O samba no apogeu de seus 100 anos

O samba no apogeu de seus 100 anos

O samba Pelo Telefone que nasceu em 1917 e foi batizado no Rio de Janeiro, se transformou no marco inicial da história fonográfica do gênero musical, considerado como de autoria da dupla Donga- Mauro de Almeida. Historiadores registram gravações que comprovam ter o samba aparecido antes do Pelo Telefone. A própria Odeon, que gravou referida música, foi a responsável pelo lançamento de outras composições que chegaram ao mercado, entre 1912 e 1914, classificadas como samba. Ainda hoje se discute sobre o propalado samba que gerou tantas polêmicas e discussões, apesar da existência de registros em cartórios e na Biblioteca Nacional. A composição marcou a transição do maxixepara o samba e o reconhecimento do segundo como novo gênero musical.

 

Por Zelito Magalhães

Como tudo começou
Tinha iniciado o ano de 1913, quando intensa campanha foi deflagrada na Capital da República pelo chefe de policia, Belisário Távora, contra o jogo da roleta.A 2 de maio, os repórteres Castelar de Carvalho, Eustáquio Alves e outros do vespertino “A Noite”, instalaram defronte à redação pequena roleta rústica oferecendo fezinha ao povo.Numa reportagem com manchete de primeira página, o jornal estampou a roleta cercada por populares, com os dizeres: “O jogo é franco”. E no subtítulo: “Uma roleta em pleno Largo da Carioca”. Com a notícia do escândalo, Belisário mandou destruir a roleta e os apetrechos da jogatina. Dando continuidade à repressão, em 1916, Aureliano Leal, a nova autoridade policial foi mais ríspido contra o abuso da roleta.

A parceria de “Pelo Telefone”
Por aqueles idos, a baiana Hilária Batista de Almeida, que ficou conhecida por Tia Ciata, morava na rua Visconde de Itaúna nº 117, confluência da Praça 11 de Junho (hoje Av. Presidente Vargas) Ali ela tinha um comércio de quitutes que eram servidos aos habitués que dançavam um ritmo a que chamavam de partido alto. Essas apresentaçõe seram feitas no fundo de quintal para não chamar a atenção da polícia. “Armando-se a roda, todos batiam palmas ritmadas, com o acompanhamento de violões, cavaquinhos e instrumentos de percussão, cantando melodias com versos populares (…)”, nas palavras de “Almirante”. Foi quando naquele ano de 1916, seis participantes da roda criaram um samba intitulado “Roceiro”: Hilário Jovino, Mestre Germano, Tia Ciata, João da Mata, o pianista J. B. da Silva (Sinhô) e o jornalista Mauro Almeida. Este último compôs a letra que começava com esta estrofe: “O Chefe da Folia/ Pelo telefone/ Mandou me avisar/ Que com alegria Não se questione/ Para se brincar…” Em dezembro daquele ano, era gravada pela Casa Édson com a Banda Odeon. Também naquele ano, Donga mandou imprimir a capa do disco na tipografia do Instituto de Artes Gráficas, à rua 13 de Maia nº 43, trazendo os seguintes dizeres: “Registrado na Biblioteca Nacional, nº 3,292 – 16,12,1916” Porém, o registro oficial da repartição só viria a 27 de novembro do ano seguinte.O “Jornal do Brasil”, edição de 4 de fevereiro de 1917 publicou uma nota do Grêmio Fala Gente, comunicando que seria cantado na Avenida Rio Branco o verdadeiro tango Pelo Telefone e citava os nomes dos compositores:João da Mata, Tia Ciata e Hilário. Pesquisadores encontraram edições de “A Cabocla de Caxangá” anteriores a 1917 com a designação de samba.

Controvérsias
Henrique Foreis Domingues era conhecido homem do Rádio e pesquisador que ficou conhecido pela alcunha de “Almirante”. Em seu livro No tempo de Noel Rosa (Livraria Francisco Alves- 2ª. edição – RJ – 1977) diz o seguinte: “Aproveitando-se do êxito do samba, o violonista Donga o registrou na Biblioteca Nacional sob o número 3.295 e com a data do dia 27 de novembro de 1916.Em seguida, Donga mandou imprimir a música na tipografia do Instituto de Artes Gráficas, à Rua 13 de Maio nº 43, escrevendo na capa: Registrado na Biblioteca Nacional, nº 3.295– 16-12-1916. Esta data significa apenas o dia em que a tipografia imprimiu”. Prosseguindo “Almirante” disse ainda: “Com as dúvidas sobre a autoria do samba, ferviam debates nos café, nas esquinas, e nas lojas de músicas. A esse respeito, a 4 de fevereiro de 1917, o Jornal do Brasil publicou este tópicoem que criticava o violonista e os versos encaixados na melodia, considerada como tango, e citava os nomes dos legítimos criadores, classificando Ernesto dos Santos (o Donga) como falso autor e rotulando-o como caradura. Donga jamais respondeu e nem se defendeu na imprensa, silenciando-se totalmente, apesar dos severos protestos dos demais companheiros, O fato de Donga editar como se fosse o autor exclusivo do “Pelo Telefone” fez com que vários amigos da Velha Guarda dele se afastassem”.

O desprestigio
Uma paródia que alfinetava Donga chegou a cantarolada nas ruas: A minha boa gente/ Mandou-me avisar/ Que o meu arranjo/ Era oferecido para se cantar/ Ai, ai, ai/ Leva a mão à consciência/ Meu bem/ Ó que cara dura dizer na roda/ Que o arranjo é teu/ É do bom Hilário e da Velha Ciata/ Que o bom Sinhô escreveu/ Tomara que tu apanhes/ Para não tornar fazer isso/ Escrever o que é dos outros/ Sem olhar o compromisso.

A Praça ganha samba
Foi o prefeito Pedro Ernesto que organizou no ano de 1933 o primeiro desfile oficial de escolas de samba na Praça Onze de Julho. Quando em 1940 foi anunciado que a original Praça Onze ia desaparecer para dar lugar a um logradouro mais moderno, o ator Grande Otelo sugeriu ao compositor Herivelto Martins fazerem um samba de protesto. Assim, no ano seguinte era gravado pelo Trio de Ouro, o samba Praça Onze: Vão acabar com a Praça Onze/ Não vai mais haver escola de samba/ Não vai… / Adeus, minha Praça Onze, adeus (…) Leva contigo a nossa recordação/ Mas ficarás eternamente/ Em nosso coração…

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