Opinião

Ler ou não ler: eis a questão

Candice Almeida*

Discutir questões de gênero com Capitu. Elencar direitos humanos com Paulo Honório e Madalena. Questionar-se sobre a união homoafetiva com Riobaldo. Os personagens célebres da literatura incutem valores, despertam a ira, apoderam-se de verdades absolutas e nós, meros espectadores, limitamo-nos a escutar. Eis a vantagem da leitura.

Somos apassivados, mas sujeitos da oração principal. Somos só ouvidos. Naquele momento, apenas ressoam os ecos do filme produzido por nossa consciência. E talvez seja por isso – e nisso – que a leitura nos afeta. Tolerância e justiça, valores pouco ocupados por nossa mente (pois refrigerantes sabor cereja e desinfetantes com cheirinho de limão estão em evidência), ganham papel de destaque.

É com os livros que o caos se assenhora. As maiores pressões da vida – racionalidade e fidelidade – saem do centro das atenções. E, no lugar delas, há um cangaceiro apaixonado por um comparsa, uma escola de bruxos, um bilionário aos pés de uma virgem, a criação do mundo, a convivência atrelada ao inferno.

Os tons de cinza dão vazão ao colorido e ao preto e branco em segundos. O opaco ganha transparência. O inferno são os outros e nós mesmos. Viver pode ser muito mais perigoso. O dia pode ser criado antes do sol. E olhar para trás pode fazer você virar estátua de sal.

Na literatura, ensaia-se a cegueira e inventa-se o Moréu. Nela, há o crime e o castigo, além de um médico que narra a vida de um encarcerado. Só lá o ódio ao filho eterno ganha sentido, e o admirável mundo novo é reinventado a cada dia. Na prosa e na poesia, imortalizam-se Marílias e Dirceus. Nelas, é permitido que uma freira sofra pela perda de seu amante.

A vida é seca e o cachorro é Baleia. O sertão é uma grande vereda. Os círculos do inferno? Uma divina comédia. E a hora máxima da estrela, seu atropelamento. Choramos mais com Clarices do que com Marias. Até o bêbado se equilibra. A urgência da vigia à vida, tão normalizada pela rede social, fica em último plano. A leitura emociona, alegra. E um dia feliz tem mais poder que um sofrimento de vida inteira.

Nem Disney, nem Louvre. Prefiro os livros. É neles que aquela se torna cultura e este, ponto turístico.

Dom Casmurro? São Bernardo? Não. Quero o conjunto da obra. Fico com o filme que eu invento. Ler é realmente muito perigoso.

 

*Candice Almeida é professora de Redação do Colégio Positivo e assessora pedagógica de Redação no Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento (CIPP) dos colégios da Rede Positivo.

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