Opinião

A seleção natural e política

*Por Guto Araújo

A diversidade de ecossistemas e as condições ambientais fazem com que os animais desenvolvam mecanismos de adaptação para garantir a sobrevivência das espécies, seja para alimentação, proteção contra predadores ou reprodução. Esse foi o lampejo da aula de biologia que minha filha colocou na roda de conversa depois de um banho gelado de cachoeira nas montanhas de Minas Gerais. O motivo, uma espécie de borboleta que finge ser outra, a espécie conhecida como Monarca é menos caçada por predadores por ser tóxica. Já a Vice-rei, cópia de suas cópias não possui esse veneno, mas ganha sua proteção na semelhança física, um exemplo clássico de mimetismo.

Voltar das miniférias essa semana e entrar novamente no ecossistema pouco natural da maior metrópole do país, foi também voltar a respirar as toxicidades criadas pelo maior predador do planeta, o ser humano. A tributação de 50% sobre as importações brasileiras impostas por Trump, na prática não parece ser boa para nenhum setor da economia brasileira. Mas a política, assim como a natureza, tem o poder de produzir mecanismos que servem a objetivos de preservação de posicionamentos muito específicos no jogo da sobrevivência. O estilo do presidente norte-americano não parece se assemelhar ao delicado mimetismo das borboletas, a estes se assemelham a outros perfis, que se sentam às mesas fora do expediente e criam clones à sua imagem e semelhança.

Trump é mais para o que se denomina a biologia do Aposematismo, os animais geralmente peçonhentos que se destacam especialmente no ambiente em que vivem por possuírem padrões inconfundíveis de núcleos fortes e grafismos excêntricos, como por exemplo a cobra Coral. No cenário atual, a política deixou de ser apenas uma disputa de ideias e passou a ser sobretudo, uma disputa de narrativas. O discurso “antissistema” utilizado pelas correntes de direita hoje é muito semelhante ao discurso utilizado quando a esquerda era oposição. A diferença está na estética e na diegese contemporânea, assim como no uso da velocidade das redes e das potentes ferramentas digitais. Ampliando o espectro um pouco mais, são comuns também aqueles que se assemelham mais ao estilo Camuflagem, assim classificados por serem os que se misturam ao ambiente em que vivem, seja na cor ou no formato. Dessa maneira, tanto se escondem para defesa como para ataque e só são percebidos quando há uma ação específica, como por exemplo o Louva-deus.

O jogo das metáforas da natureza poderia durar muitas páginas e como num banho de cachoeira, deixar mais leve e simples o que às vezes parece incompreensível. Mas as peças que compõem o tabuleiro político de qualquer ecossistema são, cada uma em sua individualidade, extremamente complexas, porém suas decisões e atitudes podem ser definitivas para a maioria. O mais importante para o equilíbrio desse ecossistema é ter em mente que o poder de decisão está no voto de cada um que faz parte desse universo. E numa democracia verdadeira a grande massa sustentada e vitória um projeto político. Esquecê-la é, necessariamente, se expor aos maiores perigos da natureza.

*Guto Araújo é publicitário e estrategista de comunicação e marketing político

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