Maçonaria no Ceará

 Instituição Milenar que despontou  na Província no século XVIII

O Senador Alencar foi o primeiro cearense a desfraldar a bandeira da República no município do Crato e a instalar uma Loja Maçônica em Fortaleza – Obreiros de Lojas Maçônicas enviam mensagem de socorro a D. Pedro II em prol das vítimas das secas de 1877 a 1880 – O Ceará liberta seus escravos antes da Princesa Isabel – Jornalista  Adísia Sá é homenageada pela Grande Loja Maçônica do Ceará.

Casa de Bárbara de Alencar de três portas (Crato)

Por Zelito Magalhães

Pelos idos de 1816, a Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção ostentava uma fisionomia bastante acanhada. Ainda não existia o alinhamento urbano e a cidade era esquadrinhada por meia dúzia de ruas, tendo que a principal artéria, indo do norte a sul, não passava da Lagoa do Garrote (atual Parque da Liberdade). Era a Rua dos Mercadores que margeando o Riacho Pajeú, hoje se divide em três, com denominações que homenageiam o primeiro maestro cearense Alberto Nepomuceno, o Sena Madureira e Conde d’Eu que se tornou príncipe no Brasil por casamento com a Princesa Isabel.

O começo com os Alencar
Quando deflagrou-se a 6 de março a Revolução Pernambucana de 1817, que também ficou conhecida como Revolução dos Padres, encabeçava a imensa lista de revoltosos o diácono José Martiniano Pereira de Alencar.(que seria mais tarde o pai do romancista autor do romance “Iracema”). Alencar regressou ao Crato em 29 de abril e a 3 de maio, apoiado pela mãe Bárbara e os irmãos Carlos José dos Santos (padre) e Tristão Gonçalves, leu no adro da Igreja Matriz a mensagem que trouxera do Recife – a independência pernambucana.
“Logo a 11 de maio – escreve o historiador Marcelo Caracas Linhares (in História da Maçonaria – Editora A Trolha – SP, 1992 – o capitão-mor José Pereira Filgueiras, à frente de forças suficientes, invadiu Crato, cercando a Câmara e hasteando novamente a bandeira da monarquia, prendeu os republicanos que lá se achavam, inclusive José Martiniano, seus irmãos Tristão e o padre Carlos José, no total de 21 pessoas”.

Presidente da Província
Voltando Martiniano de Alencar às lides políticas, em 1821 foi eleito suplente de deputado à Constituinte Portuguesa e empossado a 10 de maio de 1822. Dez anos mais tarde se elege Senador. Em pleno exercício do mandato, foi nomeado Presidente da Província do Ceará pela Corte Imperial de 23 de agosto de 1834. Logo nos primeiros meses de sua administração, Alencar dotou prioritariamente a cidade de um reservatório d’água canalizado do Riacho Pajeú; estimulou a abertura de poços e cacimbas, criou a primeira escola normal, não esquecendo “também de uma iluminação a azeite” através de lampiões pendurados nas esquinas do prédios”; incrementou o setor econômico, criando a 7 de setembro de 1835 o Banco da Província do Ceará.
Teve o cuidado de abrir estradas e estender outras vias para dar melhor acesso ao centro urbano. A notícia causou escândalo com a versão espalhada pelos adversários à gente ignara e supersticiosa que “Alencar tinha mandado abrir estradas para que os “pedreiros livros” (maçons) tivessem por onde correr, quando se danassem! E, por isso, andavam os matutos por atalhos e rodeios, em vez de andarem por essas estradas reais”

A primeira Loja Maçônica
Quando cumpria o segundo mandato de Senador do Império, no início de 1834 Alencar veio ao Ceará em companhia de outro “pedreiro” (maçom) o padre Diogo Feijó e aqui fundaram a primeira Loja Maçônica – União e Beneficência. A Loja instalou-se num sobradinho do maçom Manuel Caetano de Gouveia que ficava na rua Boa Vista, hoje Floriano Peixoto. O jornal Cearense Jacaúna, também de propriedade de Manuel Caetano, em edição de 2 de julho, assim reportou-se sobre uma daquelas sessões maçônicas:
“O dia 24 de Junho é festival para a mor parte dos habitantes do velho e novo mundo para a Maçonaria é um dos mais faustosos nos seus anais, que o soleniza ou com atos de regosijo ou de beneficência. A sociedade – União Beneficência querendo solenizar este dia por um modo mais duradouro, que resultasse em benefício de alguma pewssoa digna dela,
resolveu fazê-lo por um ato de beneficência, promovendo entre os sócios que se reuniram, uma subscrição voluntária que produziu 90$000 réis a favor da filha do Precursor da Liberdade da sua Pátria e Mártir dela, O Padre João Ribeiro Pessoa de saudosa memória”
João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, vigário de Santo Antônio do Recife, foi protomártir da Revolução Republicana de 1817. “Vendo que havia fracassado todo o plano após os primeiros triunfos, suicidou-se a fim de não revelar o que sabia sobre a revolução e seus principais mentores”.

