Empreendedorismo

Sebrae vê IA como caminho para reduzir barreiras à inovação nos pequenos negócios

Aline Melo Borges, consultora de Projetos e Inovação do Sebrae-SP, diz que ferramentas facilitam criação de protótipos, mas exigem governança, pensamento crítico e supervisão humanas

Créditos: Gisele Abrahão e Aline Borges (foto: Mary de Aquino/PIP)

São Paulo, 02 de Outubro de 2026 – A inteligência artificial começa a reduzir uma barreira histórica para pequenos negócios: o custo de transformar uma ideia em um primeiro produto tecnológico. Ferramentas gratuitas ou de baixo custo já permitem que empreendedores desenvolvam protótipos e testem soluções com equipes menores, embora a diferença de recursos em relação às grandes companhias permaneça.

A avaliação é de Aline Melo Borges, consultora de Projetos e Inovação do Sebrae-SP, que participou do 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo. O Sebrae esteve entre os patrocinadores do evento, que teve como tema “Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo.”

Para Borges, uma das mudanças trazidas pela IA aparece justamente no estágio inicial de um negócio. Um empreendedor sem desenvolvedores em sua equipe pode recorrer a ferramentas disponíveis no mercado para montar um produto mínimo viável, ou MVP, testar uma ideia e buscar as primeiras receitas antes de investir em uma estrutura tecnológica maior.

“O gap ainda existe”, afirmou Borges ao comparar pequenas e grandes empresas. A diferença, segundo ela, é que determinadas ferramentas ampliaram a possibilidade de começar com menos recursos.

A consultora faz uma distinção entre as motivações para a adoção da tecnologia. Para pequenos negócios, a IA tende a estar associada à redução de custos. Em empresas maiores, pode integrar estratégias de investimento mais amplas. A diferença de poder econômico, portanto, não desaparece, mas o acesso a ferramentas capazes de acelerar a criação de protótipos diminui parte da distância na fase inicial.

Essa facilidade também amplia os riscos. Borges defende que empresas estabeleçam regras de governança antes de incorporar sistemas de inteligência artificial às operações.

Na prática, isso significa definir o que pode e o que não pode ser feito com a tecnologia, documentar processos e determinar quando uma resposta precisa passar por revisão humana. Procedimentos claros também ajudam a identificar as chamadas alucinações, quando sistemas de IA apresentam informações incorretas ou sem sustentação.

“A gente precisa trabalhar com aspectos de governança, com aspectos de código de ética”, afirmou Borges. Para ela, regras e processos precisam ser definidos antes que essas ferramentas sejam incorporadas ao dia a dia das empresas.

Créditos: Gisele Abrahão, Filipe Guimarães, Mariane Takahashi, Aline Melo Borges e George Affonso Ferreira. (Foto: Mary de Aquino/PIP)

Outro ponto é a capacidade de avaliar aquilo que a própria tecnologia produz. Borges argumenta que modelos de inteligência artificial carregam escolhas feitas ao longo de seu desenvolvimento e treinamento. Isso exige do usuário mais do que habilidade para formular comandos: requer letramento digital, análise das fontes e disposição para questionar as respostas recebidas.

“Se a gente considera um fim mágico para todos os nossos problemas, é aí que está o problema”, disse Borges. “É uma ferramenta que alavanca a produtividade”, acrescentou, ao defender a necessidade de direcionamento humano e pensamento crítico.

A discussão acompanha a trajetória profissional da consultora. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Borges passou pela docência e por projetos no terceiro setor antes de atuar diretamente com pequenos negócios. No Sebrae-SP, trabalhou como agente de inovação com mais de 100 empresas. Também passou pelo Senai-SP, onde atuou na aceleração de startups industriais, e retornou ao Sebrae-SP para trabalhar com projetos, inovação e mecanismos de fomento.

Para Borges, crescimento, faturamento e competitividade não devem ser analisados separadamente dos efeitos produzidos pelas decisões empresariais. A mesma lógica se aplica à inteligência artificial: aumentar produtividade ou reduzir custos não encerra a discussão sobre como a tecnologia deve ser utilizada.

Criado por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da Plataforma Impactos Positivos, o Encontro Impactos Positivos chegou à sexta edição reunindo empreendedores e organizações ligados a negócios de impacto. A programação incluiu ainda o 6º Prêmio Impactos Positivos. Aventura de Construir foi reconhecida na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.

Para os pequenos negócios, a disseminação da IA pode tornar mais barato experimentar uma tecnologia e colocar uma ideia à prova. O acesso, porém, resolve apenas parte da equação. Quanto mais simples se torna utilizar essas ferramentas, mais relevante passa a ser a capacidade de estabelecer limites, avaliar respostas e decidir quando a tecnologia deve e quando não deve orientar uma decisão.

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