O histórico Jornal Correio do Ceará

Resgatar a história é providencial para entender o momento e se preparar para o futuro. A imprensa, que se tornou comunicação de massa – Mídias – no século passado, através de jornais, revistas, rádio e televisão, formando grandes corporações, hoje é também chamada de “jornalismo cidadão” por conta da mídia eletrônica e no uso popular dos aplicativos sociais da internet. 

 

Pesquisa e texto  

Rogério Morais 

 

 

A imprensa cearense tem seu destaque nos fatos de mais de 200 anos que marcam a história da imprensa brasileira, inaugurada em 1808 por Hipólito José da Costa, com o Correio Brasiliense, que circulou de primeiro de junho de 1808 a 1823 (29 edições). Os grandes jornais brasileiros – muitos ainda estão atuantes – surgiram no século XX, quando a empresa jornalística ganhou estrutura profissional e de comunicação de massa, tornando-se referência para tal comparação à fase anterior entre jornais de partidos ou de sindicatos.  

 

Próximo a fechar duas décadas dos primeiros 100 anos do Terceiro Milênio, a imprensa, que tem pouco mais de 500 anos de criação – a partir da invenção de Johannes Gutenberg (1447), teve largo atraso no Brasil, devido ao controle e repressão da Coroa Portuguesa, contra tal ofício, sendo, porém inaugurada somente em 1808, com a chegada da Família Real no Brasil. Além de diversas providências adotadas por D. João VI, como abertura dos portos, intercâmbio com as nações amigas, fim dos monopólios comerciais com Portugal, instituição da Junta do Comércio, Agricultura e Navegação, criação do Banco do Brasil, Correios, Seguros, a Imprensa Oficial do Regime português foi também criada. 

 

Vale ressaltar que a data oficial da criação da imprensa brasileira é alusiva ao Jornal CORREIO BRASILIENSE, do jornalista abolicionista e republicano Hipólito da Costa, que foi expulso do Brasil quando da chegada de João VI e, no exílio em Portugal, continuou editando o jornal e enviando para o Brasil. Após a invenção da imprensa, foram os jornais a grande alavanca de conhecimento e de informação da humanidade. Na Europa, logo a partir do século XVI, os grandes centros urbanos tinham os seus jornais. 

 

No Brasil, como já citei, somente no final do século XIX. Mas logo em seguida, no século XX, o Brasil, em quase todas as suas regiões, a imprensa brasileira alcança o lugar que merece no cenário internacional. O primeiro sindicato de jornalistas no Brasil é fundado em 1934, em Minas Gerais.  Nas primeiras décadas desse século surgem os grandes veículos. 

 

Um desses veículos nasceu no Ceará, em plena “seca do quinze”, fundado por iniciativa de A.C. Mendes (Álvaro da Cunha Mendes) O “Correio do Ceará” está incluído nessa relação de jornais que marcaram época, noticiando a efervescência cultural, política e econômica do estado brasileiro e do Ceará. Registro, ainda, nesse ensaio, nas primeiras décadas de 1900, o desenvolvimento do comércio no Brasil, inclusive no Ceará. Nesse embalo, os veículos editados para alavancar o comércio nas capitais se destacaram. Jornais do comércio surgiram em todas as grandes cidades, inclusive Fortaleza. 

 

Grandes temas 

O Correio do Ceará equipara-se, historicamente, às mais importantes instituições que pontuaram as etapas do desenvolvimento do Estado e marcou a história de sua capital, Fortaleza, como a Padaria Espiritual, a  Academia Cearense de Letras, o Conservatório Alberto Nepomuceno, a Universidade Federal do Ceará, o Instituto do Ceará, a Associação Cearense de Imprensa-ACI, o DNOCS, o Banco do Nordeste, a SUDENE, a FIEC, dentre outras importantes instituições. 

 

Durante décadas, o Correio do Ceará foi fundamental para o processo de desenvolvimento regional, colocando os temas de interesse do Ceará no cenário nacional. Foi o Correio do Ceará quem ativou o orgulho dos cearenses e emocionou o Brasil, contando a saga dos pescadores Jacaré, Tatá, Jerônimo e Mano Preto, que partiram da Praia de Iracema na jangada São Pedro, com o objetivo de uma audiência, no Rio de Janeiro, com o então presidente Getúlio Vargas. 

