Filme sobre Elize Matsunaga reacende debate: quando histórias de crimes podem afetar a saúde mental? Especialista explica
Indivíduos com maior vulnerabilidade emocional podem experimentar aumento da ansiedade, alterações no sono e reviver experiências traumáticas, explica a psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia, Dra. Vanessa Bulcão, Coordenadora da Unidade de Psicologia do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, em Portugal.
O anúncio do novo filme “Elize: Sombras de Uma Mulher”, da Netflix, voltou a colocar em evidência um dos casos criminais mais conhecidos do Brasil. A produção retrata a história de Elize Matsunaga, condenada pelo assassinato do empresário Marcos Kitano Matsunaga, em 2012, um crime que gerou enorme repercussão nacional e já foi tema de documentários e séries.
Histórias baseadas em crimes reais despertam interesse por envolverem investigação, comportamento humano e aspectos psicológicos complexos. Para a maioria das pessoas, esse tipo de conteúdo é apenas entretenimento ou uma oportunidade de reflexão, mas em indivíduos com maior vulnerabilidade emocional, a exposição repetida a narrativas violentas pode intensificar reações emocionais e psicológicas.
“Filmes e séries mobilizam emoções porque o cérebro processa essas narrativas de forma muito semelhante a outras experiências emocionalmente relevantes. Mesmo sabendo que se trata de uma obra audiovisual, regiões cerebrais envolvidas na empatia, no processamento das emoções e na percepção de ameaça podem ser ativadas, especialmente diante de cenas de violência, sofrimento ou intenso conflito psicológico”, explica a psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia, Dra. Vanessa Bulcão.
O cérebro reage às emoções da história
Quanto maior a identificação com os personagens ou com a situação retratada, maior tende a ser a resposta emocional. Quando a história é baseada em fatos reais, esse efeito pode ser potencializado pela percepção de que aqueles acontecimentos realmente ocorreram. Segundo a Dra. Vanessa Bulcão, estruturas cerebrais como a amígdala, responsável pela detecção de ameaças, e regiões do córtex pré-frontal relacionadas ao processamento emocional podem ser recrutadas durante esse tipo de experiência. Em pessoas que convivem com ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão ou que passaram por experiências traumáticas, essa resposta pode ser mais intensa.
“Quem já apresenta ansiedade ou vivenciou situações traumáticas pode sentir maior impacto ao assistir conteúdos muito intensos. Algumas pessoas relatam dificuldade para dormir, pensamentos repetitivos, aumento da ansiedade, sensação de medo ou um estado de vigilância mais elevado após esse tipo de exposição.”
“Essas produções, por si só, não provocam doenças psicológicas, mas podem intensificar sintomas já existentes ou funcionar como gatilho para pessoas emocionalmente mais vulneráveis.”
O excesso também merece atenção
Além da intensidade do conteúdo, a frequência de consumo também merece atenção. Maratonar documentários, filmes e séries sobre assassinatos, crimes violentos ou tragédias pode favorecer um fenômeno conhecido na Psicologia Cognitiva como viés de disponibilidade, no qual acontecimentos marcantes passam a parecer mais frequentes do que realmente são.
“Quando o cérebro é exposto repetidamente a histórias de violência, pode surgir uma percepção ampliada de que o mundo é um lugar constantemente perigoso. Isso pode alimentar preocupação excessiva, aumentar o estado de alerta e dificultar o relaxamento, especialmente quando esse consumo acontece à noite ou próximo ao horário de dormir.”
Como consumir esse tipo de conteúdo de forma saudável?
De acordo com a Dra. Vanessa Bulcão, não existe necessidade de evitar completamente filmes policiais ou histórias de crimes reais.
“O mais importante é observar como cada pessoa reage. Se após assistir determinados conteúdos surgirem ansiedade intensa, alterações persistentes no sono, medo frequente ou sofrimento emocional, vale a pena reduzir esse consumo e buscar conteúdos que favoreçam maior equilíbrio emocional.”
“Alternar conteúdos mais densos com produções leves, wvitar maratonas prolongadas, não assistir a esse tipo de conteúdo quando já estiver emocionalmente sobrecarregado, evitar filmes muito intensos próximo ao horário de dormir e respeitar os próprios sinais de desconforto emocional”.
O entretenimento deve contribuir para o bem-estar
Filmes e séries fazem parte do lazer e podem proporcionar entretenimento, aprendizado e reflexão sobre comportamento humano. Entretanto, quando deixam de gerar interesse e passam a provocar sofrimento emocional recorrente, pode ser o momento de rever os hábitos de consumo.
“O problema não está necessariamente no conteúdo, mas na forma como cada cérebro responde a ele. Conhecer os próprios limites emocionais é uma forma de autocuidado. Nem todo conteúdo faz bem para todos os momentos da vida, e respeitar isso também faz parte da preservação da saúde mental”, conclui a Dra. Vanessa Bulcão.
Créditos: Vanessa Bulcão (Arquivo Pessoal/IMF Press Global) Imagem Ilustrativa (Reprodução/Divulgação)
