Turismo

Beira-Mar entre o turismo e a sobrevivência

Fortaleza vive um dilema no coração turístico da cidade. De um lado, o comércio ambulante garante sustento a milhares de famílias em situação de vulnerabilidade social. Do outro, a ocupação desordenada na “Nova Beira Mar” levanta discussões sobre mobilidade, turismo e preservação dos espaços públicos. Entre a necessidade de renda do turismo e a organização urbana, a capital busca caminhos que conciliem inclusão social e valorização de seu patrimônio histórico e PIB do turismo.

Por Rogério Morais

A Beira-Mar de Fortaleza, cartão-postal da capital cearense e um dos principais pontos turísticos do Nordeste, vai passar por mudanças importantes. A Prefeitura publicou, no último dia 21 de agosto, o Decreto nº 16.457/2025, que suspende por 180 dias novas concessões e renovações de permissões para uso do espaço público e prevê a revogação das autorizações atuais, como parte de um plano de reordenamento urbano.

Segundo a gestão municipal, o objetivo é organizar o uso da orla, garantir segurança aos pedestres e dar mais harmonia urbanística ao espaço que concentra bares, restaurantes, artesãos, feiras de produtos regionais e vendedores ambulantes. “Não há espaço físico para tantas atividades acontecendo ao mesmo tempo”, afirmou o titular da Secretaria Regional 2, Márcio Martins.

Atualmente, mais de 1,7 mil permissionários de diversos segmentos atuam na área. A prefeitura estima que parte das atividades precise ser realocada, seja para outros pontos da orla ou até para diferentes regiões da cidade. Além disso, o decreto proíbe o uso de patinetes, triciclos e motos elétricas no passeio, que será destinado exclusivamente aos pedestres.

Pressão social

O debate em torno do reordenamento, no entanto, vai além da estética e da mobilidade urbana. Fortaleza tem cerca de 300 mil pessoas cadastradas no CadÚnico recebendo Bolsa Família, e muitas delas encontram na informalidade uma forma de complementar a renda. Para essas famílias, a presença na Beira-Mar é mais do que uma escolha comercial: trata-se de uma estratégia de sobrevivência.

Essa realidade não é exclusiva da orla. No Centro de Fortaleza, a presença maciça de ambulantes ao longo das principais ruas e praças é tema constante de debate. De um lado, trabalhadores informais sustentam suas famílias com o comércio popular; de outro, comerciantes formais e consumidores apontam problemas como a dificuldade de circulação, poluição visual e insegurança.

Turismo em foco

Especialistas em turismo defendem que a reorganização da Beira-Mar é fundamental para valorizar a imagem da cidade. Para eles, a desordem no espaço público compromete a experiência dos visitantes e pode reduzir a competitividade de Fortaleza frente a outros destinos.

Urbanistas e sociólogos, no entanto, lembram que a medida precisa equilibrar dois pontos: a preservação da orla como vitrine turística e a inclusão social dos trabalhadores informais. Sem alternativas de realocação ou programas de apoio, a reorganização pode gerar impactos sociais relevantes, repetindo conflitos já vividos no Centro.

Próximos passos

O trabalho de campo da Prefeitura começa neste setembro, quando equipes de diferentes secretarias vão mapear e recadastrar os permissionários setor por setor. Cada trabalhador será notificado individualmente e terá direito a defesa no prazo de 10 dias. A fiscalização ficará a cargo da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis).

O prazo inicial para conclusão do reordenamento é fevereiro de 2026, mas pode ser prorrogado por mais 180 dias. Até lá, segue em aberto o desafio de conciliar interesse público, turismo e justiça social no espaço mais simbólico da capital: A Beira-Mar (BM).

A BM é, hoje, o maior cartão-postal de Fortaleza, palco de investimentos públicos, hotéis de alto padrão e intenso fluxo turístico. No entanto, a expansão desordenada do comércio ambulante levanta preocupações sobre a possibilidade de a região se transformar em um grande corredor popular, nos moldes da Rua 25 de Março em São Paulo, ou no “Saara”, do Rio de Janeiro

Embora a comparação evidencie a vitalidade econômica e a capacidade de atração popular do comércio informal, especialistas ponderam que há diferenças fundamentais entre os dois cenários. Enquanto a 25 de Março consolidou-se como um polo atacadista e de varejo popular no coração da maior metrópole do país, a BM é um espaço de turismo internacional, cuja vocação principal é valorizar a paisagem natural, a gastronomia, o artesanato qualificado e a experiência cultural da orla marítima.

Impactos para os permissionários

Cenário Positivo

  1. Regularização: quem permanecer terá sua atividade legalizada e com mais segurança jurídica.
  1. Valorização do espaço: menos concorrência desordenada pode significar mais clientes para os que ficarem.
  2. Ambiente mais seguro: retirada de patinetes, triciclos e instalações precárias reduz riscos de acidentes/incêndios.
  3. Diálogo com a gestão: possibilidade de realocação negociada em outros pontos turísticos da cidade.

Cenário Negativo

  1. Perda de sustento: permissionários que não se adequarem podem perder a fonte de renda.
  1. Custos adicionais: realocação pode exigir adaptação, transporte ou mudança de público-alvo.
  2. Insegurança no processo: ausência de transparência pode gerar sensação de injustiça.
  3. Dependência do turismo: se forem deslocados para locais de menor fluxo, a renda pode cair drasticamente.

Cenário Neutro

  1. Parte dos permissionários é mantida na orla, mas em pontos diferentes, sem grandes ganhos ou perdas imediatas.
  1. A reorganização se torna mais administrativa do que prática, sem alterar muito o volume de vendas.

Impactos para o turismo

Cenário Positivo

  1. Maior conforto para o pedestre: passeios livres de patinetes e equipamentos perigosos.
  1. Melhoria estética: quiosques e serviços mais organizados dão imagem de modernidade e ordem.
  2. Atração de visitantes: turistas podem se sentir mais seguros, favorecendo o turismo familiar e de idosos.
  3. Eventos e cultura: áreas liberadas podem ser aproveitadas para programações culturais e esportivas.

Cenário Negativo

  1. Menos opções: se muitos permissionários forem removidos, pode reduzir a diversidade de produtos e serviços.
  1. Aumento de preços: menos concorrência pode encarecer comidas, artesanatos e serviços na orla.
  2. Clima de instabilidade: protestos ou insatisfações de trabalhadores podem afetar a imagem turística.
  3. Possível descaracterização: se o ordenamento for rígido demais, a Beira-Mar pode perder parte de sua identidade popular.

Cenário Neutro

  1. Turistas notam alguma melhoria na circulação, mas sem perceber grandes mudanças nos serviços.
  1. A orla mantém sua atratividade, mas sem ganhos expressivos de experiência turística.

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