Banco do Brasil: 217 anos acima de partidos e ideologias
Do ouro levado por Dom João VI às fake news do momento disparadas em grupos de WhatsApp, o Banco do Brasil atravessou impérios, repúblicas, crises, fusões e até liquidações. Fundado em 1808, o primeiro banco do país não tem partido político, não se curva a ideologias e segue vivo como um dos maiores símbolos da soberania nacional. A cada século, ressurge mais forte: no passado acusado de inflar moedas sem lastro, hoje é alvo de comentaristas de extremos que tentam liquidar com palavras aquilo que a história provou inabalável. O Banco do Brasil carrega o sangue da nação e continua a serviço do povo brasileiro.
Por Antonio Matos
Fundado em 12 de outubro de 1808, por iniciativa de Dom João VI, o Banco do Brasil é considerado o primeiro banco do país e uma das mais antigas instituições financeiras do mundo ainda em funcionamento. Criado inicialmente para financiar o governo e o comércio, o banco se transformou ao longo dos séculos em um dos pilares da economia brasileira, com destaque para o agronegócio, a expansão internacional e os serviços financeiros digitais.
Quando Dom João VI decidiu regressar a Portugal em 1821, levou consigo não apenas parte da corte, mas também as joias reais que serviam de garantia ao banco. Sem esse lastro, a confiança no papel-moeda emitido pelo Banco do Brasil foi severamente abalada.
Com a independência do Brasil em 1822, a fragilidade se acentuou. O novo governo exigiu mais emissões de moeda para sustentar o Estado nascente, mas sem reservas equivalentes em ouro. Resultado: inflação, perda de valor da moeda e instabilidade econômica. Em 23 de setembro de 1829, uma lei determinou a liquidação do primeiro Banco do Brasil, encerrando uma primeira e conturbada fase.
A retomada com Mauá
Em 1851, o banqueiro Irineu Evangelista de Sousa, o futuro Visconde de Mauá, fundou um novo Banco do Brasil com capital de 10 mil contos de réis: O maior já registrado na América Latina até então. Poucos anos depois, em 1853, ocorreu a fusão com o Banco Comercial do Rio de Janeiro, sob a liderança do Visconde de Itaboraí, que passou a ser considerado o verdadeiro fundador do Banco do Brasil moderno.
Durante o Segundo Reinado, o Banco do Brasil perdeu e recuperou funções estratégicas, como a exclusividade de emissão de papel-moeda. Já na República, a instituição se fundiu ao Banco da República dos Estados Unidos do Brasil (1893), mas manteve-se como referência central do sistema financeiro.
A partir de 1905, após uma grave crise bancária, o governo federal assumiu forte influência sobre o banco, chegando a se tornar acionista majoritário em 1923. Desde então, o Banco do Brasil consolidou-se como instrumento de política econômica e agente exclusivo do governo em operações de câmbio.
Expansão e papel estratégico
O Banco do Brasil foi pioneiro na concessão de crédito rural já na década de 1890, fortalecendo sua ligação com o campo e, mais tarde, com o agronegócio. Em 1906, retomou oficialmente o nome tradicional que mantém até hoje.
Até a criação do Banco Central do Brasil (1964), o Banco do Brasil exerceu funções de autoridade monetária, incluindo a execução de políticas cambiais e a administração da moeda. Hoje, atua como banco de capital misto, unindo a força do setor público à lógica de mercado.
Legado e soberania
Ao longo de mais de dois séculos, o Banco do Brasil atravessou crises, liquidações e fusões, mas permaneceu como símbolo da soberania nacional. De sua origem vinculada à corte portuguesa ao papel atual de agente estratégico no financiamento da economia e do agronegócio, a instituição carrega uma história marcada por desafios e reinvenções.
“Defender o Banco do Brasil é defender a soberania nacional”, a frase, usada por bancários em protesto recente na Avenida Paulista, ecoa o peso histórico da instituição. Mais do que um banco, o BB representa um capítulo vivo da própria formação econômica do Brasil.
Uma enxurrada de mensagens em grupos de WhatsApp fez milhares de correntistas correrem para as agências do Banco do Brasil no final de agosto, temendo uma suposta falência da instituição. O boato, que vinculava falsamente o banco a sanções aplicadas pelos Estados Unidos, ganhou força nas redes e gerou apreensão entre clientes e funcionários.
Em várias capitais, foram registradas filas em caixas eletrônicos e saques acima da média. O Banco do Brasil, no entanto, desmentiu as informações em nota oficial, classificando o episódio como “fake news que atenta contra a estabilidade do sistema financeiro nacional. O Banco do Brasil é sólido, está entre as maiores instituições financeiras da América Latina e cumpre rigorosamente todas as normas nacionais e internacionais’’, afirmou a nota.
A disseminação da falsa notícia levou a uma reação imediata de sindicatos da categoria. Na Avenida Paulista, em São Paulo, bancários realizaram um protesto segurando faixas com os dizeres: “Defender o Banco do Brasil é defender a soberania nacional”. Para os manifestantes, os ataques não se restringem ao banco, mas representam uma tentativa de fragilizar empresas estratégicas do Estado brasileiro.
Especialistas em segurança digital e desinformação explicam que boatos envolvendo bancos têm alto poder de mobilização, já que tocam diretamente na confiança e no patrimônio das pessoas. “O que vimos foi um caso clássico de pânico financeiro provocado por desinformação. Em poucas horas, a mentira circulou em centenas de grupos, misturando termos técnicos e ameaças inexistentes”, analisa a pesquisadora de comunicação digital Cláudia Mendes, da USP.
O Banco Central também se pronunciou, reforçando a solidez do Banco do Brasil e destacando que não há qualquer risco à sua liquidez ou continuidade. A instituição acionou a Polícia Federal para investigar a origem e a autoria das mensagens falsas.
Enquanto isso, nas ruas, a cena de bancários com faixas na Paulista se tornou símbolo de resistência e alerta: em tempos de desinformação instantânea, a credibilidade das instituições e a confiança do público podem ser abaladas em minutos.
Apesar das turbulências políticas que o país atravessou ao longo de mais de dois séculos, o Banco do Brasil sempre esteve acima de ideologias. Como instituição financeira de caráter nacional, o BB não tem partido, não enxerga espectros políticos. Sua função é servir ao povo brasileiro e sustentar a economia. Não é agora que bolsonaristas de extremos, movidos por narrativas de ocasião, irão liquidar uma instituição que carrega em suas veias o sangue do Brasil e permanece a serviço da soberania nacional.
Antonio José Matos de Oliveira é Jornalista, Administrador de Empresas, membro da União Brasileira de Compositores/UBC e da Academia de Letras e Artes de Columinjuba/Capistrano de Abreu.
