Existe vida fora da Faria Lima? Gestoras do Nordeste ampliam atuação e começam a criar mercado financeiro regional
Casas sediadas na região avançam em gestão patrimonial, crédito estruturado e mercado de capitais, mas ainda representam uma fração da indústria concentrada no eixo Rio-São Paulo
O Nordeste ganhou espaço no mapa do mercado financeiro brasileiro nos últimos anos. Embora São Paulo continue concentrando a maior parte das gestoras, administradoras, bancos de investimento e investidores institucionais do país, um grupo de casas sediadas na região passou a ampliar sua atuação em gestão de recursos, wealth management, crédito estruturado e mercado de capitais em geral.
O movimento ainda é pequeno diante da escala do Sudeste, mas mostra uma mudança de perfil: parte das instituições nordestinas deixou de atuar apenas como canal comercial de produtos criados em São Paulo e passou a desenvolver estruturas próprias de gestão, relacionamento e originação de negócios.
Dados da ANBIMA indicam que o volume administrado por gestores de patrimônio no Nordeste chegou a cerca de R$ 55,3 bilhões em 2025, crescimento de 20,7% no ano. O número acompanha uma expansão mais ampla do mercado financeiro brasileiro, mas chama atenção porque ocorre em uma região historicamente menos representada na indústria de investimentos.
Hoje, o Nordeste reúne cerca de 20 gestoras, segundo dados citados pela indústria, ante aproximadamente oito em 2019. Ainda é uma participação pequena quando comparada ao Sudeste, mas o avanço indica a formação gradual de um ecossistema financeiro regional.
“Durante muito tempo, o mercado financeiro brasileiro funcionou com uma lógica muito concentrada: as decisões eram tomadas em São Paulo e as demais regiões eram vistas principalmente como mercado consumidor”, afirma Bruno Barreto, advogado especialista em mercado de capitais, ex-integrante da Asset do Banco Safra de Investimentos, professor de direito do mercado de capitais e sócio do Urbano Vitalino Advogados.
Na avaliação dele, a mudança mais relevante não está apenas no crescimento do número de empresas financeiras, mas na capacidade dessas estruturas de criar negócios próprios.
“O ponto que diferencia um mercado regional de uma simples presença comercial é a capacidade de originar operações, estruturar produtos e tomar decisões de investimento. Ter um escritório ou uma equipe comercial é uma coisa. Ter inteligência financeira local é outra.”
Entre os exemplos desse movimento está a Finacap, sediada em Recife. Fundada em 1997, a gestora foi uma das primeiras independentes registradas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A empresa começou ligada ao atendimento de famílias empresárias e evoluiu para uma operação de gestão de recursos e patrimônio, alcançando cerca de R$ 1,7 bilhão em ativos sob gestão em 2023.
Outro exemplo é a Multinvest Capital, também de Recife, com atuação em multi-family office e aproximadamente R$ 2,5 bilhões sob gestão. A casa trabalha com planejamento patrimonial e estratégias financeiras para famílias, empresários e estruturas corporativas, independentemente da localização dos ativos.
A região também abriga casas com perfis diferentes, como a Casaforte Investimentos, voltada a private equity e venture capital; a D&M Capital, com operações em Recife, Fortaleza, Natal e São Paulo e cerca de R$ 3,8 bilhões sob gestão; a Douro Capital, presente em Recife, João Pessoa e São Paulo, com atuação em gestão patrimonial; e a Solis Investimentos, especializada em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) com sede em Fortaleza e São Paulo.
Em Sergipe, a Viggo Asset representa um movimento de criação de gestoras independentes fora dos principais centros financeiros tradicionais. O ponto em comum entre essas instituições é que elas não surgiram apenas como extensões comerciais de grandes bancos ou plataformas de investimentos. Em diferentes graus, construíram relacionamento próprio com empresários, investidores e empresas da região.
Para Barreto, essa característica é fundamental. “Um mercado financeiro regional se desenvolve quando ele consegue transformar conhecimento local em vantagem econômica. A proximidade com empresas, setores e empresários pode gerar informação que outros centros não possuem. Mas isso só tem valor quando existe capacidade técnica para transformar essa informação em operação financeira.”
Crescimento acontece junto com amadurecimento do mercado
A expansão das gestoras nordestinas acompanha uma transformação mais ampla da indústria financeira brasileira.
