Columinjuba: uma academia no interior cearense
Prédio da Acla reformado em 2010
Maranguape ocupa lugar singular no mapa cultural brasileiro. Berço de Capistrano de Abreu, um dos mais influentes intérpretes da formação histórica do país, o município carrega uma herança intelectual que ultrapassa fronteiras estaduais.
Walter de Borba e Veloso

Em 21 de junho de 1992, era oficialmente criada a Academia de Ciências, Letras e Artes de Columinjuba (ACLA). À primeira vista, mais uma Academia cultural. Na prática, um movimento estratégico de preservação histórica com raízes familiares nordestinas.
O nome da instituição não é casual. Columinjuba é o local onde nasceu Capistrano de Abreu, (1853 – 1927), historiador reconhecido nacionalmente por sua contribuição à historiografia brasileira. Na virada dos anos 1990, a preocupação era clara: o risco de que o legado intelectual do autor se diluísse no imaginário nacional, distante de sua terra natal.
Antes mesmo de sua formalização jurídica, a ideia da ACLA de Columinjuba germinou no espírito visionário do Capitão -Tenente da Reserva da Marinha Américo de Abreu. Movido pelo propósito de perpetuar, em sua terra de origem, a memória de Capistrano de Abreu, idealizou inicialmente a criação do Clube Columinjuba, concebido como espaço para agregar a família Abreu e embrião de uma futura Academia Literária. Ao alinhar-se a seu sobrinho, o Coronel do Exército Élio de Abreu Braga, consolidou-se a articulação necessária para transformar o projeto familiar em Instituição Cultural, permanente.

Dessa união de propósitos – marcada pelo sentido de pertença, disciplina e compromisso com a memória histórica – nasceu a ACLA, destinada a honrar o legado intelectual de Capistrano e firmar, em Columinjuba, um espaço de imortalidade acadêmica. Nos anos 1990, a maioria das Academias com maior projeção concentrava-se na capital. Criar uma Instiuição robusta no interior, era um grande desafio, no entanto, produção intelectual não é monopólio metropolitano.
Sim, a fundação da ACLA não foi, apenas, um ato cultural. Foi um gesto de posicionamento histórico, fixando, no território de origem, a memória de um intelectual nacional. Trinta e três anos depois, a homenagem recebida na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará confirma que o projeto iniciado em 1992, ultrapassou o limite familiar e local. Tornou-se parte do patrimônio simbólico do Ceará.
Inauguração da Reconstrução da Casa onde nasceu Capistrano de Abreu. Hasteamento das Bandeiras: No centro o Presidente Walter Veloso, a sua direita o Presidente do Conselho Pedro Abreu, e a sua esquerda o Vice-Presidente Francisco Moura. Em 22/10/2023.

