontecem quando o risco é menor que 40%. Os percentuais de risco não têm relação com cálculos de potencial de produção: áreas com o mesmo nível de risco podem ter índices de produtividade diferente. Foto: Embrapa Agricultura Digital.

 

Impactos das mudanças

As mudanças no Zarc do milho impactam diretamente as janelas recomendadas de plantio. Na primeira safra, algumas regiões registram atraso de, pelo menos, dez dias nas datas indicadas. Já na segunda safra, especialmente no Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste, observa-se em algumas regiões um encurtamento da janela, em função da redução e distribuição das chuvas e do aumento das temperaturas e da evapotranspiração. “Em contrapartida, no Sul, parte de áreas antes limitadas pelo frio passaram a ter uma janela maior, já que o aumento das temperaturas reduziu o risco de geadas e de temperaturas limitantes”, pontua Balbino Evangelista.

De acordo com o analista, os fenômenos climáticos vêm alterando de forma significativa os calendários de plantio em diversas regiões do país, o que reforça a necessidade de manter o Zarc permanentemente atualizado.

Além de orientar produtor rural sobre o período de plantio com baixos riscos, a ferramenta é utilizada como referência na contratação de crédito e do seguro rural.

Consórcio Milho-Braquiária

O Zarc do consórcio milho-braquiária também foi atualizado. Ele só foi publicado para os estados que apresentam tradição e ambientes propícios para este sistema de cultivo, especialmente aqueles das regiões Centro-Oeste e Sudeste.

A nova Nota Técnica do Zarc Milho-Braquiária destaca as vantagens do cultivo consorciado com a integração lavoura-pecuária (ILP), fornece sugestões para o melhor aproveitamento das potencialidades das culturas e reforça a necessidade da adoção de boas práticas para que não haja competição entre as duas culturas. Isso para que o produtor mantenha sua produção de milho e ainda conte com os benefícios do seu solo coberto pela palhada, tais como mais matéria orgânica e fertilidade, menor perda de água por evaporação, raízes mais profundas e maior reserva de água. E, como resultado, aumento da produtividade com estabilidade e redução de riscos de perdas por eventos extremos do clima.

O milho-braquiária apresenta as mesmas janelas de plantio do milho solteiro. Na avaliação dos riscos, considerou-se que a semeadura simultânea do milho com o capim não traria competições, especialmente por água, e desta forma não haveria riscos adicionais de perda de rendimento do milho. Mas, para que isso ocorra, orientações adicionais precisam ser seguidas visando a implementação para melhor aproveitamento das potencialidades das culturas consorciadas:

  • escolher a espécie forrageira, o método de implantação e o manejo a ser aplicado na forrageira em função do objetivo do consórcio;
  • priorizar sementes de braquiária com alta pureza e germinação, a fim de evitar a introdução pragas ou de plantas infestantes na lavoura;
  • controlar efetivamente as plantas daninhas antes e durante os plantios.

 

Zarc Níveis de Manejo

Na safra 2026/2027, pela primeira vez, será testado o Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM) para a cultura do milho. O projeto piloto será feito no Paraná e Mato Grosso do Sul na segunda safra. O ZarcNM leva em consideração o manejo feito pelo agricultor para definir o risco climático.

São considerados seis indicadores, como tempo sem revolvimento do solo, porcentagem de cobertura do solo, saturação por bases, teor de cálcio, saturação por alumínio e diversidade de cultivos nos últimos três anos. A partir dos dados coletados, o talhão é classificado em uma escala de níveis de manejo, de 1 a 4. Quanto maior o NM, maior a subvenção no seguro pelo PSR. No piloto da segunda safra de milho 2026/2027 a subvenção será de 40% para NM1, 45% para NM2 e 50% para NM3 e NM4.

Saiba mais sobre ZarcNM em https://www.embrapa.br/rede-zarc-embrapa/niveis-de-manejo

 

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