O mercado de investimentos passou por uma forte digitalização nos últimos anos, aumentando o acesso de investidores fora dos grandes centros. Segundo dados da B3, regiões Norte e Nordeste registraram crescimento relevante na base de investidores, impulsionadas pela expansão das plataformas digitais.
Outro indicador desse movimento é a expansão da profissão de assessor de investimentos. Segundo a ANCORD, o Brasil chegou a 27.275 assessores credenciados no primeiro quadrimestre de 2025. O Nordeste representava 7,3% do total, com profissionais em todos os estados.
Apesar do avanço, o número ainda mostra uma diferença importante de densidade em relação ao Sudeste. “O crescimento acontece, mas é um processo de construção de mercado. Não basta ter investidores. É preciso formar profissionais, gestores, estruturas jurídicas, analistas, distribuidores e uma rede de empresas que demandem capital”, afirma Barreto.
Segundo ele, mercados financeiros são construídos em ciclos longos. “Uma região não cria uma indústria financeira completa apenas porque algumas casas aparecem. O ecossistema depende de vários agentes funcionando juntos.”
Uma das principais questões para medir a maturidade do mercado regional é entender se essas empresas criam soluções próprias ou apenas distribuem produtos de terceiros.
Durante anos, a expansão financeira fora do eixo Rio-São Paulo ocorreu principalmente por meio de escritórios comerciais, assessorias e representantes de grandes plataformas.
Esse modelo ampliou o acesso dos investidores, mas não necessariamente criou capacidade local de gestão. “O assessor tem um papel importante, mas existe uma diferença entre aproximar o investidor de um produto e construir uma tese de investimento”, afirma Barreto.
Para ele, a evolução acontece quando a estrutura regional passa a participar das etapas mais sofisticadas do mercado.
“Quando você tem análise própria, estruturação, gestão de risco e capacidade de originar negócios, você deixa de ser apenas um distribuidor e passa a fazer parte da cadeia de valor financeira.”
Crédito estruturado e empresas locais impulsionam mercado
Um dos segmentos que mais favorecem o crescimento dessas estruturas é o mercado de capitais corporativo.
Empresas nordestinas passaram a acessar com mais frequência instrumentos como debêntures, CRIs, CRAs e outros produtos estruturados para financiar expansão.
As emissões de debêntures, notas comerciais e notas promissórias na região passaram de R$ 8,22 bilhões em 2020 para R$ 49,12 bilhões em 2024, crescimento próximo de 500%.
Esse avanço cria uma ponte entre a economia regional e investidores nacionais. “A empresa local que antes dependia exclusivamente do banco passa a acessar o mercado de capitais. Isso gera demanda por estruturação, análise de crédito e relacionamento com investidores”, afirma Barreto.
A especialização das casas também reflete o perfil econômico da região. Wealth management, family offices, crédito privado e operações ligadas a empresas familiares aparecem como áreas de maior desenvolvimento.
Muitas dessas estruturas nasceram justamente para atender empresários que construíram negócios em setores tradicionais e passaram a demandar uma gestão patrimonial mais sofisticada.
O limite ainda é a concentração de capital
Apesar da evolução, a indústria financeira brasileira continua altamente concentrada.A maior parte das gestoras, bancos de investimento e investidores institucionais ainda está em São Paulo, o que faz com que muitas operações envolvendo empresas nordestinas continuem passando por estruturas sediadas no Sudeste.
O desafio, portanto, não é apenas criar empresas financeiras locais, mas construir um mercado completo. Para Barreto, o Nordeste ainda está em uma fase inicial de consolidação.
“Ainda não existe uma Faria Lima nordestina, e talvez nem seja esse o objetivo. O que existe é a formação de polos de competência financeira.”
Na avaliação dele, a tendência é que o mercado avance de forma gradual. “O futuro não é substituir os grandes centros. É ter diferentes regiões com capacidade própria de gerar negócios, produtos e conhecimento financeiro.”
A pergunta sobre a existência de vida fora da Faria Lima, portanto, começa a ter uma resposta menos binária. O Nordeste ainda não possui uma indústria financeira comparável à paulista, mas já apresenta casas capazes de operar além da distribuição.
O movimento mais importante talvez não seja a criação de um novo centro financeiro, mas a construção de uma rede de mercados regionais capazes de participar mais ativamente da alocação de capital no país.
