Tecnologia

A nuvem que não flutua: Data centers, energia e soberania no Ceará

Nesta década, quem controla energia controla a inteligência artificial. E quem controla a inteligência artificial tem poder econômico, político e cultural.

 

Por Rogério Morais

Lendo, na coluna do jornalista Egídio Serpa, no Diário do Nordeste (Ceará), uma análise sobre os data centers que estão sendo construídos no Ceará, de autoria do renomado professor Mauro Oliveira, fui provocado a refletir — e a explicar ao leitor — algumas das ideias brilhantes ali apresentadas, que ajudam a tirar esse debate do campo do encantamento tecnológico e trazê-lo para o chão cearense da economia real, da energia e da soberania.

A começar pela própria palavra “nuvem”. Durante muito tempo – e ainda -, fomos levados a acreditar que computação em nuvem era algo etéreo (celestial), leve, quase mágico — como se dados e inteligência artificial circulassem pelo céu, talvez via satélite. Nada mais distante da realidade. A chamada “nuvem” não flutua: ela pousa. E quando pousa, pesa. Pesa em consumo de energia, de água, em território, em infraestrutura e em decisões políticas de longo prazo, conforme dito pelo Professor Mauro, ao seu estilo.

É justamente esse o ponto central do alerta feito por Mauro Oliveira. Data centers de inteligência artificial não são simples investimentos imobiliários ou de tecnologia da informação. Eles são, hoje, infraestrutura estratégica, comparável a portos, rodovias,  ferrovia, refinaria e siderurgia, ou usinas de energia. Onde se instalam, passam a disputar recursos escassos — especialmente megawatts — com indústrias, cidades, agricultura e a própria transição energética, como é o caso do CIPP – Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

O Ceará, é verdade, reúne condições raras. Energia renovável abundante, posição geográfica privilegiada no Atlântico, cabos submarinos de fibra óptica, porto internacional e uma juventude, sim, já conectada ao conhecimento (UFC, UECE, IFCE e Instituto Atlântico). Esses ativos colocaram o Estado no radar das grandes empresas globais de tecnologia. Isso é oportunidade. Mas também é risco, segundo alguns pensadores, como o articulista.

 

O risco está em repetir um velho modelo: oferecer território, incentivos fiscais e energia limpa barata sem exigir contrapartidas estruturantes. Como bem sintetiza o professor Mauro Oliveira, um data center, se não for regulado, consome muito, emprega pouco, transfere quase nada de conhecimento e opera com baixa transparência. Pode virar apenas um grande exportador de valor — valor que sai pelo cabo, enquanto ficam os passivos ambientais e a pressão sobre o sistema elétrico.

Há ainda um ponto pouco debatido fora dos círculos técnicos: data centers não apenas “consomem” energia; eles disputam energia no tempo e no território. Fontes renováveis como solar e eólica são limpas e fundamentais, mas intermitentes, ou seja, não tão garantidas, como água no Nordeste. E ainda: Quando o vento para ou o sol se põe, os servidores não podem desligar. Em muitos países, a reserva que sustenta essa operação continua sendo térmica, muitas vezes fóssil. O paradoxo: a nuvem se vende verde, mas exige garantia energética firme.

Outro aspecto essencial, levantado no artigo, é o da métrica. Indicadores como PUE (eficiência energética) e WUE (uso de água) só fazem sentido se acompanhados de auditoria independente e transparência pública. Sem isso, viram apenas peças de marketing corporativo. Eficiência não é sinônimo automático de sustentabilidade, e muito menos de benefício social.

Por tudo isso, o debate sobre data centers no Ceará não pode ser feito apenas entre investidores e governo. Ele exige a presença da academia, das entidades produtivas, do setor elétrico e da sociedade civil. Exige contratos claros, soberanos, com metas, penalidades e contrapartidas: formação de profissionais, investimento em pesquisa, transferência tecnológica, uso de dados públicos, fortalecimento da indústria local. É o que parece no apelo “dramático” do documento da entidade local criada pelo professor.

A contribuição do professor Mauro Oliveira, ao lado de instituições como a tal “Iracema Digital” e universidades, é justamente recolocar a discussão no seu devido lugar: o da governança democrática de uma infraestrutura crítica. Não se trata de ser contra data centers, mas de negociar bem. Não é rejeitar investimento, é definir o padrão da troca. Aqui, na minha observação, não sabemos se isso ainda é possível, diante da esperança dos trabalhadores da região, pouco ou sem nenhuma qualificação, de muitos empregos após o carnaval.

Nesta década, quem controla energia controla a inteligência artificial. E quem controla a inteligência artificial tem poder econômico, político e cultural. O Ceará entrou nesse tabuleiro talvez sem perceber sua própria força. Agora, o desafio é simples: transformar megawatts em desenvolvimento, dados em soberania e tecnologia em futuro compartilhado.

O que é PUE, em bom português

PUE é uma forma de responder à pergunta: “Quanta energia o data center gasta para realmente trabalhar… e quanta ele gasta só para se manter vivo?”

Um data center é como uma fábrica de computadores. Parte da energia vai para o que interessa: os servidores trabalhando Outra parte vai para:

  1. ar-condicionado
    1. ventilação
    2. iluminação
    3. perdas elétricas
    4. equipamentos de apoio

PUE mede essa relação.

Exemplo simples:

  1. Se para 1 kWh usado nos computadores o prédio gasta mais 1 kWh só para funcionar,
  2. o PUE é 2,0 → ruim, muito desperdício.
  3. Se para 1 kWh nos computadores ele gasta só 0,2 kWh de apoio,
  4. o PUE é 1,2 → bem melhor.

O que é WUE

WUE responde a outra pergunta: “Quanta água esse data center bebe para funcionar?” Muita gente não sabe, mas data center:

  1. usa água para resfriar equipamentos
  1. usa água indiretamente para gerar energia

 WUE mede quanta água é gasta para cada unidade de energia usada pelos servidores.

Traduzindo:

  1. WUE alto = muita água indo pro ralo
  1. WUE baixo = uso mais consciente

FONTE: https://www.gigabyte.com/Glossary/pue

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