Editorial/Opiniões

Morrer de moto não é destino

O Jornal do Comércio do Ceará, como voz da sociedade cearense, não aceitará o inaceitável. Morrer de moto não pode ser destino. Não pode ser banal. Não pode ser normal.

O Brasil assiste calado a uma tragédia repetida, que ganha contornos de rotina: motociclistas morrendo todos os dias, em todos os cantos, como se isso fosse inevitável. Em 2023, mais de 38% dos acidentes fatais no trânsito envolveram motos. No Ceará, esse índice é ainda mais assustador: quase 60% das mortes nas ruas e estradas atingem quem está sobre duas rodas. Um dado brutal, vergonhoso e que, por muito tempo, foi aceito com uma naturalidade criminosa.

A motocicleta, que há décadas representa liberdade, mobilidade e ferramenta de sustento para milhões de brasileiros, tornou-se também sinônimo de risco extremo. Por omissão do poder público, descaso com a infraestrutura urbana, falta de educação no trânsito e negligência histórica com os mais vulneráveis, esse veículo passou a ser um atalho para a morte. E o que mais choca é o silêncio institucional, até aqui, uma realidade cruel.

No Nordeste, e especialmente no Ceará, instalou-se uma cultura perigosa de descuido generalizado com a vida do motociclista. É comum ver, nas cidades e nas estradas, condutores sem capacete, crianças pequenas transportadas como carona sem proteção, motos levando cargas desequilibradas e até animais sendo levados como se fossem bagagem. Essa triste realidade não pode mais ser ignorada como parte do cotidiano. É o retrato da falência da educação no trânsito, da ausência de fiscalização e do desprezo histórico pelas vidas mais vulneráveis.

No entanto, o Ceará parece finalmente ter acordado. Sob nova gestão no Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE), o Estado começa a dar os primeiros sinais de que não está disposto a continuar empilhando corpos como estatística. A distribuição de antenas corta-pipas, as palestras educativas, a criação de núcleos móveis de orientação para motociclistas e o esforço de diálogo com entregadores, mototaxistas e trabalhadores informais representam um começo promissor e necessário.

Mas que fique claro: não se muda uma cultura de morte com ações tímidas ou paliativas, como rigor nas multas. É preciso fazer mais, e rápido. A cada dia perdido, mães enterram filhos, famílias perdem provedores, jovens perdem as pernas, a vida ou a esperança. A transformação precisa ser estrutural: educação desde a infância, fiscalização presente para prevenir e punir quem mata no trânsito, investimento real em mobilidade segura para motos, e respeito a quem depende da motocicleta para sobreviver.

O Jornal do Comércio do Ceará, como voz da sociedade cearense, não aceitará o inaceitável. Morrer de moto não pode ser destino. Não pode ser banal. Não pode ser normal. A tragédia precisa parar de ser manchete para virar lição, e o Ceará, com coragem e persistência, tem agora a chance de sair do topo da estatística da morte para ocupar o lugar de referência n

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