5 autoras brasileiras que você precisa ler no Mês das Mulheres
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Março não é apenas um mês de celebração, é também um tempo de memória, enfrentamento e afirmação. Ler mulheres é um gesto político, mas é, sobretudo, um gesto de escuta. É abrir espaço para vozes que historicamente precisaram disputar cada centímetro de fala. É reconhecer que a literatura brasileira contemporânea pulsa, em grande parte, a partir de mãos, corpos e vivências de mulheres que constroem a narrativa do país a partir de perspectivas historicamente marginalizadas. Ao longo dos anos, mulheres transformaram a dor em linguagem, a raiva em forma, o silêncio em narrativa. Escreveram sobre maternidade e luto, sobre desejo e violência, sobre trabalho, sonho, delírio, memória e resistência. Para este Mês das Mulheres, reunimos cinco autoras brasileiras contemporâneas cujas obras atravessam o íntimo e o coletivo com coragem estética e densidade política. São livros que doem e acolhem, que desorientam e iluminam, que confrontam e oferecem abrigo. Leituras que nos lembram que escrever também é um modo de existir e resistir. Conheça as autoras e suas obras: |
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Thalita CoelhoObra: Ressaca (romance) Escritora, professora e doutora em Literatura pela UFSC, Thalita Coelho é catarinense, lésbica e mãe, dimensões que atravessam sua trajetória pessoal e intelectual e reverberam em uma literatura marcada pelo afeto, pela resistência e pelo protagonismo de vozes dissidentes. Estreou com Terra Molhada (2018), coletânea de poemas, e publicou Desmemória (2020), romance semifinalista do Prêmio Jabuti. Em Ressaca, Thalita mergulha nas camadas do luto, da maternidade e das memórias soterradas. A narrativa fragmentada entrelaça as vidas de Marcela, professora que vê seu mundo ruir após a perda de uma aluna, e Leo, sua filha, cuja existência faz emergir traumas há muito enterrados. Com elementos de realismo fantástico, o romance aborda abuso sexual infantil, relações lésbicas e dupla maternidade, tendo o mar catarinense não apenas como cenário, mas como força narrativa — metáfora das memórias que insistem em retornar. No prefácio, Monique Malcher escreve: “As personagens são mais do que mulheres, não há palavra que explique. E um dos grandes méritos deste romance é nos fazer acessar a existência de mulheres que fogem à norma e querer ser banhada pelo seu caos marítimo.” |
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Laura Redfern NavarroObra: um sonho lúcido (poesia) Poeta, jornalista, pesquisadora e fotógrafa experimental nascida em São Paulo em 2000, Laura Redfern Navarro é mestranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, onde pesquisa as intersecções entre linguagem poética e espaços liminares. Vencedora do ProAC/2022 com O Corpo de Laura, tem seis livros publicados e produz conteúdo sobre poesia contemporânea na página @matryoshkabooks. Em um sonho lúcido, conduz o leitor por uma travessia sensorial que entrelaça paisagens oníricas — campos labirínticos, salas desconhecidas, um cubículo no meio do oceano — a fragmentos de memória, amor e dissociação. Dividida em três blocos, a plaquete acompanha a jornada de uma consciência que gradualmente se reconecta ao corpo, em um texto-caleidoscópio no qual o inconsciente pulsa em imagens vívidas. Inspirada por Alejandra Pizarnik, Orides Fontela, David Lynch e pelas estéticas digitais Liminal Spaces, a obra aborda despersonalização, delírio e sedação a partir da experiência da autora com o Transtorno de Personalidade Borderline. |
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Maíra ValérioObra: Amarga (poesia) Jornalista e escritora nascida em Brasília (DF), Maíra Valério constrói uma poesia ácida, sarcástica e profundamente humana. Vencedora do Prêmio Tato Literário na categoria poesia, Amarga é descrito como um soco nas facetas dentárias de resina que sorriem forçadamente nas redes sociais. Com versos secos, atravessados por humor e melancolia, o livro se divide em cinco seções — “remela”, “vazio em full HD”, “mordendo a cutícula”, “indigestão” e “trabalhar pra morrer” — e explora solidão, trabalho, amor, trauma e a pressão pela felicidade em tempos de positividade tóxica. A epígrafe de Hilda Hilst anuncia o tom: “Só não existe amargura onde não existe o ser”. Nas palavras de Thaís Campolina, que assina a orelha, “é tão bom saber que uma mulher também está com raiva do mundo e entender que não é só você que cansou dos sorrisos amarelos”. Influenciada pela música punk, pela cultura DIY e pelos quadrinhos, Maíra entrega uma obra que oscila entre bóia de salvação e soco no estômago. |
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Marina JerusalinskyObra: Guia de conduta para mulheres bravas (não ficção) Artista visual, pesquisadora e escritora, Marina Jerusalinsky é doutora em Artes pela USP, mestra pela UERJ e graduada pela UFRGS. Há mais de dez anos desenvolve trabalhos transdisciplinares com a palavra, atuando em projetos de arte participativa e livros de artista. É também autora de Adjetivo Feminino: Dicionário de Experiências (2022). Em Guia de conduta para mulheres bravas, resgata o pouco conhecido “Juízo das Bravas”, julgamento que, entre os séculos XIV e XVIII, punia mulheres por falarem de maneira considerada “inapropriada” em espaços públicos. A partir de 59 irônicas “lições de conduta”, a obra combina pesquisa histórica, relatos de mulheres contemporâneas e um projeto gráfico ousado, assinado por ela e por Lídia Ganhito, para evidenciar como esses mecanismos de controle ecoam até hoje. O livro satiriza a criminalização da fala feminina e expõe estereótipos coloniais, especialmente dirigidos à brasileiras em Portugal. “Essas ‘lições’ mostram como a linguagem perpetua opressões, mas também como podemos desmontá-las com ironia”, afirma a autora. |
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Myriam ScottiObra: Sol abrasador prepara solo fértil (contos) Escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP, Myriam Scotti nasceu em Manaus (AM), em 1981. Venceu o Prêmio Manaus de Literatura em 2020 com o romance Terra Úmida, teve obras selecionadas pelo PNLD e foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021. Escreve desde a infância e profissionalizou a escrita em 2014. Em Sol abrasador prepara solo fértil, estreia no gênero conto com narrativas centradas em mulheres amazônicas atravessadas pelos ciclos econômicos, pela migração, pelo trabalho e pela desigualdade. Do auge da borracha aos dias atuais, as personagens não se enquadram como heroínas idealizadas nem como vítimas passivas, são mulheres em sua inteireza, contradição e potência. “Manaus não é apenas um cenário; é uma presença que molda desejos e frustrações”, afirma a autora. Na apresentação, Bianca Santana destaca: “As personagens são atravessadas pelo trabalho, pela migração, pela saudade, pelo amor e pela desigualdade, sem abrir mão da capacidade de sentir e resistir.” |
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Ler mulheres é ampliar repertório, desmontar silêncios e reconhecer que a literatura brasileira contemporânea é vasta e potente. Neste março, escolha uma dessas autoras e deixe-se levar por suas águas, sejam elas amargas, bravas, ressacadas, férteis ou oníricas. Todas as obras estão disponíveis no site da editora orlando: www.editoraorlando.com.br. |





