Momentos da História Política Brasileira.

Em 1992, às vésperas de ser afastado do governo, quando já sentia que tudo estava decidido para seu impeachment, o hoje senador Fernando Collor de Melo, numa entrevista concedida à imprensa da época, desabafou e dirigiu seus ataques contra uma das maiores personalidades da vida política brasileira em toda a sua história, na tentativa de desqualificar o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, o pai da Constituição Federal promulgada em 1988 – Deputado Dr. Ulysses Guimarães.

Surpreendentemente, não surgiu então qualquer contraditório em defesa do ínclito Deputado Federal, nem por parte da imprensa nem sequer de seus correligionários mais próximos. Tudo ficou silente.

Mas, a verdade e a justiça, que sempre caminham juntas, não puderam ficar inertes.  Manifestaram-se uma única vez num grito de solidariedade em defesa do patrono das “Diretas Já”, verdadeiro baluarte e defensor da democracia, líder da redemocratização do Brasil, a quem os militares se deixavam convencer.

Essa bandeira foi alçada por Luiz Gonzaga Fonseca Mota, governador do Ceará e deputado federal, em artigo publicado na edição de 23 de setembro de 1992 do Correio Braziliense, coluna Opinião, única voz que ecoou no cenário político para refutar com elegância os ataques sofridos pelo ‘Doutor Ulysses Guimarães’.

É histórico e merece registro – vamos ler:

 

CORREIO BRAZILIENSE                      

Brasília, quarta-feira, 23 de setembro de 1992 Opinião          

 

Doutor Ulysses Guimarães

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Gonzaga Mota

 

Há o homem e sua circunstância. Quantas biografias ilustres fazem-se, apenas, das circunstâncias: o senador, o deputado, o presidente…

Na biografia de Ulysses Guimarães, a eminência do homem apaga o brilho das circunstâncias por mais coruscantes as luzes destas. Ante Ulysses, carece de importância o ministro da Indústria e Comércio, o deputado, o presidente da Constituinte, o presidente da República ou qualquer outro galardão da glória e do poder.

O perfil de Ulysses Guimarães é o perfil do Brasil das liberdades. Seus traços predominantes: ontem, a reconquista do estado-de-direito: hoje, a consolidação das instituições democráticas; amanhã, o Brasil no concerto das nações mais desenvolvidas do mundo, onde viceje a riqueza com justiça social.

A integridade pessoal, a coerência política, a coragem cívica e a obstinada tenacidade na construção de uma nação maior são os elementos de que se utiliza para compor, aos olhos dos brasileiros, a figura do gigante que se alteia sobre os outeiros da Pátria e projeta esperanças no futuro, como senhor do destino.

Há instantes em que o gigante faz-se Himalaia: ora, como um cavaleiro solitário a resistir, impávido, cães, fuzis e baionetas que tentam barra-lo em Salvador da Bahia, quando se dirige a uma assembléia de Oposição: “Baioneta não é voto; cachorro não é urna! Sou o chefe da Oposição no Brasil e exijo respeito!” Que riscos terá corrido naqueles dias tão incertos de AI-5? Só Deus o sabe! Não fora o enorme respeito de toda a Nação brasileira a seu campeão da liberdade e, ali, teria sido fulminado com a cassação deseu mandato e o banimento da vida pública.

Quem não se recorda do “Senhor Diretas”. Dedicou-se de maneira obstinada à causa do Brasil democrático. Incompreendido, não conseguiu naquele momento alcançar o objetivo que não era somente seu, mas da grande maioria do povo brasileiro.

Lembro-me, também, do dr. Ulysses, nos anos de 1984 e 1985, dando continuidade ao trabalho sério, com desprendimento e espírito público, de redemocratização do Brasil. Naquela época tinha a honra de governar o Ceará e participava de reuniões ao lado de Tancredo Neves, Aureliano Chaves, Ulysses Guimarães, José Sarney, Marco Maciel e tantos outros políticos que representavam o desejo e a esperança da população brasileira. Ulysses e Aureliano eram os dois principais articuladores do movimento que originou a Aliança Democrática, garantindo a eleição do inesquecível Tancredo Neves para presidente da República.

Há, porém, um instante ainda mais alto: o gesto é triunfante; a Constituição cidadã está erguida, À frente do povo, como o ostensório sagrado da liberdade duramente conquistada, aberta ao culto da cidadania. Eletrizam-se os corações. Hierático, qual o oficiante de sagrados mistérios, tocado, quem sabe, pelas lembranças amargas da longa travessia, constrói um monumento de emoção à memória dos companheiros tombados pelo caminho.

Mais recentemente, ouvi do nobre deputado Luís Eduardo Magalhães, no plenário da Câmara, uma frase que bem sintetiza a personalidade do político que Rio Claro deu ao Brasil: “A única unanimidade desta Casa é o dr. Ulysses Guimarães”.

Eis, pois, Ulysses Guimarães: já na História, mas não ainda história. É um monumento vivo entre nós, não do passado, das coisas feitas. É, antes, a vanguarda de nossos sonhos de Brasil maior, que temos de construir.

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Gonzaga Mota, ex-governador do Ceará, é deputado pelo PMDB.         

Segue abaixo o fac-símile da resposta carinhosa do Dr. Ulysses Guimarães ao autor do artigo, Prof. Gonzaga Mota, ex- governador do Ceará e ex- deputado federal.

Um comentário em “Momentos da História Política Brasileira.

  • 19 de abril de 2019 em 12:30
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    meus parabéns aos editores pela relevância da matéria aqui posta, muita esclarecedora . Parabéns

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