Com menos funcionários, Banco do Brasil precariza atendimento na capital
É preciso considerar, ainda, que o ambiente político brasileiro permanece fortemente polarizado, realidade que também se reproduz no interior das empresas públicas, incluindo o Banco do Brasil. Medidas de reestruturação adotadas sem diálogo amplo e sem uma defesa explícita dos interesses do corpo funcional tendem a ampliar insatisfações internas e podem acabar fortalecendo narrativas da oposição de direita, que historicamente explora o desgaste de instituições públicas e de suas representações sindicais como instrumento de disputa política.
Por Antonio Matos
O Banco do Brasil anunciou, no final de janeiro do corrente ano, um novo processo de reestruturação em sua rede de atendimento, com impactos em unidades de todo o País. Intitulado “Talentos para Gerar Resultados – Rede 2026”, o programa prevê a criação de mais de 1.100 funções comissionadas, com a justificativa de fortalecer o atendimento consultivo e especializado aos clientes.
Na prática, porém, a medida tem provocado apreensão entre os funcionários, especialmente em Fortaleza. O anúncio ocorreu sem negociação prévia com as entidades sindicais representativas da categoria, o que alimentou a percepção de distanciamento — ou mesmo de anuência — por parte da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Crédito (CONTEC) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da CUT (CONTRAF-CUT). Essa leitura ganhou força diante do tom considerado moderado das notas divulgadas pelas entidades em seus canais oficiais.
A ausência de uma reação mais firme em defesa do corpo funcional gerou dúvidas, insegurança e perplexidade entre os trabalhadores das unidades atingidas. O sentimento é agravado pelo histórico recente da instituição, que em 2025 já havia promovido uma reestruturação em uma de suas unidades técnicas, afetando diretamente os funcionários da Plataforma de Serviço Operacional, onde atuam os caixas.

Segundo empregados do Banco do Brasil que preferiram não se identificar, as mudanças devem impactar as unidades Avenida Treze de Maio, Avenida Imperador, Barão de Aracati, Barão do Rio Branco, Escritório Exclusivo Fortaleza, Fórum Clóvis Beviláqua, Montese, Papicu, Praça do Carmo, Praça dos Correios e Praia de Iracema. Nessas dependências, a redução de pessoal tende a comprometer o atendimento presencial, já pressionado pela alta demanda e pela limitação de recursos humanos.
Entre as principais preocupações relatadas estão a falta de critérios transparentes para a escolha dos funcionários que serão movimentados compulsoriamente, a ausência de definição clara sobre a distância entre a unidade de origem e o novo local de trabalho e a inexistência de garantias de manutenção salarial para todos os comissionados dentro do mesmo município. Na prática, muitos trabalhadores poderão ser obrigados a escolher entre a redução de renda ou a busca por vagas em outras localidades.
O contraste entre o discurso institucional e a realidade vivenciada pelos funcionários chama atenção. Em janeiro, a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, participou do programa Sem Censura, da TV Brasil, quando emocionou o público ao declamar um cordel sobre sua trajetória pessoal. Nos bastidores, contudo, prevaleceram as exigências mercadológicas. Diante da expectativa de retração do lucro líquido — com peso relevante do desempenho do agronegócio —, a instituição optou por avançar sobre sua força de trabalho, ampliando a instabilidade e o desgaste emocional do funcionalismo.
O paradoxo se acentua pelo simbolismo do período. No limiar de 2026, os trabalhadores enfrentam incertezas e constrangimentos justamente no mês em que o Banco do Brasil aderiu à campanha Janeiro Branco, dedicada à promoção da saúde mental. Funcionários ouvidos pela reportagem avaliam ainda que as entidades representativas demonstram uma espécie de “amnésia política”, considerando que 2026 será ano de eleições gerais — para deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. A falta de um posicionamento enfático contra medidas dessa natureza pode produzir efeitos colaterais no processo eleitoral, sobretudo em um ambiente interno marcado por forte polarização.

É preciso considerar ainda, que, em um ambiente político fortemente polarizado, uma realidade que também infelizmente se reproduz no interior das empresas públicas, incluindo o Banco do Brasil, isso é incompetência política. Medidas de reestruturação adotadas sem diálogo amplo e sem uma defesa explícita dos interesses do corpo funcional tendem a ampliar insatisfações internas e podem acabar fortalecendo narrativas de posição de extrema-direita que historicamente explora o desgaste de instituições públicas e de suas representações sindicais como instrumento de disputa política.
Ignorar o expressivo contingente – hoje – de funcionários alinhados à extrema-direita é fornecer munição política contra os sindicatos, estimulando disputas internas, questionamentos às atuais direções e fortalecendo ainda mais um cenário já sensível para o funcionalismo de um dos principais bancos públicos do País.
Antonio Matos é jornalista, escritor, poeta e membro da Academia de Ciências, Letras e Artes de Columinjuba (ACLA) – Capistrano de Abreu.
