Agroindústria

Cannabis produzida no Brasil não garante remédios mais baratos, alertam especialistas

A produção nacional de cannabis medicinal ganhou novo impulso regulatório no Brasil, mas especialistas alertam que o sucesso da cadeia produtiva dependerá de muito mais do que autorização para cultivo. O tema será debatido no próximo dia 2 de julho durante o encontro “A pesquisa pública e a cadeia de valor da Cannabis sativa L.”, promovido pela Embrapa, que reunirá pesquisadores, especialistas e representantes do setor para discutir os desafios econômicos, regulatórios e tecnológicos que podem definir o futuro da cannabis medicinal no país.

A abertura para a produção nacional representa um marco histórico para um mercado que hoje depende majoritariamente da importação de produtos derivados da cannabis. A expectativa é ampliar o acesso dos pacientes, reduzir custos e estimular investimentos em inovação, agricultura e indústria farmacêutica.

No entanto, segundo a pesquisadora da Embrapa e presidente do Comitê Permanente de Cannabis da instituição (CPCAN), Beatriz Marti Emygdio, o cenário ainda exige cautela.

“O Brasil avançou ao criar condições para a produção nacional de cannabis medicinal, mas ainda existem importantes desafios econômicos e regulatórios. O sucesso dessa cadeia dependerá da capacidade de produzir com eficiência e competitividade em um ambiente regulatório que impõe exigências rigorosas e custos elevados. Caso contrário, a produção nacional pode não se traduzir na redução de custos esperada pelos pacientes.”

A discussão ocorre em um momento estratégico para o país. Enquanto o mercado internacional enfrenta excesso de oferta de CBD e queda de preços, o mercado interno brasileiro desponta como principal destino da futura produção nacional. Embora o novo marco regulatório tenha ampliado as possibilidades para a produção nacional e aberto perspectivas para exportação, especialistas alertam que o mercado internacional vive atualmente um cenário de excesso de oferta de CBD, reduzindo significativamente a atratividade das exportações como principal motor econômico da cadeia brasileira.

Nesse contexto, a competitividade será o principal fator para determinar se a produção brasileira conseguirá, de fato, reduzir os custos dos tratamentos para milhares de pacientes. Entre os desafios estão as exigências regulatórias relacionadas à farmacovigilância, rastreabilidade, monitoramento das áreas produtivas, segurança e controle regulatório, que agregam custos importantes ao sistema produtivo. Além disso, o limite regulatório de 0,3% de THC impõe desafios técnicos que podem impactar diretamente a produtividade das lavouras e a viabilidade econômica da produção.

Outro tema que deve ganhar destaque é o potencial econômico do cânhamo industrial. Atualmente, segmentos como fibras têxteis, biomateriais, construção civil, cosméticos, alimentos e bioinsumos ainda aguardam regulamentação específica para avançar comercialmente no Brasil. Segundo Beatriz, a pesquisa pública pode desempenhar um papel decisivo para acelerar esse processo. “Existe uma grande oportunidade para que a pesquisa pública produza o conhecimento necessário para demonstrar o potencial econômico e ambiental da cannabis em diferentes cadeias produtivas. Mesmo onde ainda não existe produção comercial regulamentada, a pesquisa pode construir as bases técnicas que apoiarão futuras decisões regulatórias e investimentos privados.”

A adaptação de materiais genéticos às condições brasileiras também será tema do debate. Embora a tropicalização seja frequentemente apontada como prioridade para o setor, especialistas destacam que sua importância dependerá do modelo produtivo adotado no país.

Em sistemas de cultivo protegidos e altamente controlados, a adaptação às condições climáticas locais tende a ser menos relevante. Ainda assim, a disponibilidade de materiais adaptados às diferentes regiões brasileiras continua sendo estratégica para ampliar opções tecnológicas e reduzir riscos produtivos.

Uma das tendências mais promissoras observadas internacionalmente está relacionada ao desenvolvimento de materiais insensíveis ao fotoperíodo, conhecidos como materiais de dias neutros.

Segundo Beatriz, essa linha de pesquisa deve ganhar relevância nos próximos anos.

“Observamos um movimento crescente de empresas e instituições de pesquisa investindo em materiais de dias neutros e em novas estratégias de melhoramento, incluindo edição gênica. Essa tendência pode ampliar a flexibilidade dos sistemas produtivos e certamente estará entre as linhas de pesquisa prioritárias da Embrapa nos próximos anos.”

Para os pesquisadores, a construção de uma cadeia nacional robusta dependerá da integração entre ciência, regulação, indústria e setor produtivo. O debate promovido pela Embrapa busca justamente ampliar essa discussão em um momento considerado decisivo para o futuro da cannabis medicinal e industrial no Brasil.

SERVIÇO

Evento: A pesquisa pública e a cadeia de valor da Cannabis sativa L.

Data: 2 de julho

Horário: 10h às 12h

Transmissão: Canal da Embrapa no YouTube

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