Opinião

Selic em queda não significa alívio imediato para as PMEs

Terceiro corte consecutivo dos juros básicos é positivo, mas inflação persistente e incertezas econômicas mantêm empresários em alerta

Por Álvaro Marques, Consultor de investimentos da CredCrea

Um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciar a redução da taxa Selic para 14,25% ao ano, a avaliação para pequenas e médias empresas (PMEs) ainda é de cautela. Embora a nova queda dos juros seja uma sinalização positiva, seus efeitos na economia real tendem a ser graduais e estão longe de representar uma mudança imediata no ambiente de negócios.

O corte de 0,25 ponto percentual já era amplamente esperado pelo mercado e marca a terceira redução consecutiva dos juros básicos neste ano. Ainda assim, o movimento vem acompanhado de um discurso cauteloso do Banco Central. Inflação acima da meta, incertezas no cenário internacional e dúvidas sobre a trajetória fiscal brasileira continuam no radar e limitam a velocidade de novas reduções.

Conforme sinalizado nos comunicados do Copom, as próximas decisões seguem dependentes da evolução dos dados econômicos. A autoridade monetária evitou indicar um cronograma para os próximos encontros, reforçando que o cenário ainda exige prudência.

Mesmo com a redução, o Brasil continua operando com juros elevados. Em outras palavras, o custo do dinheiro segue alto, o que limita investimentos e freia o consumo, dois motores essenciais para o crescimento.

Para quem está à frente de um negócio, o impacto é direto: crédito mais caro, decisões mais cautelosas e maior pressão sobre o caixa. Trata-se de um cenário que exige menos impulso e mais leitura de contexto. Na prática, isso também se reflete no dia a dia das cooperativas de crédito, onde empresários e cooperados têm buscado cada vez mais orientação antes de tomar decisões financeiras.

A economia brasileira no momento do “voo de galinha”

Quando os juros permanecem elevados, toda a engrenagem desacelera. Empresas adiam planos de expansão, repensam contratações e evitam assumir novos compromissos financeiros, priorizando a sustentação da operação com mais eficiência. Ao mesmo tempo, o consumidor também muda de comportamento.

Com menos poder de compra e maior insegurança, as famílias tendem a focar no essencial. Dados do IBGE mostram oscilações recentes no consumo, reflexo direto desse ambiente mais restritivo, um movimento que rapidamente chega ao caixa das empresas. Esse comportamento também é percebido entre investidores, que passam a priorizar liquidez e segurança em suas decisões financeiras.

Não por acaso, volta ao radar um termo que incomoda economistas, e também empresas e investidores: a possibilidade de estagflação, quando a economia cresce pouco ao mesmo tempo em que a inflação permanece pressionada. Ainda é cedo para afirmar que esse cenário vai se consolidar, mas os sinais pedem atenção.

Há ainda um aspecto que ajuda a explicar por que essa dinâmica persiste. A economia brasileira, muitas vezes, apresenta movimentos curtos de melhora, que geram expectativa, mas não se sustentam. É o conhecido “voo de galinha”: há impulso, mas falta consistência para manter o crescimento ao longo do tempo.

Os últimos comunicados do Banco Central reforçam justamente essa dificuldade de equilibrar crescimento e inflação. Embora a atividade econômica apresente sinais de desaceleração em alguns setores, as expectativas inflacionárias seguem pressionadas, o que faz com que a política monetária avance em ritmo gradual.

Além disso, há um fator estrutural que não pode ser ignorado, que é a perda de poder de compra. Mesmo quando a renda cresce nominalmente, o avanço dos preços reduz o que pode ser consumido. Na prática, isso muda hábitos, encurta orçamentos e exige adaptação constante das empresas.

Planejamento como bússola: ajustar a rota em vez de apostar no cenário

A principal mudança está na forma de tomar decisões. A trajetória daqui para frente ainda dependerá de variáveis que fogem ao controle das empresas, como inflação, cenário externo e confiança fiscal.

O momento pede disciplina financeira e visão de longo prazo, com atenção redobrada ao fluxo de caixa, ao custo do crédito e à eficiência operacional. Esperar uma queda acelerada dos juros pode gerar decisões precipitadas. Mais importante do que prever o próximo movimento do Copom é construir negócios preparados para diferentes cenários. Esse é um movimento que tem levado muitos empresários a buscar estruturas mais consultivas, como as oferecidas por cooperativas de crédito, onde o foco tende a estar mais no planejamento do que no produto.

O momento exige mudança de postura. Em vez de buscar atalhos, o mais estratégico é construir consistência. Como em qualquer cenário instável, quem reage melhor não é quem aposta mais, mas quem está preparado.

Outro ponto essencial é não concentrar riscos. Diversificar receitas, fornecedores e até aplicações financeiras deixam de ser uma estratégia sofisticada e passam a ser uma necessidade básica. Em um ambiente volátil, a soma de decisões equilibradas tende a gerar mais resultado do que uma única aposta concentrada. Inclusive dentro das carteiras financeiras, é um tema cada vez mais presente nas orientações aos cooperados.

É importante ter clareza de que o cenário pode mudar. Por isso, o planejamento não pode ser estático, precisa ser dinâmico como um GPS, capaz de ajustar a rota conforme os caminhos mudam, sem perder o objetivo, o destino final.

No fim das contas, a nova queda da Selic é uma notícia positiva e indica que o Banco Central enxerga espaço para algum alívio monetário. Mas o próprio comunicado do Copom deixa claro que esse movimento será conduzido com cautela. Para as PMEs, isso significa que a estratégia continua sendo a mesma: planejar, preservar liquidez e tomar decisões bem fundamentadas, porque o ambiente econômico ainda exige atenção.

Para as PMEs, especialmente aquelas que já atuam ou se relacionam com cooperativas de crédito, o momento reforça a importância de planejamento, proximidade e tomada de decisão bem orientada para atravessar um cenário que ainda deve permanecer desafiador.

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