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O fogo, a coragem e o coração de Fortaleza

Por Rogério Morais

O relógio da cidade ainda marcava o meio da manhã quando a fumaça começou a subir, espessa, densa, e o cheiro de fogo se espalhou pelas ruas estreitas do Centro. Era 13 de novembro de 2025, um dia comum, até o instante em que o destino pareceu repetir uma velha tragédia. Sessenta e seis anos depois do incêndio na antiga Casa de Saúde Dr. César Cals, o fogo voltou a testar a coragem do povo de Fortaleza.

Os primeiros a correr não vestiam fardas. Eram ambulantes, mototaxistas, feirantes e transeuntes — gente simples, acostumada à luta diária pela sobrevivência. Ao perceberem as chamas, não pensaram em si. Entraram no prédio tomado pela fumaça, quebraram vidros, arrancaram portas, improvisaram macas. E de lá começaram a sair bebês, gestantes, idosos, carregados nos braços da própria população.

A cena parecia um espelho do passado. Em 4 de agosto de 1959, um jovem estudante chamado João Nogueira Jucá havia feito o mesmo: ao ver o hospital em chamas, correu para dentro e resgatou pacientes, até ser atingido pela explosão de um tubo de oxigênio. Morreu dias depois, no Dia do Estudante, mas entrou para a história como o primeiro bombeiro honorário do Ceará — o herói que deu a vida para salvar desconhecidos.

Hoje, seis décadas e seis anos mais tarde, o fogo reacendeu a memória de João. Na praça que leva seu nome, a Praça da Lagoinha, o busto do herói parece olhar novamente para o Centro e testemunhar que Fortaleza continua a mesma em sua essência: solidária, corajosa, feita de gente que não foge ao perigo quando o outro precisa.

Os ambulantes que se jogaram nas chamas não tinham treinamento, nem equipamentos. Tinham apenas instinto humano, o mesmo que moveu João em 1959. Uns molharam panos para cobrir o rosto; outros arrombaram portões. Muitos tossiam, choravam, mas não paravam. Cada vida retirada dali era uma vitória contra o medo, contra a tragédia, contra a indiferença.

Depois, quando os bombeiros chegaram e controlaram o incêndio, o povo que salvou o povo permaneceu por perto, cansado, com a roupa coberta de fuligem, os olhos vermelhos e o coração cheio de algo que nem sabiam nomear — talvez um tipo de fé que nasce do gesto espontâneo de ajudar.

Na Fortaleza de 2025, onde tantas vezes o noticiário é dominado pela violência e pela pressa, o fogo veio lembrar que o que realmente nos define não é o medo, mas a capacidade de reagir com amor. João Nogueira Jucá vive em cada gesto de bravura anônima, em cada mão que se estende, em cada vida que se recusa a assistir de longe.

A história, que parecia repetição, talvez seja, na verdade, continuidade. O herói de ontem renasce nos heróis de hoje — homens e mulheres que não têm nome gravado em bronze, mas que, sob o calor do incêndio, revelaram o que há de mais valioso nesta cidade: o espírito solidário de Fortaleza.

E assim, entre as cinzas, a chama que não se apaga é a da humanidade Cearense: O CEARÁ E ASSIM, MELHOR: É SEMPRE ASSIM!!

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