A Maçonaria e as secas
Mal entrou o ano de 1877, já havia a população prenunciado a seca que lavraria no Nordeste, especialmente no Ceará, com efeitos catastróficos. Na cidade de Fortaleza, em doze meses, sepultaram-se nos cemitérios de São João Batista e da Lagoa 124 mil corpos, vítimas de doenças, como a febre biliosa, o beri-beri, a anasarca, a varíola, a desinteria e de outras em consequência da fome. “A hecatombe principiou com a fome e terminaria com a peste”, assim descreveu Rodolfo Teófilo.
A Maçonaria, na sua grandiosa obra de fraternidade, não ficaria omissa à dramática situação da gente condenada à morte pela fome. Assim é que os obreiros da Loja Fraternidade Cearense mobilizaram-se em busca urgente de soluções. Em 20 de abril de 1877, foi encaminhada uma prancha (ofício) ao
Grande Oriente (Maçônico) do Brasil em que diziam: “A Loja resolveu em sessão de hoje pedir, por vosso intermédio, o valiosíssimo auxilio dos Grandes |Orientes brasileiros e das lojas sob a sua dependência para as classes pobres da província do Ceará, a braços com o flagelo da fome”.A seca perdurou até 1880.

Repercussão nacional
A notícia da devastadora seca espalhou-se por todos os recantos brasileiros como um rastilho de pólvora. D. Pedro II, recém-chegado de uma excursão à Europa, mostrou-se emocionado com as proporções da calamidade. Ao Imperador foi atribuída a frase alentadora: “Vendam-se, se necessário, os últimos brilhantes da Coroa, contanto que nenhum cearense morra de fome”
Sensibilizados com o quadro de miséria, João Cordeiro, como Comissário Geral de Abastecimento, ao lado de seus dez companheiros, entre estes João Carlos da Silva Jataí, deram tudo de si aos desabrigados e famintos. Ora movimentavam-se na Feira Nova (Praça do Ferreira) ora na da Estação, ora na da Sé. Iam com mais frequência ao Mucuripe, onde se concentrava a maior leva daqueles seres humanos entregues à caridade pública.

Abolicionismo
Não haveria o cearense de contentar-se com a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que se limitava proibir a entrada de escravos no Brasil. Mais do que isso, ansiava pela sua liberdade. A sociedade cearense não cessava de aplaudir o gesto nobilitante dos maçons (chamados “filhos da viúva”) que alforriavam seus escravos em sessões abertas ao público. O jornalista-maçom João Brígido foi o esteta da crônica que descreve a vida social da Fortaleza de antanho. Ei-lo numa de suas descrições: “A Loja Maçônica Fraternidade Cearense, onde estava alistada a opulência da Cidade, nas suas festas alforriava a bom preço levas inteiras de cativos”.

Perseverança e Porvir”
Revoltados com aquele cenário que dilacerava mais ainda o coração de um povo humilde e bom, os adeptos da Maçonaria deram-se as mãos numa verdadeira cruzada de solidariedade humana. Encorajado, um grupo de moços comerciantes resolveu fundar uma sociedade cooperativa cujos lucros auferidos
Reverteriam em favar das alforrias. Assim, eis que no dia 28 de setembro de (comemorativo ao oitavo aniversário da Lei do Ventre Livre) na casa de nº 100 da rua Formosa (hoje Barão do Rio Branco) instalava-se a sociedade “Perseverança e Porvir” assim constituída: Presidente – José Correia do Amaral, Vice-Presidente – José Theodorico de Castro, Tesoureiro – Joaquim José d’Oliveira Filho, Secretário – Alfredo Salgado e Diretores – Antonio Cruz Saldanha, José Barros da Silva, Antonio Dias Martins Júnior, Manoel Albano Filho e Francisco Florêncio de Araújo.
Com o intuito de dar maior dimensão ao movimento, a diretoria da Perseverança abriu as portas às damas reconhecidamente admiradoras da propaganda abolicionista. Assim, puderam contar com o concurso de mulheres da estirpe de Júlia Amaral, Maria do Rego, e Virginia da Rocha Salgado (mãe do ardoroso abolicionista Alfredo Salgado, além de Elvira Pinho e a sobralense Maria Tomásia.

