Beira Mar: Turismo, inclusão e o desafio do ordenamento.
Por Rogério Morais
A Beira Mar de Fortaleza é, sem dúvida, um dos mais importantes cartões-postais da cidade. Com sua orla reformada, novos equipamentos e crescente valorização imobiliária, o espaço se consolida como vitrine turística e ponto de encontro para visitantes e moradores. No entanto, a vitalidade dessa região não se limita apenas à paisagem ou à infraestrutura urbana: ela também reflete a presença de comunidades, trabalhadores informais e instituições sociais que atuam em seu entorno.
É nesse ponto que surge um desafio central para a capital: como equilibrar a vocação turística da BM com a inclusão social daqueles que dela dependem para viver? Iniciativas como o Instituto Povo do Mar (IPOM) mostram que a orla não pode ser compreendida apenas como espaço de lazer e consumo. O IPOM desenvolve projetos de educação, cultura e cidadania para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, oferecendo oportunidades concretas de transformação social.
Ao lado dele, estão a Associação da Feirinha de Artesanato, a Associação de Ambulantes e grupos ligados à saúde, qualidade de vida e lazer de pessoas de todas as idades de Fortaleza, que dão vida ao território e mantêm laços profundos com sua história e identidade. Entre as entidades com foco direto na orla, a AMEBEM (Associação Amigos do Evangelho na Beira-Mar) desempenha papel central no apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecendo refeições diárias, cuidados básicos de saúde e encaminhamento para programas de recuperação contra as drogas. No campo esportivo, a Associação Cearense de Prancha à Vela (ACW) fomenta práticas como o windsurf, enquanto a Associação dos Condomínios da Beira-Mar de Fortaleza (ACBM/CE) reúne moradores e empreendimentos residenciais e comerciais da região, articulando demandas urbanas e de segurança.
Outras instituições atuam de forma indireta, mas com impacto significativo no setor turístico. É o caso da Abih-Ce (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará), da Abrasel no Ceará (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) e da ABAV-CE (Associação Brasileira de Agências de Viagens), que contribuem para qualificar a experiência dos visitantes. Todas elas são parceiras da Casa do Turista, inaugurada em 2022 como espaço de informação e apoio ao visitante, com atendimento bilíngue e serviços como wi-fi gratuito, mapas interativos e orientação sobre passeios e equipamentos culturais.
Ainda na dimensão social, além do Instituto Povo do Mar (IPOM), que atua em comunidades próximas como Serviluz e Caça e Pesca, também exercem influência ao oferecer oportunidades educativas, esportivas e culturais para jovens em situação de vulnerabilidade, temos o caso da Colônia de Pescadores Z-8 do Mucuripe, uma das mais antigas instituições comunitárias de Fortaleza, com mais de 80 anos de atuação, que preserva tradições, organiza a categoria e garante a subsistência de centenas de famílias ligadas à pesca artesanal.
Por fim, a presença histórica das comunidades tradicionais do antigo distrito do Mucuripe — como o Morro do Teixeira, o Conjunto Santa Terezinha e Vicente Pinzón — reforça que a Beira-Mar não é apenas um espaço de consumo turístico, mas também um território de memória, pertencimento e identidade popular.
Ignorar essa dimensão seria reduzir a Beira Mar a um cenário de consumo, afastado da realidade de milhares de cearenses que encontram ali não apenas sustento, mas também espaço de pertencimento. Por outro lado, permitir a desorganização do espaço público pode comprometer a imagem turística e afastar visitantes, prejudicando o próprio desenvolvimento econômico da cidade.
O caminho, portanto, passa pelo ordenamento inteligente e participativo, que não expulse, mas integre. Um modelo que garanta espaço para os trabalhadores informais preserve a identidade cultural e, ao mesmo tempo, assegure qualidade urbana e segurança para turistas e moradores.
A Beira Mar ou “BM”, no linguajar da “rapaziada”, é mais que uma paisagem. É um espaço de encontros, de conflitos e de possibilidades. Cuidar dela exige olhar para além da orla reformada e enxergar o tecido humano e social que a sustenta diariamente. Somente assim Fortaleza poderá consolidar sua orla como patrimônio coletivo: bela, organizada e, sobretudo, inclusiva. Encerrando, lembrar que já publicamos conteúdo sobre o “fim da tancagem” do Mucuripe, promessa do Governador Elmano, quando lembramos que o novo território que receberemos, tenha essa mesma visão.
