Economia

Dólar volátil: é hora de investir no exterior ou rever a estratégia?

Especialista alerta que decisões de investimento internacional precisam levar em conta tributação e objetivos de longo prazo

A trajetória recente do dólar frente ao real voltou ao centro das atenções de investidores, empresas e famílias com patrimônio exposto ao exterior. Depois de recuar em fevereiro, a moeda americana passou a oscilar novamente em meio à recomposição global de aversão a risco, ao avanço das tensões geopolíticas no Oriente Médio, à alta do petróleo e à reavaliação, pelos mercados, do ritmo de flexibilização monetária nos Estados Unidos. Esse ambiente reforçou a volatilidade cambial e mostrou que o câmbio continua sendo uma variável central na estratégia patrimonial e tributária de quem investe internacionalmente.

As oscilações do dólar não decorrem apenas de fatores domésticos. Elas refletem, sobretudo, a combinação entre política monetária americana, fluxo global de capitais, percepção de risco sobre mercados emergentes e eventos geopolíticos que alteram a demanda por ativos considerados defensivos. Para o investidor brasileiro, isso significa que a exposição internacional precisa ser analisada não apenas sob a ótica da rentabilidade em moeda estrangeira, mas também do impacto da conversão para reais, da liquidez e do tratamento fiscal aplicável no Brasil.

Para André Peniche, advogado tributarista e especialista em investimentos internacionais, o câmbio não pode ser tratado como mero detalhe operacional. “Quando o dólar recua, o custo de entrada para investir no exterior pode ficar mais eficiente para o brasileiro. Por outro lado, quem já possui ativos dolarizados pode ver o valor do patrimônio encolher em reais, ainda que os ativos tenham performado bem lá fora. Por isso, o câmbio precisa ser analisado em conjunto com a tributação, com a origem dos recursos, com o objetivo patrimonial e com a estratégia de longo prazo do investidor”, afirma.

Além do efeito econômico, a variação cambial tem relevância jurídica e tributária. Desde a Lei nº 14.754/2023, o Brasil passou a adotar regras mais específicas para a tributação de aplicações financeiras, entidades controladas e estruturas patrimoniais no exterior, incluindo alíquota de 15% para determinados rendimentos de aplicações financeiras mantidas fora do país por pessoas físicas residentes no Brasil e disciplina expressa para offshore e trust. Isso tornou ainda mais importante o correto enquadramento de cada ativo, rendimento e operação de remessa ou internalização de recursos.

Nesse contexto, momentos de dólar mais baixo podem, sim, favorecer movimentos estratégicos de internacionalização patrimonial, sucessão e diversificação geográfica de investimentos. A vantagem, porém, não está apenas na cotação mais barata da moeda, mas na possibilidade de estruturar a exposição internacional com mais racionalidade econômica e melhor organização documental. Remeter recursos ao exterior sem planejamento, ou internalizá-los sem comprovação adequada de origem, custo histórico e natureza tributária, pode gerar inconsistências relevantes perante o Fisco.

Segundo Peniche, o principal erro do investidor é decidir com base exclusiva no câmbio do dia. “Dólar mais baixo pode representar uma janela interessante para reorganizar a carteira, ampliar a diversificação internacional ou até antecipar estruturas sucessórias, mas isso não autoriza decisões impulsivas. O investidor precisa avaliar qual ativo pretende adquirir, qual será o regime tributário aplicável, como esse patrimônio será declarado no Brasil e se a estrutura escolhida continua eficiente mesmo num cenário de reversão cambial”, explica.

No ambiente corporativo, a volatilidade do dólar também produz efeitos relevantes. Empresas exportadoras, importadoras ou com passivos e receitas indexados a moeda estrangeira precisam revisar margens, fluxo de caixa, política de hedge e exposição contratual. Em momentos de maior instabilidade externa, a gestão cambial deixa de ser apenas financeira e passa a ser também uma ferramenta de governança, compliance e proteção patrimonial.

Para Peniche, o cenário atual exige menos aposta e mais arquitetura patrimonial. “A volatilidade cambial de 2026 mostra que investir no exterior não é apenas comprar dólar ou abrir conta fora. É construir uma posição internacional juridicamente consistente, fiscalmente regular e patrimonialmente inteligente. Quem enxerga o câmbio de forma isolada reage ao mercado; quem enxerga o conjunto consegue usar o mercado a seu favor”, conclui.

Sobre André Peniche

André Peniche, com mais de 20 anos de experiência no mercado, é sócio-fundador da Murta Peniche Sociedade de Advogados, liderando as áreas de planejamento tributário e investimentos. Com passagens por grandes instituições financeiras e empresas, André se destaca pela sua expertise em otimização fiscal e pela atuação no mercado global, com foco em investimentos internacionais e expansão de negócios. Além disso, é Introducing Broker e Money Manager para o Swissquote Bank, oferecendo soluções inovadoras no setor financeiro.

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