Cego Aderaldo, Violeiro do Nordeste…
• Aderaldo Ferreira de Araújo emigra com a mãe para o município de Quixadá
• A cegueira na Terra dos Monólitos • O conhecimento com Rogaciano Leite
• O I Congresso de Cantadores em Fortaleza • O Movie-Cinema • Presente de Lampião
• Os filhos adotivos “Eu sou o Cego Aderaldo” • O bodegueiro na “Rua da Bomba”
• A morte do rapsodo do sertão • Uma estátua ao Cego em Quixadá
Texto/fotos – Zelito Magalhães
Com o falecimento de seu pai, o alfaiate Joaquim Rufino de Araújo, norte-riograndense, a mãe Maria Olímpia de Araújo, emigrou com Aderaldo para o município de Quixadá, onde morava uma irmã. Com a idade de 14 anos, Aderaldo arranjou emprego numa fábrica de beneficiar algodão. Já aos 18 anos, perdeu a visão quando trabalhava em uma máquina de beneficiamento: sentindo sede, foi à sua moringa.”Ao tomar o primeiro gole, senti a vista escurecer e como duas pontadas de alfinete nos olhos” Aderaldo contou a Zelito Magalhães a tragédia, quando este o entrevista para escrever o livro “Aderaldo, Viola… Improviso”.
O Cego Aderaldo travou amizade com o pernambucano Rogaciano Leite em Fortaleza, por volta do pós-guerra de 1945. Diante da união de poetas existente entre os dois, começaram a fazer cantorias na cidade e viajarem pelos interiores cearenses em companhia de Siqueira de Amorim, Granjeiro e Domingos Fonseca e outros.
O I Congresso de Cantadores em Fortaleza. Cego Aderaldo, Rogaciano Leite, Siqueira Amorim, Domingos Fonseca e vários outros cantadores, organizaram no Theatro José de Alencar o primeiro Congresso de Cantadores, em 31 de maio de 1947, que contou com a presença do Desembargador Faustino de Albuquerque, governador do Estado, jornalistas e outros convidados. Mais de 40 cantadores
Certa vez no Crato, Rogaciano Leite e Cego Aderaldo se enfrentaram no Crato. Rogaciano sai na frente do desafio:

Este Aderaldo é tão besta
Além de besta é tão tolo
A sua besteira é tanta
Que come terra e tijolo
Beija a minha palmatória
E dá-me a mão para o bolo.
Aderaldo deu ao comparsa um revide que se fez comemorar pelo público presente:
Eu precisava de um besta
Porém, de um besta capaz
Procurei no mundo um besta
Encontrei este rapaz
Mas não presta pra ser besta
Porque é besta demais.
O Movie-Cinema
O cinema foi a maior das atrações levada por Aderaldo aos sertões. Ele e sua trupe, a partir de 1933, peregrinaram pelos sertões de todo o Nordeste
Levando uma velha câmera Pathé Baby e vários rolos de filmes. Dentre esses, A Paixão de Cristo, A visita do Rei Alberto da Bélgica, A posse de João Pessoa, dentre outros. Enquanto as fitas iam focando num pano branco, Aderaldo ia narrando os episódios das fitas. Conta-se que certa feita, um dos cabras de Lampião que assistiam A Paixão de Cristo, vendo na fita a imagem do Senhor sendo flagelada, disparou dois tiros para o alto com o brado: “Covarde, eu tando aqui não vô deixá meu Pai nosso Sinhô, apanhar dêxe jeito!”
Nos anos 40, Cego Aderaldo veio para Fortaleza, alugando uma casa na “Rua da Bomba”, no bairro Joaquim Távora, que depois
28 filhos de Criação – Cego Aderaldo teve a preocupação de adotar significativo número de 28 jovens, dando-lhes assistência educacional e musical. Chegou a formar pequeno conjunto com figuras que tocavam violino, gaita, acordeon, etc. O Batista, que tivemos a oportunidade de conhecer, fez-se fotógrafo do Instituto de Identificação da Secretaria de Polícia e Segurança Pública. Mário Aderaldo de Brito foi o dependente que ficou a seu lado, como violonista que acompanhava Aderaldo nas suas excursões até ao Sul do País.Mario Brito veio a falecer de problemas cardíacos em 2010.

O falecimento do Cego – Aderaldo sofria de diabetes. Mesmo com a presença dos amigos e sob os cuidados de Mário de Brito e a esposa Nair, ele vinha definhando dia a dia. O general Humberto Ellery, como vice do governador Plácido Aderaldo Castelo, certa manhã daquele ano de 1966, recebeu em seu gabinete governamental à Rua do Rosário (hoje prédio da Academia Cearense de Letras) a visita de Rogaciano Leite em companhia do colega Zelito Magalhães. Cumprimentando aquela autoridade, Rogaciano expôs que o Aderaldo estava necessitando de um leito hospitalar. Ellery, depois de mandar uma secretária fazer consulta sobre o assunto, informou que não seria possível a concessão do leito. Ao que, pondo-se de pé da sua cadeira, disse com suas palavras: General, Cego Aderaldo está morrendo de inanição. Ao lado de Padre Cícero e Lampião, ele representa a legitimidade do folclore e das letras Nordestinas; não é merecedor de um leito hospitalar!.. Dito isso, saímos em direção do Cine São Luiz.onde embarcamos num taxi do Posto 9, em direção da residência de Aderaldo.
Em lá chegando, Rogaciano gritou da soleira da porta:
“ Aderaldo, o general não deu o hospital. Mete a lenha!”
Já bastante raquítico e quase sem voz, o Cego improvisou a quadra:
Disseram que o general
Era bom, pensei que fosse
Peço um leito de hospital
Porém, o homem negou-se.
Não mandou nem um soldado
Pra me trazer um pão-doce.
Aderaldo Ferreira de Araújo faleceu no dia 29 de junho de 1967. No Cemitério São Batista, violeiros, com fitas de crepe, entoaram ao som de violas, o hino dos violeiros.
Uma estátua para Aderaldo
No ano de 1979, o jornalista Zelito Magalhães encetou campanha com o quixadaense e presidente da Associação dos Violeiros do Ceará, Alberto Porfírio, pro erição de uma estátua do Cego Aderaldo em Quixadá. Contaram com contribuições financeiras do prefeito quixadaense, José Baquit – 70 mil reais; Presidência da Associação dos Violeiros do Ceará – 50 mil reais; e Governo do Ceará, com 130 mil. João Bosco do Vale foi o escultor responsável pela obra, que foi inaugurada na manhã do dia 5 de agosto de 1981, na Estação Rodoviária da cidade. O jornalista Zelito Magalhães foi o orador oficial da solenidade, tendo a seu lado Mario de Brito e a esposa Nair. Ao lado, foram colocados objetos do acervo de Aderaldo, como: violino sonoro, óculos escuros, máquina de escrever brailler (para cego) baú de cedro, bengala, jaquetão, pistola “fogo central”, presente de Lampião.
