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Rede ODS Embrapa instiga mulheres da Amazônia a pensar futuro dos sistemas agroalimentares

Betulia Souto, Danielle Wagner, Alcilene Cardoso e Jiovana Lunelli – Foto: Larissa Morais

Como será a nossa alimentação em 2050? O futuro dos sistemas agroalimentares foi debatido na manhã deste sábado (15) na AgriZone, a Casa da Agricultura Sustentável. Promovida pela Rede ODS Embrapa, a atividade reuniu três mulheres que atuam no Pará: Alcilene Cardoso, gerente de projeto do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Jiovana Lunelli, produtora rural e educadora de Brasil Novo, e a professora Danielle Wagner, do Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef).

A bióloga Betulia Souto, membro da Rede ODS Embrapa, moderou a atividade. A rede foi criada em 2017 com o objetivo de internalizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas entre os empregados da Embrapa.

Betulia apresentou o conceito de sistemas agroalimentares, que abrangem o que acontece desde a plantação até chegar ao prato, incluindo o desperdício. Em sua fala, Alcilene Cardoso defendeu a expansão do conceito, considerando uma etapa anterior ao plantio, as sementes.

Segundo a pesquisadora do Ipam, um dos desafios é educar e promover o consumo consciente, para que as pessoas saibam quando o alimento custou e como ele foi feito. “Se o campo não planta, a cidade não janta”, disse. Alcilene citou o chef paraense Saulo Jennings como um importante divulgador dessa consciência, por meio de sua preferência pelos produtos da agricultura familiar para abastecer as cozinhas de seus restaurantes.

Sobre os impactos da crise climática sobre os sistemas agroalimentares, em especial na agricultura familiar e nas cadeias da sociobiodiversidade, a pesquisadora afirmou que os eventos extremos não só diminuem renda, mas também geram insegurança alimentar.

Para enfrentar essas adversidades, Alcilene defende que a ciência desenvolva soluções com a participação efetiva dos cidadãos, promovendo uma aprendizagem coletiva. “Não dá mais para fazer para as pessoas, temos que fazer com as pessoas”, disse.

Ela falou ainda sobre atividades socioprodutivas que estão em alta, como a mandiocultura, os sistemas agroflorestais (SAFs), a fruticultura, o turismo e o artesanato.

Produção orgânica de cacau

A empreendedora Jiovana Lunelli trouxe a perspectiva do setor produtivo. No estado que lidera a produção de cacau no Brasil, ela administra a primeira agroindústria de chocolate registrada no Pará com o selo artesanal, a Cacau Xingu. Produzidos na região da rodovia Transamazônica, os chocolates da marca estão à venda no Pavilhão Comida, Tradição e Cultura, na AgriZone.

A produtora elencou alguns dos desafios da produção orgânica e da agricultura familiar, como a busca por assistência técnica e extensão rural, por crédito e para que as políticas públicas cheguem ao campo.

Ela ressaltou a importância do acompanhamento dos técnicos extensionistas. Jiovana contou que, para obter o selo do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), buscou a Emater-Pará. Porém, observou que os técnicos ainda têm dificuldade em entender que os produtores orgânicos não querem utilizar sintéticos em seus cultivos, mas sim os produtos biológicos.

As perspectivas, no entanto, são positivas. A produtora lembrou que, até há pouco tempo, a agricultura familiar era uma atividade em que apenas atravessadores e compradores se beneficiavam. De fato, segundo Jiovana, mais de 90% do cacau do Pará é vendido como commodity, sem agregação de valor e dependendo de fornecedores externos. “A Cacau Xingu surgiu como resistência e para mostrar que a agricultura familiar pode ocupar espaços de visibilidade e verticalizar a produção”, afirmou.

A empreendedora agradeceu ao projeto Sustenta e Inova, cujo objetivo é desenvolver e implementar práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras, além de promover o desenvolvimento das cadeias de valor na Amazônia brasileira. A iniciativa é financiada pela União Europeia e coordenada e executada pelo Sebrae no Pará, Embrapa, Cirad e Ipam.

Futuro desejado

Outro projeto apresentado no debate foi o Iaçá (Centro-rede de Pesquisa-ação sobre Agroecologia, Políticas Públicas e Sistemas Alimentares Amazônicos), que reúne mais de dez instituições, entre elas, a Emprapa, e diversas lideranças em agroecologia. A liderança é da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), onde Danielle Wagner é docente.

A engenheira-agrônoma optou por falar sobre o futuro desejado para os sistemas agroalimentares, em vez do futuro previsto. Para esse exercício, ela começou resgatando a cultura alimentar, especialmente, da Amazônia. Nesse bioma, a alimentação é essencialmente agroextrativista, com base nas roças e na pesca. “É preciso olhar com respeito para esses sistemas, que convergem para que a Amazônia ainda seja referência em floresta”, disse. Isso significa reconhecer os territórios e os diferentes ambientes de produção de alimento, a tradição e os conhecimentos ancestrais, além das múltiplas identidades, dando nome a quem produz.

Danielle ressaltou também a sociabilidade, defendendo pensar em ambientes alimentares em que haja interação, a exemplo das casas de farinha na região amazônica. As trocas mantêm as conexões comunitárias e evitam que o alimento se torne uma mercadoria.

Pensar a alimentação em 2050

Após as falas das painelistas, Betulia Souto promoveu entre todos participantes, incluindo a plateia, uma dinâmica de letramento em futuros, elaborada pela Unesco em 2014.

A ideia foi primeiro colocar no papel os futuros prováveis para os sistemas agroalimentares em 2050 e, em seguida, imaginar o futuro desejado, mesmo que não seja provável. O terceiro exercício foi pensar sobre um desafio, de que em 2050 nossa alimentação seria uma fórmula (ração) produzida especificamente para cada pessoa. Por fim, de volta ao presente, os participantes foram instigados a voltar ao presente e pensar no que pode ser feito hoje.

Larissa Morais (MTb/SP 48.218)
Assessoria de Comunicação (Ascom)

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