 

O Correio do Ceará registrou o “Caldeirão”, fenômeno da luta social nordestina, hoje estudado em todo o mundo. Outros movimentos sociais e políticos também não teriam evidenciado a sua importância no cenário nacional e provavelmente perderia o seu referencial, não fosse a história viva do presente trabalhada pelos historiadores do seu tempo, ou seja, os seus profissionais da comunicação social. O cangaço, Tenentismo, Padre Cícero, as fases do desenvolvimento do Ceará nos planos agrícolas (o “ouro branco” (algodão), a cera da carnaúba, a oiticica, a castanha do caju, o couro, o sal), comercial e industrial, os empreendimentos estruturantes de valor econômico, como o Açude Orós, as ferrovias, o Porto do Mucuripe, a eletrificação com Paulo Afonso, a construção da Catedral de Fortaleza, a literatura de José de Alencar, o êxodo rural, o crescimento urbano e as mudanças no centro da Capital. Ademais, os movimentos políticos, o turismo, a educação, a tecnologia e a instalação do Distrito Industrial de Fortaleza foram temas abordados e que se contextualizaram no plano social, econômico, cultural e político brasileiro através das páginas do jornal Correio do Ceará. 

 

O Correio do Ceará foi a maior escola do jornalismo dos cearenses. Seus antigos profissionais destacaram-se em diversos outros veículos de comunicação, sendo notória a presença de cearenses no comando de redações de jornais, televisões e emissoras de rádios de todo o país, contribuindo, ainda, com suas equipes jornalística, industrial e administrativa, para a implantação das modernas empresas de comunicação do Ceará. 

 

Mais de 100 anos 

Ao completar 103 anos de fundação, no último dia 02 de março de 2018, acredito ser  necessário o resgate do que é possível, do seu valor histórico e, portanto, da importância desse jornal como valorosa instituição pública de nosso Estado. 

 

É interessante como há uma unanimidade desses conceitos expostos, por parte de historiadores, ex-jornalistas da empresa, políticos, intelectuais, leitores em geral e outras personalidades formadoras de opinião. Existem várias referências em publicações impressas, como nas próprias edições do jornal, e atualmente em “sítios” da função que o jornal exerceu na sociedade cearense. Em conversas, entrevistas e indagações recentes (2006/2007) com ex-funcionários do jornal é expressivo o reconhecimento de que a instituição foi importante para a vida profissional de inúmeros trabalhadores. 

 

O que está registrado nas páginas do Correio do Ceará em um período de mais ou menos cinco décadas (20, 30, 40,50 e 60), é um referencial histórico que não se pode excluir das fontes primárias para produção da história. Lamentável é não encontrar em nenhum lugar público ou privado coleções mais ou menos completas do jornal. Na Biblioteca Pública Estadual Menezes Pimentel, em Fortaleza, são raros os anos em que a coleção anual está completa. Mas o que mais pode preocupar é a atual situação de boa parte dos arquivos, necessitando com urgência de restauração para que seu papel deixe de virar pó, e, consequentemente, a criação de arquivos digitais no que possibilitará um grande incentivo a pesquisa do nosso passado. 

 

O Jornal Correio do Ceará foi uma empresa jornalística sólida desde a sua fundação, em 1915, e o seu desenvolvimento histórico está registrado em suas páginas, indicando que desde seus primeiros anos, a observar os textos alusivos aos 10 anos de fundação, seus dirigentes se preocupavam com as suas coleções, pois regularmente recordavam a sua história.  

Na sua “segunda fase”, classificação nossa com a compra pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, esse ritmo não vai ser diferente, pois é percebível o mesmo zelo pela história do jornal nas grandes reportagens realizadas utilizando os seus arquivos para mostrar coerência de linha jornalística e fazer o referencial das questões levantadas antes e o presente. Por isso ficamos a indagar que destino foi dado às coleções encadernadas do veículo e o seu arquivo fotográfico?  Riquíssimo em registro visual do nosso cotidiano e amplo nas versões propagadas dos fatos. 

 

A história cearense revela que, em cada época, em todas as lutas que o povo tomou iniciativa, temos exemplos de mulheres que se dispuseram, sem restrição de nenhuma ordem, com coragem, patriotismo, civismo e amor ao próximo, atingir uma realização. Foram as Libertadoras abolicionistas, as Elviras, as Marias  (bonitas), as Bárbaras, as Antonias, as Mirtes, as Ruths, as Nancis, as Rosas, as Ineldas,  as Nildes, as Lourdes, as Zanetes, as Darcianes, as Zélias, e muitas outras anônimas que contribuíram para o desenvolvimento social. Esses registros estão nas páginas do CORREIO. 

 

Resgatar a história é providencial para entender o momento e se preparar para o futuro. A imprensa, que se tornou comunicação de massa – Mídias – no século passado, através de jornais, revistas, rádio e televisão, formando grandes corporações, hoje é também chamada de “jornalismo cidadão” por conta da mídia eletrônica e através dos aplicativos sociais da internet. 

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