Hipocrisia dos governos da União Europeia alimenta sofrimento em Gaza, afirma Médicos Sem Fronteiras
Os países precisam ir além da retórica e exercer pressão real para cessar o fogo e ajudar a população
A hipocrisia e a inação da União Europeia e de seus Estados-Membros permitiram que Israel continue livremente o massacre de palestinos em Gaza com total impunidade, afirmou a Organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) em uma entrevista coletiva realizada hoje em Bruxelas. MSF apela para que a ajuda humanitária imparcial e baseada em necessidades reais seja facilitada em larga escala para a Faixa de Gaza, que os cidadãos sejam protegidos e que um cessar-fogo sustentado e imediato seja restabelecido. Os governos europeus devem agir com firmeza para que isso possa acontecer o quanto antes.
Há mais de 20 meses, as autoridades e forças israelenses conduziram uma ação militar brutal, incluindo posições impostas em larga escala e limpeza étnica, contra os palestinos em Gaza. Diariamente, nossas equipes têm testemunhado padrões consistentes com genocídio, por meio de ações deliberadas das forças israelenses – incluindo assassinatos em massa, destruição de infraestrutura civil vital e bloqueios que sufocam o acesso a alimentos, água, medicamentos e outros suprimentos humanitários essenciais. Israel está sistematicamente destruindo as condições permitidas para a vida palestina. Casas, hospitais, mercados, redes de água, estradas e redes elétricas de Gaza foram destruídas não por negligência, mas por intenção deliberada.
A União Europeia (UE) e os governos europeus possuem os meios políticos, econômicos e diplomáticos para exercer pressão real para que Israel cesse os ataques e abra as passagens da fronteira de Gaza para permitir o fluxo de ajuda humanitária sem impedimentos. Esses não são instrumentos teóricos – eles podem ser mobilizados de forma eficaz para defender o direito internacional e proteger os cidadãos.
No entanto, até ao momento, a UE e os seus Estados-Membros pareciam ter abdicado da liderança política que lhe permitiria tomar essa atitude. Pior ainda, declarações recentes feitas pelos Estados Europeus, criticando a condução da guerra, deixando ainda mais clara sua hipocrisia, pois eles continuam fornecendo as armas usadas para matar, mutilar e queimar pessoas que acabam em nossos hospitais.
“A guerra em Gaza é uma das mais hediondas, mortais e implacáveis já travadas contra um povo em nosso tempo”, diz Christopher Lockyear, Secretário-Geral de MSF. “É um massacre orquestrado do povo palestino. É uma limpeza étnica intencional.”
“Para isso exige coragem política, responsabilidade legal e compromisso moral”, afirma Lockyear. “A escalada do sofrimento em Gaza exige mais do que retórica vazia.”
A ajuda humanitária foi instrumentalizada, usada como moeda de troca, condicionada ou completamente bloqueada. Desde o início das atividades da Fundação Humanitária de Gaza, em 27 de maio, como parte do esquema de EUA e Israel de instrumentalização da ajuda, centenas de palestinos foram atendidos em hospitais, e quantidades de mortos foram após serem baleados nos locais de distribuição enquanto aguardavam para receber o mínimo necessário para sobreviver.
“O sistema de entrega de ajuda que foi imposto não é apenas um fracasso, mas também é desumanizante e perigoso”, diz Lockyear. “Ele expõe milhares de palestinos a riscos desnecessários, levando a um derramamento de sangue que poderia ser evitado se as organizações humanitárias pudessem fornecer ajuda de forma imparcial e segura, na escala necessária que Gaza tanto precisa.”
Hoje, o hospital Nasser, principal hospital de referência no sul de Gaza para milhares de pacientes da região, mal consegue continuar funcionando, devido às repetidas ordens de evacuação e restrições de movimentação de funcionários e pacientes. Nas últimas semanas, as equipes de MSF internaram mais de 500 pacientes que necessitavam de cuidados médicos no hospital, enquanto apoiavam uma equipe médica local na resposta a repetidos eventos com múltiplas vítimas, causadas pelos constantes bombardeios e ataques.
“As organizações humanitárias têm montados hospitais improvisados para suprir uma lacuna, mas eles não podem, de forma alguma, substituir os hospitais regulares”, afirma Lockyear. “Os hospitais remanescentes devem ser protegidos, e a entrada de ajuda facilitada. Não fazer isso custará ainda mais vidas.”
MSF, assim como muitas outras organizações, tem exigido repetidamente um cessar-fogo imediato e incondicional, acesso humanitário irrestrito e respeito ao direito humanitário internacional – incluindo a proteção de profissionais de saúde e de instalações médicas.
Vários governos continuam expressando preocupação com a situação terrível em Gaza, essas declarações invocando o respeito ao direito humanitário internacional são envoltas em hipocrisia, já que eles continuam enviando armas que matam e mutilam as crianças que tratamos.
“O que as pessoas estão vivendo em Gaza é insuportável: isso precisa para agora”, diz Lockyear. “Enquanto essa investida contra um povo sitiado continua, a hipocrisia dos Estados da UE, que fala, mas não idade, torna-se mais evidente a cada dia.”
Notas para editores
Desde outubro de 2023, funcionários e pacientes de MSF em Gaza foram solicitados a deixar pelo menos 18 unidades de saúde diferentes e enfrentaram 50 incidentes violentos, que incluem ataques aéreos contra hospitais, disparos de tanques contra abrigos previamente identificados, ataques terrestres contra centros médicos e disparos contra trens. Onze de nossos colegas foram mortos.