O Estatuto da entidade ampliou o seu escopo além das Letras, incorporou Ciências e Artes, um movimento incomum para as Academias à época. A ACLA consolidou-se como um grêmio com mais de 40 membros que ao longo das décadas seguintes, vem crescendo e mantendo a tradição de 63 cadeiras numeradas e 21 patronos históricos do legado familiar.
A concretização desse Projeto, no entanto, não se encerra na narrativa já consolidada sobre a fundação da Academia de Columinjuba. Ao contrário, assume, também, o compromisso de inaugurar uma nova etapa no cenário cultural aprofundando com rigor e escuta qualificada, quem foram exatamente os seus fundadores. Quais trajetórias pessoais e profissionais os moviam em 1992, quais circunstâncias culturais e familiares os impulsionaram e que ambiente político e intelectual de Maranguape favoreceu a criação da entidade.
Solenidade de lançamento da Pedra Fundamental do Santuário Madre Maria José de Jesus, dirigida pelo Presidente Walter Veloso ladeado pelo Vice-Presidente Fco Moura, acadêmicos e Ex-Presidentes Pedro Abreu, Nádia Abreu, José Eduardo e José Lopes. Em, 28/04/2024.
Berço de Capistrano
Somente um livro para nos fazer compreender os elementos essenciais que iluminaram, não apenas o ato formal dessa fundação, mas o espírito histórico que deu origem à Instituição. Maranguape ocupa lugar singular no mapa cultural brasileiro. Berço de Capistrano de Abreu, um dos mais influentes intérpretes da formação histórica do país, o município carrega uma herança intelectual que ultrapassa fronteiras estaduais.
Essa vocação não permanece, apenas, como memória: consolidou-se institucionalmente com a criação da Academia, que, ao longo de mais três décadas, desenvolve um trabalho consistente na promoção das Ciências, das Letras e das Artes. Assim, Maranguape afirma-se como referência nacional ao unir tradição histórica e produção contemporânea de conhecimento, mantendo vivo um legado que dialoga com o passado e projeta o município no cenário cultural do Brasil.
A ACLA constitui-se como um dos mais relevantes núcleos culturais de Maranguape. Instituição jurídica de direito privado e reconhecida como de utilidade pública municipal, destaca-se pela missão de promover, preservar e difundir conhecimento em suas múltiplas dimensões – científica, cultural e artística. Seu compromisso com a responsabilidade social revela, não apenas, uma atuação institucional, mas, a continuidade de um legado familiar semeado pelo irmão do historiador Capistrano, Pedro Honório de Abreu e sua esposa Francisca Amélia de Abreu, cujos valores fundamentaram a criação de um espaço voltado à agregação de pessoas movidas pelo apreço ao saber.
A identidade da ACLA estrutura-se sobe a valorização do mérito intelectual e da vocação individual. Seus acadêmicos são estimulados a desenvolver talentos próprios, fortalecendo um ambiente de cooperação, respeito e pluralidade. Ao apresentarem obras, pesquisas e produções literárias, os membros contribuem para um panorama cultural dinâmico, capaz de refletir a diversidade de vozes e perspectivas que compõem a sociedade contemporânea.
A existência da Academia também representa um gesto de justiça histórica. Capistrano de Abreu, um dos primeiros e mais influentes historiadores do Brasil, merecia de sua terra natal uma instituição dedicada à preservação de sua memória intelectual.
Foi nesse contexto que nasceu a Academia, com o propósito de desenvolver e estimular a valorização do patrimônio intelectual de Maranguape.
Conforme relatos da revista ACLA – nº 2 de 2003 -“ Cândido Mariano da Silva Rondon, amigo pessoal de Capistrano de Abreu e doze anos mais novo que o historiador, foi o sertanista brasileiro de cognome “Marechal da Paz” que veio a receber o Prêmio Livingstone concedido pela NYGS – (Sociedade de Geografia de New York – USA)”. E que: “Vicente foi o índio mandado por Rondon para trabalhar com Capistrano em outubro de 1912, a fim de ajudar a resolver o problema de sufixo na língua dos Caxinauás – (Gramática dos Caxinauás)”.
O Caminho da Santidade
Para complementar essa história, no Rio de Janeiro, a capital federal no final do século XIX, vivia mergulhada nas turbulências da área social, política e cultural, como reflexo da modernização urbana, a chamada Belle Époque, um requinte, que se infiltrava no Brasil resultante da busca de paz entre as potências europeias associada à Segunda Revolução Industrial – um palco de efervecência cultural, científica e tecnológica – por outro lado, a população mais pobre vivia mergulhada na miséria dos cortiços, sofrendo os efeitos das diversas epidemias mortais.

Foi nesse cenário de contrastes que Madre Maria José de Jesus, a filha de Capistrano, talhou sua história ampliando o legado espiritual e cultural da família Abreu. Entre modernidade emergente e as adversidades sociais da época, sua vocação religiosa floresceu como expressão de fé, disciplina e dedicação, compondo um capítulo singular da memória histórica vinculada a Maranguape e à tradição intelectual de sua família.
Walter de Borba e Veloso
Militar da reserva, engenheiro civil e membro da Academia de Ciências, Letras e Artes de Columinjuba (ACLA) – Capistrano de Abreu.
