HISTÓRIA DE LOBISOMEM

Chagas Cunha
Ergueu o copo á altura da boca, derreou o congote para trás e despejou o líquido ardente goela a baixo. Depois, enquanto soprava os vapores num assobio mudo, limpou os beiços com a costa da mão e deitou um olhar turvo e atravessado sobre o mestre, esperando a resposta. “Só lhe digo uma coisa”, asseverou, batendo o fundo copo no balcão, “eu não acredito”.
O caboclo não era um freguês recente. Gozava de certa intimidade do velho bodegueiro, que ia da compra de fiado à tomada de algum trocado a juros. Um quebra-galho valioso naqueles cafundós de miséria. Chegava mesmo a considerar-se amigo, embora não se confirmasse nunca uma relação amistosa, desinteressada e segura. A bodega de esquina era uma parada quase obrigatória durante aquelas viagens. Ali, descansava o burro sob o alpendre, tomava uns tragos e trocava um “dedim” de prosa, antes de seguir seu itinerário. Mas ultimamente andava cabreiro, especialmente quando anoitecia. Diziam-lhe que, na lua cheia, era perigoso andar nas estradas. Tinha bicho solto perseguindo vivente. Porque diabos esses troços de outro mundo tinham de atanazar o sossego dos outros? Ora, ora, tinha cabimento?
Não, isso é conversa de gente besta.
É verdade que uma noite, quando mal acabara de passar por um arraial, cruzou com uma matilha de cães agitados sem perseguição aparente e o burro ficou ronceiro como se estivesse peado. Teve de esperar a cachorrada desaparecer longe para retomar viagem. Mas lobisomem? Em plena era do rádio e de luz elétrica? Será, meu Deus, que existe ainda quem acredita nisso? Se a gente acreditar em tudo que o povo diz…
Foi aí que resolvera auscultar a opinião do mestre. Afinal, o dono da bodega era homem de idade, tinha experiência. Certamente tinha algo importante a dizer. Mas o velho era trancado, mal falava. O tempo inteiro mascando um pedaço de fumo. Quando muito, rosnava qualquer coisa antes de dar uma cusparada. Depois voltava ao seu mutismo débil ou, talvez, sábio.
Do outro lado do balcão, um homem nu da cintura para cima tinha como hábito uma calça escura de linho, cinto e alpercatas de couro e chapéu de feltro. Embora a idade fosse avançada, aparentava musculatura rígida, densamente coberta de pelos esbranquiçados, não só na frente como nas costas, nas orelhas, nas sobrancelhas, nas mãos. O mestre, como era chamado, guardava também uma marca sombria, visível apenas para os conterrâneos mais antigos: a má fama de ex-virador de lobisomem. Mas, ninguém, absolutamente ninguém jamais tivera a ousadia de tocar no assunto.
Agora, vem esse “sujeitim”. Quê que ele tinha de vir lhe provocar com aquele descabimento? Quê estaria querendo insinuar? Pelo que lhe constava, sempre o tratou bem, ganhando até confiança e crédito. Porque não bebe sua cachaça, desapeia seu burro e segue seu caminho?
O mestre abriu a portinhola do balcão, foi até o alpendre, olhou o tempo, deu uma cuspida, jogando a baga de fumo no terreiro. “Cumpade, cê quer saber de uma coisa?” Voltou ao seu posto atrás do balcão. “Faça uma experiência”, disse convicto, sem se preocupar com a curiosidade do caboclo.
“Como”, reagiu confuso o indigesto freguês. “O senhor pensa que eu tenho medo?”, insistiu na ousadia.
“Quando der meia noite de lua cheia”, continuou o bodegueiro sem se sentir interrompido, “cê vá até uma encruzilhada deserta, tire a roupa e se espoje no chão como um bruto. Depois, veja o que acontece”.
A princípio, o caboclo achou que fosse mais uma afronta do velho do que propriamente uma opinião sincera. De todo o caso, aceitou o conselho, não queria faltar com a palavra. Pagou sua despesa e despediu-se.
Era, justamente, época de lua cheia. Quando a meia-noite desceu sobre a estrada, escolheu um ermo, saltou do burro e amarrou-o num toco, em pleno descampado. Procurou uma encruzilhada e procedeu conforme a orientação do mestre. Tirou a roupa, escondeu-a sob uma moita e espojou-se na areia úmida sob a luz prateada.
Quando abriu os olhos, deparou-se com um molecote escuro com menos de um metro de altura, segurando um chicote. “Agora, fica de quatro”, ordenou o moleque cheio de autoridade.
Obedeceu. Claro, naquele momento, sentiu-se incapaz de reagir. Nesse ponto, o moleque saltou-lhe sobre o lombo e disse “vamos correr, que a noite é curta e breve”. E desceu-lhe o chicote nos quartos, enquanto lhe esporava as costelas.
No começo, ele saiu pinoteando como um potro selvagem, mas aos poucos foi se aprumando, amaciando o galope. Nessa arrumação, percorreram povoados, subiram e desceram morros, espantaram gente, atiçando latido de cães por onde passava. Já exausto, sentia-se muito cansado, um palmo de língua de fora, os membros estropiados. Mas, não conseguia parar, nem desobedecer ao cavaleiro.
E tome chão, e tome espora, e tome chicote.
Quando finalmente o sol despertou sobre o horizonte, o ”negrim” travou os flancos de sua montaria, saltou no chão e disse “agora, trate de encontrar sua roupa e se vestir”, e deulhe uma última chicotada nas ancas. Depois, sumiu.
O amontado se levantou com dificuldade, bateu a terra do corpo, lembrou-se da moita, do burro que, por sorte, não demorou encontrar.
Com a língua e a garganta seca, sentiu vontade de tomar um trago, mas jurou de si para si que, daquele dia em diante, nunca mais tomaria trago naquela bodega, e muito menos esticaria conversa com o bodegueiro.
“É, no mundo tem de tudo. Esse velho é um capeta”.