Cearense Libertadora
Naquela efervescência libertária era fundada em 8 de dezembro de 1880 a Sociedade Cearense Libertadora também constituída de maçons. Presidente – João Cordeiro, 1º Vice-Presidente – José Correia do Amaral, 2º Vice-Presidente – Dr. Frederico Borges, lº Secretário – Antônio Bezerra de Menezes, 2º Secretário – Antônio Dias Martins, e Tesoureiro – José Theodorico de Castro. Os nomes de José do Patrocínio e Antonio da Rosa Oliveira comporam a lista de sócios beneméritos da sociedade.
Eram as Lojas maçônicas Fraternidade, Igualdade e Caridade as promotoras das festas cujos representantes em parceria com as simpáticas damas, promoviam exitosamente os saraus e banquetes. O Passeio Público servia de palco, quando o tenente Álfredo Weyne, gorro à mão, gritava os leilões de interessantes trabalhos de manufaturação que saiam das mãos das arrojadas senhoras. Tudo era bem-vindo em termos de prendas. Tudo que gerasse arrecadação. Os negros agradeciam.

Libertação dos escravos
Quando o maçom-abolicionista José do Patrocínio desembarcou no Cais do Porto, na manhã de 30 de novembro de 1882 a bordo do navio “Ceará”, foi recebido pela gente da Cearense Libertadora. Recorda Elvira Pinho: “Quando ele pulou na ponte, um escravo o beijou e nós lhe cobrimos cabeça de rosas, o que havia de melhor nos jardins da cidade. Chamaram-lhe de Marechal Negro. Lembro-me do seu encontro com Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento)… “Então, companheiro, o porto está mesmo bloqueado?” Nascimento respondeu com firmeza: “Não há força neste mundo que o faça reabrir ao tráfico negreiro”.(Edmar Morel em O Jangadeiro da Abolição)
Fortaleza, a cidadezinha de 30 mil habitantes amanhecera engalanada. O historiador Raimundo assim descreve: “Eis que surge o dia 25, anunciado pelas salvas da fortaleza e as trombetas e tiros do 11º Batalhão e da Força Policial, esplêndida manhã de sorrisos, prateada de sol, movimentada de bandeiras e flores, como um domingo de ramos para a passagem do |Messias”
Primeiro, dão entrada, na majestade das suas púrpuras, o Arcebispo D. Luis dos Santos e o Bispo D. Joaquim, .que foram recebidos com saudações calorosas
Abre a sessão o Presidente da Província Sátiro Dias, maçom, que é aclamado sócio benemérito da Libertadora, e que no término de seu discurso, convida os assistentes a levantarem-se para ouvir a declaração imorredoira de Pedro Artur: ‘A PROVÍNCIA DO CEARÁ NÃO POSSUI MAIS ESCRAVOS.
Sem o 25 de Março de 1884 – quando um punhado de maçons liberta os escravos no Ceará – tão cedo não teria havido o 13 de Maio de 1888 da Princesa Isabel, a Redentora, que assinou a Lei Áurea no Brasil.
“Vencidas as batalhas, ultrapassados os obstáculos postos à sua frente, eis a Maçonaria viva, pujante e gloriosa, com certeza uma das últimas cidadelas das virtudes desafiadoras da Humanidade e de cada um: Liberdade – no âmago dos espíritos e nas ações sociais; Igualdade – no simbolismo dos ladrilhos preto/branco, sem barreiras e diferenças; Fraternidade – na união dos sentimentos e dos atos em prol de uma sociedade justa, única, absoluta – Muito obrigada” (Excerto do discurso proferido pela jornalista Adísia Sá, em que foi homenageada com a comenda Dragão do Mar pela Loja Maçônica Portal da Luz nº 122, em 29 de abril de 2005. Foi saudada pelo colega de profissão Zelito Magalhães).

 

 

Um comentário em “Maçonaria no Ceará

  • 4 de janeiro de 2017 em 19:05
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    A maçonaria foi suma importância para o desenvolvimento não só do mundo, mas também do Brasil, como brilhantemente reportou o ilustre historiador e jornalista Zelito Magalhães aflorando a mente dos leigos e trazendo lembranças aos estudiosos. Parabéns ao Jornal do Comércio do Ceará!

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