Mais da metade da população brasileira ainda não tem cobertura de esgoto

Ainda há um longo caminho a percorrer para a conquista da universalização dos serviços de saneamento básico. Não estamos parados, mas caminhamos muito devagar. Esta foi a afirmação do professor doutor Fábio Campos, biólogo com mestrado em Engenharia Sanitária pela Escola Politécnica da USP e doutorado em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP, na palestra “Poluição das Águas – Um panorama da Situação Atual Brasileira”, ministrada no dia 22 de março, Dia Mundial da Água, na sede da Abrafiltros – Associação Brasileira das Empresas de Filtros e seus Sistemas – Automotivos e Industriais, em Santo André/SP.
Ele destacou a falta de investimentos do Brasil em saneamento e tratamento de esgoto, colocando em risco a qualidade da água dos rios. O presidente da Abrafiltros, João Moura, considerou o tema muito oportuno e altamente importante, pois a água é um recurso natural que não pode ser desperdiçado e com o evento a associação chama a atenção para a preservação e o cuidado com este bem tão precioso da humanidade.
Na apresentação, Campos alertou que, apesar de a água ser um recurso natural renovável, precisa ser cuidada já que é finita. Há 1,4 bilhão de km³ de água na Terra, mas apenas 132 mil km³ disponíveis em água superficial, enquanto a população só cresce.
A América do Sul conta com 25% da água mundial e 6% da população. Privilegiado, o Brasil tem 12% de toda a água doce disponível no mundo. Quase 70% estão localizadas na Região Norte; 15,7% na Centro-Oeste; 6,5% na Sul; 6% na Sudeste e pouco mais de 3% na Nordeste. “O que adianta ter 12% de água se não sabemos o que fazer?”, disse. Sem falar na cobertura de esgoto. A média no Brasil é de 49,8% da população e deste percentual coletado, somente 40,8% é tratado.
De acordo com o biólogo, não há estações de tratamento de água e esgoto suficientes no Brasil. “Faltam investimentos. Segundo estudos, para a universalização do saneamento é preciso investir cerca de R$ 303 bilhões em 20 anos”, afirmou.
Segundo dados divulgados em 2015 pelo SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, só as capitais lançaram 1,2 bilhão de m³ de esgoto sanitário na natureza em 2013.
“O saneamento não pode ficar restrito a interesses políticos e pesquisas desenvolvidas na academia. Embora o tratamento de esgoto não renda votos, este cenário precisa ser modificado”, alertou o professor, acrescentando que o volume de perda de água é grande, devido principalmente, a uma infraestrutura antiga e a precária manutenção na rede.
Ele explicou que o descaso com o saneamento traz sérias consequências, sendo a mais sensível, a morte da vida aquática devido a introdução de grandes cargas de matéria orgânica que ocasionam a escassez de oxigênio, em função do favorecimento e a proliferação de bactérias.
Inicialmente, as bactérias aeróbias levam ao esgotamento de oxigênio dissolvido e dão lugar às bactérias anaeróbias, que liberam gases como metano, sulfídrico e resultam na coloração escura da água, características de um rio morto.
“Graves problemas de saúde são causados por toxinas liberadas por cianobactérias – microcistinas – às quais proliferam além do normal em função da eutrofização, excesso de nutrientes tóxicos resultantes do lançamento in natura de esgoto”, adverte.
Campos falou também sobre a situação do esgotamento sanitário e tratamento de esgoto nas grandes bacias hidrográficas. Na Bacia Amazônica, apenas 9,7% de domicílios são ligados à rede de esgoto; na Bacia Tocantins-Araguaia, 18% do esgoto é coletado e 6% tratado; na Bacia do São Francisco, com a transposição vai receber mais 57% de esgoto; na Bacia Paraná, onde há 1/3 da população brasileira, o IQA (Índice de Qualidade da Água) é péssimo em 61% dos pontos monitorados (891 pontos).
Para ele, a experiência mundial demonstra haver dois caminhos para solucionar a situação do saneamento: “privatização ou reestatização, sendo que no cenário brasileiro, talvez o exemplo chileno de estatização esteja mais próximo da nossa realidade”.
O evento fez parte do Ciclo de Palestras Abrafiltros 2018, que em 19 de abril abordará o tema “Gestão de Negócios: Inovação com competência”, e contará com a presença do Prof. Dr. Cesar Akira, Coordenador de Pós-Graduação em Negócios – IBMEC São Paulo.

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