IA muda o perfil profissional e coloca criatividade no centro das estratégias de RH, aponta estudo
Durante décadas, a experiência profissional, a formação acadêmica e o domínio técnico estiveram entre os principais critérios para contratação e desenvolvimento de profissionais. A rápida evolução da inteligência artificial, porém, começa a alterar essa lógica e cria um novo desafio para as áreas de Recursos Humanos: como identificar e desenvolver as competências que continuarão diferenciando os profissionais em um mercado cada vez mais automatizado?
Para o pesquisador e empresário do setor de educação corporativa Rodrigo de Barros, a criatividade deve ganhar um papel central nesse novo cenário. Em pesquisa desenvolvida em sua tese de doutorado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), ele defende que a capacidade de gerar novas ideias, conectar conhecimentos e encontrar soluções para problemas inéditos tende a se tornar um ativo cada vez mais estratégico para profissionais e organizações.
A pesquisa partiu de um portfólio inicial de 1.004 artigos científicos internacionais e, após critérios de seleção, analisou os 101 estudos de maior impacto para a construção do modelo.
“Durante muito tempo, o mercado valorizou principalmente quem detinha determinado conhecimento técnico ou dominava um procedimento específico. A inteligência artificial está tornando parte desse conhecimento cada vez mais acessível. Isso não significa que o conhecimento perdeu importância, mas que ele, sozinho, pode não ser mais suficiente para diferenciar um profissional”, afirma Rodrigo de Barros, que também é professor convidado da FGV.
A pesquisa aponta que, à medida que a inteligência artificial assume tarefas técnicas e cognitivas, empresas terão de rever processos de contratação, desenvolvimento e gestão de talentos
A transformação traz uma questão prática para os departamentos de Recursos Humanos. Se sistemas de inteligência artificial já conseguem produzir textos, realizar análises, programar, resumir documentos e organizar grandes volumes de informação, quais critérios devem ganhar peso nos processos seletivos?
Para Rodrigo, a resposta passa por uma revisão dos modelos tradicionais de avaliação de talentos. “Será cada vez mais importante entender não apenas o que o profissional sabe fazer hoje, mas como ele reage diante de um problema para o qual ainda não existe uma resposta pronta. A capacidade de questionar, aprender, estabelecer conexões e criar soluções tende a ganhar relevância”, afirma.
O desafio, segundo o pesquisador, é que criatividade não pode ser identificada apenas por meio de currículos, diplomas ou avaliações técnicas tradicionais. As empresas precisarão desenvolver novas formas de observar competências como curiosidade, pensamento crítico, capacidade de adaptação e resolução de problemas complexos.
Esse movimento também está relacionado às mudanças previstas para o mercado de trabalho nos próximos anos. Estudos internacionais sobre o futuro das profissões vêm apontando o pensamento criativo entre as competências de maior relevância à medida que atividades repetitivas, técnicas e cognitivas passam a ser automatizadas.
A pesquisa também chama atenção para outro desafio das empresas: não basta identificar e contratar profissionais criativos se a própria organização cria barreiras à inovação. Estruturas excessivamente hierárquicas, baixa autonomia, excesso de processos e pouca tolerância ao erro podem limitar a capacidade das equipes de transformar ideias em resultados.
“Existe uma contradição em muitas organizações. As empresas dizem que querem inovação, mas, ao mesmo tempo, criam ambientes nos quais as pessoas têm pouca autonomia para experimentar ou propor caminhos diferentes. A criatividade não depende apenas do indivíduo. Ela também é influenciada pelo ambiente e pela forma como a organização é gerida”, afirma o pesquisador.
A partir da pesquisa, Rodrigo de Barros desenvolveu um protótipo do Sistema Web MACI, voltado ao diagnóstico de fatores relacionados à criatividade nas organizações. A ferramenta permite identificar componentes que apresentam baixo desempenho e, a partir do cruzamento dos dados com a literatura científica analisada, recomendar intervenções para as áreas de RH e lideranças.
Segundo o pesquisador, quando determinado componente recebe nota inferior a 3,5, o sistema identifica possíveis fragilidades e sugere ações personalizadas para estimular o desenvolvimento da capacidade criativa.
Outro ponto levantado pela pesquisa é que a adoção de inteligência artificial não produz inovação automaticamente.
Para Rodrigo de Barros, a tecnologia tende a ampliar capacidades que já existem dentro das organizações. Empresas com ambientes favoráveis à criatividade podem utilizar a IA para acelerar análises, testar ideias e ampliar sua capacidade de inovação. Já organizações excessivamente burocráticas correm o risco de utilizar a tecnologia apenas para tornar processos antigos mais rápidos.
“A inteligência artificial é uma ferramenta extremamente poderosa, mas ela não substitui a necessidade de pessoas capazes de interpretar contextos, questionar premissas e tomar decisões diante de situações inéditas. Existe o risco de empresas confundirem automação com inovação”, afirma.
Nesse cenário, o papel do RH também se amplia. Além de capacitar profissionais para utilizar ferramentas de inteligência artificial, as empresas terão de investir no desenvolvimento de competências que permitam transformar a tecnologia em vantagem competitiva.
“Faço palestras em grandes empresas e vejo esses desafios se apresentando a grandes executivos de RH. O mercado mudou e as empresas precisam se preparar para uma nova era no processo de seleção”, afirma.
Segundo ele, isso inclui estimular a aprendizagem contínua, ampliar o repertório dos profissionais, criar espaços para experimentação e desenvolver lideranças capazes de incentivar novas ideias.
Para Rodrigo de Barros, a grande transformação provocada pela inteligência artificial não está apenas nas funções que poderão ser automatizadas, mas na mudança dos critérios que determinarão o valor de um profissional.
“Em um mercado em que máquinas conseguem executar um número cada vez maior de tarefas, o diferencial humano estará menos na repetição de conhecimentos existentes e mais na capacidade de utilizar esses conhecimentos para criar algo novo. É nesse espaço que a criatividade ganha um papel estratégico”, conclui.
